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Vidas Secas

Capítulo 1 — Mudança

Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos. Ordinariamente andavam pouco, mas como haviam repousado bastante na areia do rio seco, a viagem progredira bem três léguas. Fazia horas que procuravam uma sombra. A folhagem dos juazeiros apareceu longe, através dos galhos pelados da catinga rala.

Arrastaram-se para lá, devagar, Sinha Vitória com o filho mais novo escanchado no quarto e o baú de folha na cabeça, Fabiano sombrio, cambaio, o aió a tiracolo, a cuia pendurada numa correia presa ao cinturão, a espingarda de pederneira no ombro. O menino mais velho e a cachorra Baleia iam atrás.

Os juazeiros aproximaram-se, recuaram, sumiram-se. O menino mais velho pôs-se a chorar, sentou-se no chão.

— Anda, condenado do diabo, gritou-lhe o pai.

Não obtendo resultado, fustigou-o com a bainha da faca de ponta. Mas o pequeno esperneou acuado, depois sossegou, deitou-se, fechou os olhos. Fabiano ainda lhe deu algumas pancadas e esperou que ele se levantasse. Como isto não acontecesse, espiou os quatro cantos, zangado, praguejando baixo.

A catinga estendia-se, de um vermelho indeciso salpicado de manchas brancas que eram ossadas. O vôo negro dos urubus fazia círculos altos em redor de bichos moribundos.

— Anda, excomungado.

O pirralho não se mexeu, e Fabiano desejou matá-lo. Tinha o coração grosso, queria responsabilizar alguém pela sua desgraça. A seca aparecia-lhe como um fato necessário — e a obstinação da criança irritava-o. Certamente esse obstáculo miúdo não era culpado, mas dificultava a marcha, e o vaqueiro precisava chegar, não sabia onde.

Tinham deixado os caminhos, cheios de espinho e seixos, fazia horas que pisavam a margem do rio, a lama seca e rachada que escaldava os pés.

Pelo espírito atribulado do sertanejo passou a ideia de abandonar o filho naquele descampado. Pensou nos urubus, nas ossadas, coçou a barba ruiva e suja, irresoluto, examinou os arredores. Sinha Vitória estirou o beiço indicando vagamente uma direção e afirmou com alguns sons guturais que estavam perto. Fabiano meteu a faca na bainha, guardou-a no cinturão, acocorou-se, pegou no pulso do menino, que se encolhia, os joelhos encostados ao estômago, frio como um defunto. Aí a cólera desapareceu e Fabiano teve pena. Impossível abandonar o anjinho aos bichos do mato. Entregou a espingarda a Sinha Vitória, pôs o filho no cangote, levantou-se, agarrou os bracinhos que lhe caíam sobre o peito, moles, finos como cambitos. Sinha Vitória aprovou esse arranjo, lançou de novo a interjeição gutural, designou os juazeiros invisíveis.

E a viagem prosseguiu, mais lenta, mais arrastada, num silêncio grande.

Ausente do companheiro, a cachorra Baleia tomou a frente do grupo. Arqueada, as costelas à mostra, corria ofegando, a língua fora da boca. E de quando em quando se detinha, esperando as pessoas, que se retardavam.

Ainda na véspera eram seis viventes, contando com o papagaio. Coitado, morrera na areia do rio, onde haviam descansado, à beira de uma poça: a fome apertara demais os retirantes e por ali não existia sinal de comida. Baleia jantara os pés, a cabeça, os ossos do amigo, e não guardava lembrança disto. Agora, enquanto parava, dirigia as pupilas brilhantes aos objetos familiares, estranhava não ver sobre o baú de folha a gaiola pequena onde a ave se equilibrava mal. Fabiano também às vezes sentia falta dela, mas logo a recordação chegava. Tinha andado a procurar raízes, à toa: o resto de farinha acabara, não se ouvia um berro de rês perdida na catinga. Sinha Vitória, queimando o assento no chão, as mãos cruzadas segurando os joelhos ossudos, pensava em acontecimentos antigos que não se relacionavam: festas de casamento, vaquejadas, novenas, tudo numa confusão. Despertara-a um grito áspero, vira de perto a realidade e o papagaio, que andava furioso, com os pés apalhetados, numa atitude ridícula. Resolvera de supetão aproveitá-lo como alimento e justificara-se declarando a si mesma que ele era mudo e inútil. Não podia deixar de ser mudo. Ordinariamente a família falava pouco. E depois daquele desastre viviam todos calados, raramente soltavam palavras curtas. O louro aboiava, tangendo um gado inexistente, e latia arremedando a cachorra.

As manchas dos juazeiros tornaram a aparecer, Fabiano aligeirou o passo, esqueceu a fome, a canseira e os ferimentos. As alpercatas dele estavam gastas nos saltos, e a embira tinha-lhe aberto entre os dedos rachaduras muito dolorosas. Os calcanhares, duros como cascos, gretavam-se e sangravam.

Num cotovelo do caminho avistou um canto de cerca, encheu-o a esperança de achar comida, sentiu desejo de cantar. A voz saiu-lhe rouca, medonha. Calou-se para não estragar força.

Deixaram a margem do rio, acompanharam a cerca, subiram uma ladeira, chegaram aos juazeiros. Fazia tempo que não viam sombra.

Sinha Vitória acomodou os filhos, que arriaram como trouxas, cobriu-os com molambos. O menino mais velho, passada a vertigem que o derrubara, encolhido sobre folhas secas, a cabeça encostada a uma raiz, adormecia, acordava. E quando abria os olhos, distinguia vagamente um monte próximo, algumas pedras, um carro de bois. A cachorra Baleia foi enroscar-se junto dele.

Estavam no pátio de uma fazenda sem vida. O curral deserto, o chiqueiro das cabras arruinado e também deserto, a casa do vaqueiro fechada, tudo anunciava abandono. Certamente o gado se finara e os moradores tinham fugido.

Fabiano procurou em vão perceber um toque de chocalho. Avizinhou-se da casa, bateu, tentou forçar a porta. Encontrando resistência, penetrou num cercadinho cheio de plantas mortas, rodeou a tapera, alcançou o terreiro do fundo, viu um barreiro vazio, um bosque de catingueiras murchas, um pé-de-turco e o prolongamento da cerca do curral. Trepou-se no mourão do canto, examinou a catinga, onde avultavam as ossadas e o negrume dos urubus. Desceu, empurrou a porta da cozinha. Voltou desanimado, ficou um instante no copiar, fazendo tenção de hospedar ali a família. Mas chegando aos juazeiros, encontrou os meninos adormecidos e não quis acordá-los. Foi apanhar gravetos, trouxe do chiqueiro das cabras uma braçada de madeira meio roída pelo cupim, arrancou touceiras de macambira, arrumou tudo para a fogueira.

Nesse ponto Baleia arrebitou as orelhas, arregaçou as ventas, sentiu cheiro de preás, farejou um minuto, localizou-os no morro próximo e saiu correndo.

Fabiano seguiu-a com a vista e espantou-se: uma sombra passava por cima do monte. Tocou o braço da mulher, apontou o céu, ficaram os dois algum tempo agüentando a claridade do sol. Enxugaram as lágrimas, foram agachar-se perto dos filhos, suspirando, conservaram-se encolhidos, temendo que a nuvem se tivesse desfeito, vencida pelo azul terrível, aquele azul que deslumbrava e endoidecia a gente.

Entrava dia e saía dia. As noites cobriam a terra de chofre. A tampa anilada baixava, escurecia, quebrada apenas pelas vermelhidões do poente.

Miudinhos, perdidos no deserto queimado, os fugitivos agarraram-se, somaram as suas desgraças e os seus pavores. O coração de Fabiano bateu junto do coração de Sinha Vitória, um abraço cansado aproximou os farrapos que os cobriam. Resistiram à fraqueza, afastaram-se envergonhados, sem ânimo de afrontar de novo a luz dura, receosos de perder a esperança que os alentava.

Iam-se amodorrando e foram despertados por Baleia, que trazia nos dentes um preá. Levantaram-se todos gritando. O menino mais velho esfregou as pálpebras, afastando pedaços de sonho. Sinha Vitória beijava o focinho de Baleia, e como o focinho estava ensangüentado, lambia o sangue e tirava proveito do beijo.

Aquilo era caça bem mesquinha, mas adiaria a morte do grupo. E Fabiano queria viver. Olhou o céu com resolução. A nuvem tinha crescido, agora cobria o morro inteiro. Fabiano pisou com segurança, esquecendo as rachaduras que lhe estragavam os dedos e os calcanhares.

Sinha Vitória remexeu no baú, os meninos foram quebrar uma haste de alecrim para fazer um espeto. Baleia, o ouvido atento, o traseiro em repouso e as pernas da frente erguidas, vigiava, aguardando a parte que lhe iria tocar, provavelmente os ossos do bicho e talvez o couro.

Fabiano tomou a cuia, desceu a ladeira, encaminhou-se ao rio seco, achou no bebedouro dos animais um pouco de lama. Cavou a areia com as unhas, esperou que a água marejasse e, debruçando-se no chão, bebeu muito. Saciado, caiu de papo para cima, olhando as estrelas, que vinham nascendo. Uma, duas, três, quatro, havia muitas estrelas, havia mais de cinco estrelas no céu. O poente cobria-se de cirros — e uma alegria doida enchia o coração de Fabiano.

Pensou na família, sentiu fome. Caminhando, movia-se como uma coisa, para bem dizer não se diferençava muito da bolandeira de Seu Tomás. Agora, deitado, apertava a barriga e batia os dentes. Que fim teria levado a bolandeira de Seu Tomás?

Olhou o céu de novo. Os cirros acumulavam-se, a Lua surgiu, grande e branca. Certamente ia chover.

Seu Tomás fugira também, com a seca, a bolandeira estava parada. E ele, Fabiano, era como a bolandeira. Não sabia por que, mas era. Uma, duas, três, havia mais de cinco estrelas no céu. A Lua estava cercada de um halo cor de leite. Ia chover. Bem. A catinga ressuscitaria, a semente do gado voltaria ao curral, ele, Fabiano, seria o vaqueiro daquela fazenda morta. Chocalhos de badalos de ossos animariam a solidão. Os meninos, gordos, vermelhos, brincariam no chiqueiro das cabras, Sinha Vitória vestiria saias de ramagens vistosas. As vacas povoariam o curral. E a catinga ficaria toda verde.

Lembrou-se dos filhos, da mulher e da cachorra, que estavam lá em cima, debaixo de um juazeiro, com sede. Lembrou-se do preá morto. Encheu a cuia, ergueu-se, afastou-se, lento, para não derramar a água salobra. Subiu a ladeira. A aragem morna sacudia os xiquexiques e os mandacarus. Uma palpitação nova. Sentiu um arrepio na catinga, uma ressurreição de garranchos e folhas secas.

Chegou. Pôs a cuia no chão, escorou-a com pedras, matou a sede da família. Em seguida acocorou-se, remexeu o aió, tirou o fuzil, acendeu as raízes de macambira, soprou-as, inchando as bochechas cavadas. Uma labareda tremeu, elevou-se, tingiu-lhe o rosto queimado, a barba ruiva, os olhos azuis. Minutos depois o preá torcia-se e chiava no espeto de alecrim.

Eram todos felizes. Sinha Vitória vestiria uma saia larga de ramagens. A cara murcha de Sinha Vitória remoçaria, as nádegas bambas de Sinha Vitória engrossariam, a roupa encarnada de Sinha Vitória provocaria a inveja das outras caboclas.

A lua crescia, a sombra leitosa crescia, as estrelas foram esmorecendo naquela brancura que enchia a noite. Uma, duas, três, agora havia poucas estrelas no céu. Ali perto a nuvem escurecia o morro.

A fazenda renasceria — e ele, Fabiano, seria o vaqueiro, para bem dizer seria dono daquele mundo.

Os troços minguados ajuntavam-se no chão: a espingarda de pederneira, o aió, a cuia de água e o baú de folha pintada. A fogueira estalava. O preá chiava em cima das brasas.

Uma ressurreição. As cores da saúde voltariam à cara triste de Sinha Vitória. Os meninos se espojariam na terra fofa do chiqueiro das cabras. Chocalhos tilintariam pelos arredores. A catinga ficaria verde.

Baleia agitava o rabo, olhando as brasas. E como não podia ocupar-se daquelas coisas, esperava com paciência a hora de mastigar os ossos. Depois iria dormir.

Capítulo 2 — Fabiano

Fabiano curou no rasto a bicheira da novilha raposa. Levava no aió um frasco de creolina, e se houvesse achado o animal, teria feito o curativo ordinário. Não o encontrou, mas supôs distinguir as pisadas dele na areia, baixou-se, cruzou dois gravetos no chão e rezou. Se o bicho não estivesse morto, voltaria para o curral, que a oração era forte.

Cumprida a obrigação, Fabiano levantou-se com a consciência tranqüila e marchou para casa. Chegou-se à beira do rio. A areia fofa cansava-o, mas ali, na lama seca, as alpercatas dele faziam chape-chape, os badalos dos chocalhos que lhe pesavam no ombro, pendurados em correias, batiam surdos. A cabeça inclinada, o espinhaço curvo, agitava os braços para a direita e para a esquerda. Esses movimentos eram inúteis, mas o vaqueiro, o pai do vaqueiro, o avô e outros antepassados mais antigos haviam-se acostumado a percorrer veredas, afastando o mato com as mãos. E os filhos já começavam a reproduzir o gesto hereditário.

Chape-chape. Os três pares de alpercatas batiam na lama rachada, seca e branca por cima, preta e mole por baixo. A lama da beira do rio, calcada pelas alpercatas, balançava.

A cachorra Baleia corria na frente, o focinho arregaçado, procurando na catinga a novilha raposa.

Fabiano ia satisfeito. Sim senhor, arrumara-se. Chegara naquele estado, com a família morrendo de fome, comendo raízes. Caíra no fim do pátio, debaixo de um juazeiro, depois tomara conta da casa deserta. Ele, a mulher e os filhos tinham-se habituado à camarinha escura, pareciam ratos — e a lembrança dos sofrimentos passados esmorecera.

Pisou com firmeza no chão gretado, puxou a faca de ponta, esgaravatou as unhas sujas. Tirou do aió um pedaço de fumo, picou-o, fez um cigarro com palha de milho, acendeu-o ao binga, pôs-se a fumar regalado.

— Fabiano, você é um homem, exclamou em voz alta.

Conteve-se, notou que os meninos estavam perto, com certeza iam admirar-se ouvindo-o falar só. E, pensando bem, ele não era homem: era apenas um cabra ocupado em guardar coisas dos outros. Vermelho, queimado, tinha os olhos azuis, a barba e os cabelos ruivos; mas como vivia em terra alheia, cuidava de animais alheios, descobria-se, encolhia-se na presença dos brancos e julgava-se cabra.

Olhou em torno, com receio de que, fora os meninos, alguém tivesse percebido a frase imprudente. Corrigiu-a, murmurando:

— Você é um bicho, Fabiano.

Isto para ele era motivo de orgulho. Sim senhor, um bicho, capaz de vencer dificuldades.

Chegara naquela situação medonha — e ali estava, forte, até gordo, fumando o seu cigarro de palha.

— Um bicho, Fabiano.

Era. Apossara-se da casa porque não tinha onde cair morto, passara uns dias mastigando raiz de imbu e sementes de mucunã. Viera a trovoada. E, com ela, o fazendeiro, que o expulsara. Fabiano fizera-se desentendido e oferecera os seus préstimos, resmungando, coçando os cotovelos, sorrindo aflito. O jeito que tinha era ficar. E o patrão aceitara-o, entregara-lhe as marcas de ferro.

Agora Fabiano era vaqueiro, e ninguém o tiraria dali. Aparecera como um bicho, entocara-se como um bicho, mas criara raízes, estava plantado. Olhou as quipás, os mandacarus e os xiquexiques. Era mais forte que tudo isso, era como as catingueiras e as baraúnas. Ele, Sinha Vitória, os dois filhos e a cachorra Baleia estavam agarrados à terra.

Chape-chape. As alpercatas batiam no chão rachado. O corpo do vaqueiro derreava-se, as pernas faziam dois arcos, os braços moviam-se desengonçados. Parecia um macaco.

Entristeceu. Considerar-se plantado em terra alheia! Engano. A sina dele era correr mundo, andar para cima e para baixo, à toa, como judeu errante. Um vagabundo empurrado pela seca. Achava-se ali de passagem, era hóspede. Sim senhor, hóspede que se demorava demais, tomava amizade à casa, ao curral, ao chiqueiro das cabras, ao juazeiro que os tinha abrigado uma noite.

Deu estalos com os dedos. A cachorra Baleia, aos saltos, veio lamber-lhe as mãos grossas e cabeludas. Fabiano recebeu a carícia, enterneceu-se:

— Você é um bicho, Baleia.

Vivia longe dos homens, só se dava bem com animais. Os seus pés duros quebravam espinhos e não sentiam a quentura da terra. Montado, confundia-se com o cavalo, grudava-se a ele. E falava uma linguagem cantada, monossilábica e gutural, que o companheiro entendia. A pé, não se agüentava bem. Pendia para um lado, para o outro lado, cambaio, torto e feio. Às vezes utilizava nas relações com as pessoas a mesma língua com que se dirigia aos brutos — exclamações, onomatopéias. Na verdade falava pouco. Admirava as palavras compridas e difíceis da gente da cidade, tentava reproduzir algumas, em vão, mas sabia que elas eram inúteis e talvez perigosas.

Uma das crianças aproximou-se, perguntou-lhe qualquer coisa. Fabiano parou, franziu a testa, esperou de boca aberta a repetição da pergunta. Não percebendo o que o filho desejava, repreendeu-o. O menino estava ficando muito curioso, muito enxerido. Se continuasse assim, metido com o que não era da conta dele, como iria acabar? Repeliu-o, vexado:

— Esses capetas têm idéias...

Não completou o pensamento, mas achou que aquilo estava errado. Tentou recordar o seu tempo de infância, viu-se miúdo, enfezado, a camisinha encardida e rota, acompanhando o pai no serviço do campo, interrogando-o debalde. Chamou os filhos, falou de coisas imediatas, procurou interessá-los. Bateu palmas:

— Ecoô! ecoô!

A cachorra Baleia saiu correndo entre os alastrados e quipás, farejando a novilha raposa. Depois de alguns minutos voltou desanimada, triste, o rabo murcho. Fabiano consolou-a, afagou-a. Queria apenas dar um ensinamento aos meninos. Era bom eles saberem que deviam proceder assim.

Alargou o passo, deixou a lama seca da beira do rio, chegou à ladeira que levava ao pátio. Ia inquieto, uma sombra no olho azulado. Era como se na sua vida houvesse aparecido um buraco. Necessitava falar com a mulher, afastar aquela perturbação, encher os cestos, dar pedaços de mandacaru ao gado. Felizmente a novilha estava curada com reza. Se morresse, não seria por culpa dele.

— Ecoô! ecoô!

Baleia voou de novo entre as macambiras, inutilmente. As crianças divertiram-se, animaram-se, e o espírito de Fabiano se destoldou. Aquilo é que estava certo. Baleia não podia achar a novilha num banco de macambira, mas era conveniente que os meninos se acostumassem ao exercício fácil — bater palmas, expandir-se em gritaria, seguindo os movimentos do animal. A cachorra tornou a voltar, a língua pendurada, arquejando. Fabiano tomou a frente do grupo, satisfeito com a lição, pensando na égua que ia montar, uma égua que não fora ferrada nem levara sela. Haveria na catinga um barulho medonho.

==Agora== queria entender-se com Sinha Vitória a respeito da educação dos pequenos. Certamente ela não era culpada. Entregue aos arranjos da casa, regando os craveiros e as panelas de losna, descendo ao bebedouro com o pote vazio e regressando com o pote cheio, deixava os filhos soltos no barreiro, enlameados como porcos. E eles estavam perguntadores, insuportáveis. Fabiano dava-se bem com a ignorância. Tinha o direito de saber? Tinha? Não tinha.

— Está aí.

Se aprendesse qualquer coisa, necessitaria aprender mais, e nunca ficaria satisfeito.

Lembrou-se de Seu Tomás da bolandeira. Dos homens do sertão o mais arrasado era Seu Tomás da bolandeira. Por quê? Só se era porque lia demais. Ele, Fabiano, muitas vezes dissera: — "Seu Tomás, vossemecê não regula. Para que tanto papel? Quando a desgraça chegar, Seu Tomás se estrepa, igualzinho aos outros." Pois viera a seca, e o pobre do velho, tão bom e tão lido, perdera tudo, andava por aí, mole. Talvez já tivesse dado o couro às varas, que pessoa como ele não podia agüentar verão puxado.

Certamente aquela sabedoria inspirava respeito. Quando Seu Tomás da bolandeira passava, amarelo, sisudo, corcunda, montado num cavalo cego, pé aqui, pé acolá, Fabiano e outros semelhantes descobriam-se. E Seu Tomás respondia tocando na beira do chapéu de palha, virava-se para um lado e para outro, abrindo muito as pernas calçadas em botas pretas com remendos vermelhos.

Em horas de maluqueira Fabiano desejava imitá-lo: dizia palavras difíceis, truncando tudo, e convencia-se de que melhorava. Tolice. Via-se perfeitamente que um sujeito como ele não tinha nascido para falar certo.

Seu Tomás da bolandeira falava bem, estragava os olhos em cima de jornais e livros, mas não sabia mandar: pedia. Esquisitice um homem remediado ser cortês. Até o povo censurava aquelas maneiras. Mas todos obedeciam a ele. Ah! Quem disse que não obedeciam?

Os outros brancos eram diferentes. O patrão atual, por exemplo, berrava sem precisão. Quase nunca vinha à fazenda, só botava os pés nela para achar tudo ruim. O gado aumentava, o serviço ia bem, mas o proprietário descompunha o vaqueiro. Natural. Descompunha porque podia descompor, e Fabiano ouvia as descomposturas com o chapéu de couro debaixo do braço, desculpava-se e prometia emendar-se. Mentalmente jurava não emendar nada, porque estava tudo em ordem, e o amo só queria mostrar autoridade, gritar que era dono. Quem tinha dúvida?

Fabiano, uma coisa da fazenda, um traste, seria despedido quando menos esperasse. Ao ser contratado, recebera o cavalo de fábrica, perneiras, gibão, guarda-peito e sapatões de couro cru, mas ao sair largaria tudo ao vaqueiro que o substituísse.

Sinha Vitória desejava possuir uma cama igual à de Seu Tomás da bolandeira. Doidice. Não dizia nada para não contrariá-la, mas sabia que era doidice. Cambembes podiam ter luxo? E estavam ali de passagem. Qualquer dia o patrão os botaria fora, e eles ganhariam o mundo, sem rumo, nem teriam meio de conduzir os cacarecos. Viviam de trouxa arrumada, dormiriam bem debaixo de um pau.

Olhou o catinga amarela, que o poente avermelhava. Se a seca chegasse, não ficaria planta verde. Arrepiou-se. Chegaria, naturalmente. Sempre tinha sido assim, desde que ele se entendera. E antes de se entender, antes de nascer, sucedera o mesmo — anos bons misturados com anos ruins. A desgraça estava em caminho, talvez andasse perto. Nem valia a pena trabalhar. Ele marchando para casa, trepando a ladeira, espalhando seixos com as alpercatas — ela se avizinhando a galope, com vontade de matá-lo.

Virou o rosto para fugir à curiosidade dos filhos, benzeu-se. Não queira morrer. Ainda tencionava correr mundo, ver terras, conhecer gente importante como Seu Tomás da bolandeira. Era uma sorte ruim, mas Fabiano desejava brigar com ela, sentir-se com força para brigar com ela e vencê-la. Não queira morrer. Estava escondido no mato como tatu. Duro, lerdo como tatu. Mas um dia sairia da toca, andaria com a cabeça levantada, seria homem.

— Um homem, Fabiano.

Coçou o queixo cabeludo, parou, reacendeu o cigarro. Não, provavelmente não seria homem: seria aquilo mesmo a vida inteira, cabra, governado pelos brancos, quase uma rês na fazenda alheia.

Mas depois? Fabiano tinha a certeza de que não se acabaria tão cedo. Passara dias sem comer, apertando o cinturão, encolhendo o estômago. Viveria muitos anos, viveria um século. Mas se morresse de fome ou nas pontas de um touro, deixaria filhos robustos, que gerariam outros filhos.

Tudo seco em redor. E o patrão era seco também, arreliado, exigente e ladrão, espinhoso como um pé de mandacaru.

Indispensável os meninos entrarem no bom caminho, saberem cortar mandacaru para o gado, consertar cercas, amansar brabos. Precisavam ser duros, virar tatus. Se não calejassem, teriam o fim de Seu Tomás da bolandeira. Coitado. Para que lhe servira tanto livro, tanto jornal? Morrera por causa do estômago doente e das pernas fracas.

Um dia... Sim, quando as secas desaparecessem e tudo andasse direito... Seria que as secas iriam desaparecer e tudo andar certo? Não sabia. Seu Tomás da bolandeira é que devia ter lido isso. Livres daquele perigo, os meninos poderiam falar, perguntar, encher-se de caprichos. Agora tinham obrigação de comportar-se como gente da laia deles.

Alcançou o pátio, enxergou a casa baixa e escura, de telhas pretas, deixou atrás os juazeiros, as pedras onde se jogavam cobras mortas, o carro de bois. As alpercatas dos pequenos batiam no chão branco e liso. A cachorra Baleia trotava arquejando, a boca aberta.

Aquela hora Sinha Vitória devia estar na cozinha, acocorada junto à trempe, a saia de ramagens entalada entre as coxas, preparando a janta. Fabiano sentiu vontade de comer. Depois da comida, falaria com Sinha Vitória a respeito da educação dos meninos.

Capítulo 3 — Cadeia

Fabiano tinha ido à feira da cidade comprar mantimentos. Precisava sal, farinha, feijão e rapaduras. Sinha Vitória pedira além disso uma garrafa de querosene e um corte de chita vermelha. Mas o querosene de Seu Inácio estava misturado com água, e a chita da amostra era cara demais.

Fabiano percorreu as lojas, escolhendo o pano, regateando um tostão em côvado, receoso de ser enganado. Andava irresoluto, uma longa desconfiança dava-lhe gestos oblíquos. À tarde puxou o dinheiro, meio tentado, e logo se arrependeu, certo de que todos os caixeiros furtavam no preço e na medida: amarrou as notas na ponta do lenço, meteu-as na algibeira, dirigiu-se à bodega de Seu Inácio, onde guardara os piquás.

Aí certificou-se novamente de que o querosene estava batizado e decidiu beber uma pinga, pois sentia calor. Seu Inácio trouxe a garrafa de aguardente. Fabiano virou o copo de um trago, cuspiu, limpou os beiços à manga, contraiu o rosto. Ia jurar que a cachaça tinha água. Por que seria que Seu Inácio botava água em tudo? perguntou mentalmente. Animou-se e interrogou o bodegueiro:

— Por que é que vossemecê bota água em tudo?

Seu Inácio fingiu não ouvir. E Fabiano foi sentar-se na calçada, resolvido a conversar. O vocabulário dele era pequeno, mas em horas de comunicabilidade enriquecia-se com algumas expressões de Seu Tomás da bolandeira. Pobre de Seu Tomás. Um homem tão direito sumir-se como cambembe, andar por este mundo de trouxa nas costas. Seu Tomás era pessoa de consideração e votava. Quem diria?

Nesse ponto um soldado amarelo aproximou-se e bateu familiarmente no ombro de Fabiano:

— Como é, camarada? Vamos jogar um trinta-e-um lá dentro?

Fabiano atentou na farda com respeito e gaguejou que não tinha dinheiro. Mas ele tinha dinheiro, o cobre da feira, tudo em notas amarrotadas no lenço, um nó apertado no fundo da algibeira.

O amarelo insistiu, e Fabiano foi com ele para o interior da bodega, onde havia uma mesa com cartas de jogar e copos. Recebeu uma carta de baixo e embirrou porque o soldado amarelo, sentando-se, encostou uma perna nele. Afastou-se, num movimento de cadeira, e baralhou os couros. O jogo prosseguiu em silêncio. A final Fabiano levantou-se, agitando-se nervoso:

— Não vou jogar mais. Vou-me embora.

O soldado amarelo deu-lhe um empurrão, Fabiano ergueu a mão para defender-se e levou uma bofetada. Saiu da bodega cambaleando, sentindo na cara um peso enorme.

Na rua, uma perna atirou-lhe rasteira, e Fabiano rolou na poeira da calçada. Levantou-se atordoado, viu um círculo de pessoas em torno. Indagaram-lhe se queria ir para a cadeia e dar sopapos nos polícias. Fabiano respondeu que não queria. Tinha sido um mal-entendido. Mas disseram que ia, que estava bêbado. Cambaleou para a praça, atravessou-a, foi até à cadeia, empurrado a ponta-pés.

Fabiano marchou desorientado, entrou na cadeia, ouviu sem compreender uma acusação medonha e não se defendeu. Estava embriagado, era um cavalgadura, e como não tinha forças para brigar, xingaram-no a valer. Tentou explicar-se. Não acreditaram nele: — «Assobiou desrespeitando-nos, cambada de moleques, foi para a feira fazer negócio e está nas portas de cadeia.»

Fabiano caiu de joelhos, repetidamente uma lâmina de facão bateu-lhe no peito, outra nas costas. Em seguida abriram uma porta, deram-lhe um safanão que o arremessou para as trevas do cárcere. A chave tilintou na fechadura. Fabiano ergueu-se atordoado, cambaleou, sentou-se num canto. Aos poucos os objetos se tornaram brancos e foram clareando.

Encolhido num ângulo da prisão, Fabiano pôs-se a repisar a viagem e a chegada à feira, viu-se em cima do cavalo de fábrica, as perneiras apertando-lhe as coxas, a guiada puxada para trás, o chapéu de couro caído sobre a nuca, os cascos do animal espalhando poeira na estrada. Lembrava a visita às lojas, a indecisão, o regateio, as contas feitas a lápis, na palma da mão, a rua cheia de gente. Tudo errado.

Estava preso, e sem saber por quê. Aparentemente, havia cometido uma falta grave, mas o que era? Procurou recordar as leis que aprendera na infância, com o pai. Nada. Não sabia. Preso como um cachorro. E não percebendo a razão, sentia-se atordoado. Como é que tinha chegado àquele estado? Procurou recordar-se das circunstâncias. Não conseguiu.

Imaginação! Os seus negócios tinham ido mal, e por causa disto a autoridade o pegara. Se os negócios corressem bem, ele seria respeitado. Como sempre acontecia. Seu Inácio botara água no querosene e na cachaça, não fora preso. Os caixeiros da rua roubavam na medida e no preço, ninguém os levava à cadeia. Muito bem. Mas Fabiano era um pobre diabo, e por isso é que tinha sido preso.

A cólera de Fabiano aumentou. Vacilou, e numa oscilação lembrou-se de Sinha Vitória, dos meninos. Juntou as mãos, rezou. Estava com medo. Não conhecia a lei. Imaginou que um dia, de repente, o governo ia enforcar nele na cadeia, sem mais aquela. Tremeu.

Passou a noite num sono pesadelo, esbordoado. De manhã fizeram-no sair. A tonteira redobrou, os objetos se multiplicaram. Fabiano sentiu-se perdido no meio de tanta gente. A escuridão deu lugar a uma confusão de cores incertas, vozes zumbiam. Houve um ajuntamento, homens curiosos apalpavam-no.

— Esse é o tal.

Fabiano marchou, chegou à rua, viu os céus, as casas, as pessoas, e espantou-se. Tudo aquilo existia? Acostumara-se tanto à escuridão que a luz o cegava. Os indivíduos passavam, deixando-o para trás; as lojas, os bancos, os passeios, desapareciam; a igreja era branca, o sino tilintava; as portas entravam na parede, a rua fugia debaixo das alpercatas de Fabiano. Tudo diminuía de repente. Fabiano caminhava como se voasse.

Quase sem perceber o que fazia, entrou na bodega, tomou uma pinga, saiu. Aquilo reanimou-o ligeiramente, mas logo depois o frio da manhã, um frio úmido, enregelou-o. Endireitou o caminho da casa, debaixo dos juazeiros. Alcançou os piquás, montou, deu uma volta pelos arredores da vila, para endurecer, aproximou-se da bodega de Seu Inácio, amarrou o cavalo ao mourão, empurrou a porta de espigão.

Pediu uma garrafa de aguardente, encheu e bebeu um copo. Viu numa mesa, ao canto, perto da porta, o soldado amarelo, que dormia. A raiva de Fabiano cresceu desmedidamente. Esqueceu os ferimentos, os perigos que o ameaçavam, esqueceu tudo. Deu um passo para a mesa, ofegante. Em seguida voltou-se para Seu Inácio e declarou com voz branda:

— Vou quebrar os costados deste sem-vergonha.

Seu Inácio afastou-se depressa, sumiu-se, e Fabiano, sem prestar atenção à fuga do bodegueiro, aproximou-se do soldado que dormia.

Parou, vendo surgir na porta da rua um oficial. Bateu continência e abriu caminho, mas ficou plantado à porta do bilhar, olhando para o soldado amarelo, que ressonou, mexeu-se, acordou, e saiu da bodega, olhando Fabiano com desprezo.

Fabiano livrou-se da presença do oficial, mas a raiva persistiu. Saiu, montou, marchou para o bebedouro, onde estava o cavalo de fábrica, acocorou-se numa pedra, os pés na água, os joelhos contra o peito, a testa nas mãos.

O ódio que Fabiano sentia pela autoridade vacilou, diminuiu. Se não fosse a intervenção de Seu Inácio e o aparecimento do oficial, ela teria feito besteira. O soldado amarelo era um infeliz. Estava dormindo, não podia defender-se. E era soldado. Agredindo-o, Fabiano cometeria um crime horrível. Vexame. Mas Fabiano estava livre. Livre, solto, sem precisar de coragem. A farda amarela passava longe, e ele, no bebedouro, no meio dos bichos, podia insultar os homens que fardavam, sossegado, esquecendo a cadeia, os ferimentos, os pontapés.

Voltou para casa, de má vontade, porque lá não podia desabafar. A tarde caía. As alpercatas de Fabiano batiam no chão gretado. A alma do vaqueiro povoava-se de raiva, medo, indignação. Tinha vontade de gritar, berrar desaforos contra a farda. Mas a farda estava longe, o soldado amarelo longe. E os berros de Fabiano não seriam ouvidos. Levantou os braços, tornou a baixá-los, impotente.

Diante dele a caatinga se estendia, cor de cinza. No céu dardejava o sol vermelho. Fabiano marchou para casa num crepúsculo medonho. E quando chegou ao juazeiro, perto da fazenda, viu Baleia, que o esperava, deitada entre as pedras. Levantou-se, veio correndo, lambendo-lhe as mãos.

Fabiano recebeu a carícia abanando a cabeça e olhando a catinga amarela, onde avultavam, além dos juazeiros, algumas manchas brancas de ossadas, e a sombra dos urubus. Suspirou. Que sorte! Um branco era dono da fazenda, o outro era o fiscal, o terceiro era o chefe político, todos tinham terra, animais, pistolas, chapéus de couro, pilhas de dinheiro em baús. Fabiano não tinha nada. Sim senhor, nada.

Se pudesse mudar-se, trabalhar para outro patrão, dar parte do que colhesse, sem negócio de partilha. Se pudesse um dia plantar alguma coisa... Besteira. Não sabia fazer contas, tinha de aceitar o que o patrão lhe dava. Nunca tinha podido conhecer bem o patrão. Era um homem seco, que dava ordens secas. Fabiano ouvia essas ordens, abaixava a cabeça, arreliado, e saía de costas, como um cachorro sem dono. Não podia reclamar. Se reclamasse, seria posto na rua, sem direito a nada, e teria de caminhar, levando a trouxa nas costas. E a trouxa era pesada.

Baleia saltou e correu na frente. Fabiano seguiu-a, trôpego, os pés feridos pelas rachaduras das alpercatas, torto, feio, de testa baixa. Chegou em casa, acomodou os piquás no jirau, sentou-se no chão, as costas encostadas à parede, as pernas dobradas, o chapéu de couro caindo para a nuca.

Sinha Vitória veio ter com ele, perguntou-lhe se estava doente. Fabiano grunhiu, afirmou que não tinha nada. Ficou calado, olhando as pernas de Sinha Vitória, que iam e vinham no serviço da cozinha. Sinha Vitória falou de coisas imediatas, procurou interessá-lo. Quis saber se tinha comprado mantimentos. Fabiano resmungou que tinha deixado tudo na cidade, na bodega de Seu Inácio.

— E o dinheiro?

Fabiano puxou a nota e o cobre, entregou-os à mulher, que os guardou na arca onde estava a roupa de domingo. Afastou-se, preocupada, arrumando a saia nos quadris, acocorou-se junto à trempe, entre os filhos. Fabiano não teve coragem de contar nada e continuou imóvel e calado. Aos poucos a cólera diminuiu, e Fabiano tornou-se um infeliz, cheio de pequenez.

Não podia dizer em voz alta que era infeliz e fraco. Sinha Vitória é que dizia essas coisas. Mas pensava muito nelas, principalmente agora que, por causa do soldado amarelo, se sentia mais fraco que nunca.

Baleia encostou o focinho às pernas dele, lambeu-as. Fabiano afagou-a e animou-se. Levantou a cabeça, acomodou-se na cangalha, os joelhos dobrados, as pernas esticadas ao longo das tábuas. Ia resistir. Mas o que se passava com ele era singular. Não podia contar a Sinha Vitória as coisas que lhe haviam acontecido. Nem a si mesmo podia contar direito aquilo. Sentia raiva, vexame, espanto. Estava preso à véspera porque tinha sido preso. Um absurdo.

Capítulo 4 — Sinha Vitoria

Acocorada junto às pedras que serviam de trempe, a saia de ramagens entalada entre as coxas, Sinha Vitória soprava o fogo. Uma nuvem de cinza voou dos tições e cobriu-lhe a cara, a fumaça inundou-lhe os olhos, o rosário de contas brancas e azuis desprendeu-se do cabeção e bateu na panela. Sinha Vitória limpou as lágrimas com as costas das mãos, encarquilhou as pálpebras, meteu o rosário no seio e continuou a soprar com vontade, enchendo muito as bochechas.

Labaredas lamberam as achas de angico, esmoreceram, tornaram a levantar-se e espalharam-se entre as pedras. Sinha Vitória aprumou o espinhaço e agitou o abano. Uma chuva de faíscas mergulhou num banho luminoso a cachorra Baleia, que se enroscava no calor e cochilava embalada pelas emanações da comida.

Sentindo a deslocação do ar e a crepitação dos gravetos, Baleia despertou, retirou-se prudentemente, receosa de sapecar o pêlo, e ficou observando maravilhada as estrelinhas vermelhas que se apagavam antes de tocar o chão. Bocejou, entorpecida, desejando comunicar às pessoas a sua satisfação.

Chegou-se a Sinha Vitória, acariciou-a com os olhos, lambeu-lhe as alpercatas de rasgaduras. Em seguida afastou-se, deu duas voltas para o lado da porta e da janela, inquieta, atravessou o copiar, entrou na sala. Voltou, inquieta, passou pela cozinha, foi açular os meninos que se divertiam no barreiro, tentou inutilmente morder a cauda. Nada disto interessava, Baleia queria mostrar-se agradecida à dona, mas não possuía meios. Sinha Vitória é que não fazia caso dela.

Estava ocupadíssima em cozinhar a janta. Depois lavaria os pratos, as colheres de pau, a panela de barro, poria tudo num canto da trempe, amontoado. Varria a cozinha, ia lavar-se na biqueira da telha. Depois se deitaria no chão. E não abriria mais a boca até o outro dia. Nada a distraía. Era como se o curral, o chiqueiro, os juazeiros, o menino mais novo, que não queria saber de andar no cocorote e caíra no bebedouro, escabichando-se, o menino mais velho, que se esfolara no pé de catingueira, o marido, molambo e sujo de sangue coalhado, não existissem.

Quando a panela fervesse, recuaria um pouco, sentaria na pedra que ficava perto do pote da água, desencostaria as alpercatas com uma careta, esfregaria os dedos torrados, inchados, molhados. Mas agora a panela não fervia. E Sinha Vitória soprava.

O fogo estalava. Às vezes Baleia o encarava, tomava a resolução de retirar-se, mas voltava prudentemente, receando perder alguma coisa. Não se contentava com ossos. Queria um naco de carne. E Sinha Vitória não lhe dava. Por aí imaginava que a dona era uma criatura má. Os olhos dela não tinham brilho nenhum; a boca era má, apertava-se num bico que avançava e se contraía, deixando ver os dentes. Sinha Vitória falava, e os sons que produzia eram sempre os mesmos. Nunca tinha visto uma dona assim. Felizmente havia no rancho um ser superior e bom — Fabiano, que chegaria do serviço tarde da noite, com a camisa e as calças de zuarte manchadas de sangue.

Baleia ia recebê-lo na estrada, junto ao cruzeiro. Cheirava-lhe as pernas, roçava a cabeça nelas — e Fabiano acariciava-a olhando-lhe os flancos magros, as costelas salientes. A cachorra se afastava satisfeita, correndo no escuro, e dava voltas ao redor do marido de Sinha Vitória.

Andavam assim até o jirau, onde as alpercatas de Fabiano batiam no chão, grossas e duras. Sinha Vitória, na cozinha, ouvia os rumores que vinham da sala, onde ele arrumava o gibão, a guarda-peito, as perneiras e o chapéu de couro, tirava as esporas e as guardava debaixo da rede, arrastava um dos bancos para o copiar, estirava-se nele, dobrava um braço, fazia uma travesseira.

Quando Fabiano roncava, ela o chamava, e iam para a cozinha tomar café. Às vezes, nos dias de serviço leve, conversavam. Sinha Vitória falava em cama de couro. Ora, cama de couro! Não sabia por que, mas Fabiano desejava cama de lastro de couro. Seria bom ter um móvel assim, importante. Fazia figura. Dava sensação de conforto e segurança.

Sinha Vitória insistia: Seu Tomás da bolandeira tinha cama. E Sinha Vitória desejava uma cama. Seu Tomás era remediado e desabusado. A cama dele era de vara, não era de couro. Couro de boi era bruto e peludo, só servia para caboclos sem delicadeza. Ela queria era uma cama de varas. Sinha Vitória estava certa. Mas deviam possuir qualquer coisa que lembrasse Seu Tomás da bolandeira. Era um homem muito sabido. Lera livros, jornais. Levantava-se cedo, punha o chapéu de palha, ia para o curral, andava à toa, os pés para trás, procurando as suas cavalgaduras, que pastavam soltas. As esporas do cavaleiro tilintavam.

Fabiano também seria assim, se não fosse aquele negócio da cama. Tolice, naturalmente seria. Como é que um sem-vergonha, um matuto da catinga, podia ter cama decente? Era uma sorte haver naquela terra seca um patrão e uma patroa, que, coitados, tinham dó da gente.

Sinha Vitória desejou o bem-estar de Seu Tomás. Coitado. Se a seca chegasse, ele abandonaria a bolandeira, o cavalo de sela e a cama, agarrava a trouxa e caía no mundo. Ela, Sinha Vitória, seria como ele, se aquela necessidade tão simples tivesse sido satisfeita. Uma cama. Fora criada dormindo em esteiras. Os pais, que dormiam em esteira, não conseguiram fazer-lhe o mimo, não possuíam uma cama.

Agora, pensando naquilo, aperreava-se. Não queria morrer. Ainda esperava dias melhores, colheita abundante, o chiqueiro e o curral cheios. Aguentaria firme, embrulhada nos molambos. A roupa era uma miséria. E o colchão de capim? Não se lembrava de colchão. Teria sido bom possuir colchão. Sinha Vitória lembrou-se de filhos novos. Eram fracos, embora gritassem muito, talvez morressem logo. Se morressem, sofreriam menos.

Era uma sorte haver ainda algumas galinhas. As cabras estavam lá fora, pastando, os chocalhos tiniam. Muitas cabras. Deviam valer dinheiro. Se fossem vendidas, a cama seria possível. Foi isto o que Sinha Vitória gritou, dando pancadas na panela com a quenga de coco. Por que vender as cabras? Quando as levassem para a cidade, atravessassem o rio, o chiqueiro ficaria vazio. Adiantava ter chiqueiro sem cabras? Para um cristão ser feliz, havia mister ter chiqueiro e cabras, muitas cabras. E Sinha Vitória possuía cabras.

A panela chiava. Sinha Vitória remexeu-a com a quenga. Apanhou um tição, acendeu o cachimbo de barro, pôs-se a chupar o canudo cheio de sarro. Seu desejo realizava-se. E ela caía na modorra do fim do dia, um torpor que os chocalhos das cabras embalavam. Ia tudo bem. Se a seca não chegasse.

Capítulo 5 — O menino mais novo

O menino mais novo tinha tido um sonho ruim. Estava no chiqueiro, com o irmão e a cachorra Baleia, as cabras e os cabritos. Baleia latia, mordia-lhe as pernas, depois se levantava nas coxas dele e queria arrancar-lhe os olhos.

Acordara em pânico, com um grito sufocado na garganta, as mãos suadas apertando as pernas de Sinha Vitória. Esta afastara-o, incomodada, e ele se aninhara de novo no colo dela, tremendo, desejando, com raiva, que a manhã chegasse.

Agora marchava para o bebedouro, debaixo do juazeiro. Tinha fome, estômago e tripas reclamavam, mas tornaria a acomodar-se no colo da mãe. A manhã ainda não tinha chegado de verdade. E o menino se comprazia com a ideia de que era pequeno e precisava daquele apoio. Era pequeno, Sinha Vitória era grande.

Olhou os pés, que eram pequenos, cobertos de rachaduras e feridas. Sinha Vitória tinha nos seus pés grandes rasgaduras, ulcerações fundas, e caminhava sobre elas impassível, como se tivesse sola de couro. Que coisa admirável! Ser grande, ter pés enormes e sólidos, calçados em alpercatas resistentes, dar passos largos!

Infelizmente era pequeno e queixava-se. O irmão já se habituara à idéia de ser pequeno, mas ele não. Baleia também era pequena. Sinha Vitória e Fabiano eram grandes. E, pensando bem, o irmão e a cachorra eram maiores do que ele. Tinha vontade de crescer. Mas como não sabia explicar isso, estirou os braços para cima, para os galhos altos do juazeiro. Precisava subir, chegar àquelas folhas.

Examinou os arredores. As coisas eram extraordinárias. Um besouro de asas vermelhas voou, pousou na lama, um cascudo grande, os filhos da areia. Seria possível que os filhos da areia tivessem asas? Um dia as teria também. Faria aquilo: voaria, como o bicho e como as aves de arribação que cortavam o azul lá em cima.

Repetiu as palavras de Sinha Vitória, as exclamações que provocavam riso. Depois, cansado, deitou-se, fechou os olhos. Não queria dormir, bem sabia que em algum lugar o moleque estava crescendo. Se continuasse a dormir, iria ficar muito para trás. Mas o sono era uma coisa irresistível. Os olhos se fecharam, e um sonho mau novamente o atormentou.

Sinha Vitória cheirava mal e a boca dela estava negra, porque tinha comido mucunã torrado. Fabiano estirava-se na rede como se fosse de couro. Couro. O menino mais novo repetiu mentalmente esta palavra, procurou em vão perceber o sentido dela. Provavelmente Fabiano a tinha ouvido dizer por aí — o pai sempre vinha com expressões esquisitas, que Sinha Vitória reprovava.

Baleia estirou as pernas, adormecida. Acordou de um salto. Aquilo era um sonho, era a lembrança do pesadelo. Quis afastar aquelas visões penosas, andou, parou, e como Baleia continuasse quieta, a língua para fora, ofegante, tornou a sentar-se.

Deu uns passos para lá e para cá. Não havia ninguém, não valia a pena fazer nada. Achou-se sem jeito, pensou em voltar para junto de Sinha Vitória e enroscar-se a um canto. Mas tinha orgulho, estava zangado.

Examinou a porteira do curral, o mourão do canto. Tudo muito grande, muito longe. Eram os mesmos objetos que ele vira de perto, com Sinha Vitória, na véspera. A diferença estava nele, naturalmente: tinha-se afastado da mãe e reduzido.

Na véspera tinham ido ali, diante da porteira do curral, e Sinha Vitória se acocorara, descansando os ossos. Em seguida se havia erguido e eles tinham caminhado alguns minutos, Sinha Vitória à frente, ele atrás, uma distância enorme separando-os. Mas na verdade estavam perto um do outro — e Sinha Vitória era enorme.

Agora ele queria crescer, desejava bruscamente ser um homem. Valia a pena? Era bom ser homem e ter um facão grande como o de Fabiano. Um facão enorme, que cortasse mandacarus, raízes e outras coisas duras.

Levantou-se e caminhou para o curral. Baleia acompanhou-o. A porteira estava fechada. Examinou-a, procurando uma passagem. Não havia nenhuma. Tentou passar por baixo, não conseguiu. Estava diante de um obstáculo que era impossível transpor. A cachorra rodeou a cerca, farejando. O menino sentou-se na soleira da porta, desanimado. Baleia também se sentou, a língua de fora, os beiços arreganhados, mostrando as presas, abanando o rabo.

Ficaram assim muito tempo. Depois, para se distrair, o menino começou a arrancar fiapos da esteira furada em que dormia. Puxou um, dois, três. Aquilo entreteve-o. Largou a esteira, levantou uma pedra miúda, atirou-a a Baleia. O animal desviou-se, ganindo, e o menino, satisfeito com o resultado, procurou mais pedras. Não achou nenhuma e tornou a mexer na esteira desfiada.

Evidentemente Baleia era maior do que ele. Desejou brigar com ela, puxar-lhe as orelhas, obrigá-la a pedir socorro num ganido. Mas a cachorra tinha dentes afiados, e ele, o menino mais novo, tinha mãozinhas fracas, boas para agarrar xícaras, mamadeiras. Baleia era grande, havia nela qualquer coisa dos adultos, uma inacessibilidade, longínqua. Tudo grande. Não conseguia furtar-se à comparação entre o seu tamanho e o das coisas.

Impressionou-se com a altura do mourão do canto do curral, achou que nunca poderia alcançar o topo daquilo. E Fabiano tinha-se trepado nele no dia anterior, as pernas separadas, olhando a catinga. Como seria possível um homem trepar num pau? Andava com as próprias pernas, sobre a terra — e de repente estava no alto de um mourão! Agora, pensando naquilo, o menino julgava Fabiano extraordinário.

Baleia abandonou a soleira da porta, entrou no copiar, deu duas voltas na sala, foi brincar com as panelas que secavam junto à trempe. Sinha Vitória chamou-a. Baleia correu, cheirou os pés da dona e sentou-se no calor, cochilando.

O menino ficou só no bebedouro, vestido de camisa de baeta, a cabeça chata agasalhada num guarda-pó de Fabiano. A aragem seca da manhã entrava-lhe pelas mangas compridas da camisa de baeta. Muito frio. Sinha Vitória estava longe, no copiar, uma distância impossível. Encolheu-se, apertando os braços ao corpo, e ficou de cócoras, os joelhos dobrados, embrulhado como uma trouxa.

Depois abriu os olhos, ainda meio tapados de sono, botou a mão para fora e arrancou um graveto seco de unha-de-gato. Foi quebrá-lo em pedaços miúdos, mas o espinho cravou-se na carne mole do dedo. Gritou, largou o graveto, enfiou o dedo na boca. Podia ter arrebentado o espinho, mas chorou. E num choro raivoso, sacode o braço para cima, ameaçando alguém.

O grito despertou Sinha Vitória, que se ergueu, zonza, entrou no copiar e apareceu junto ao bebedouro.

— Que há?

O menino não respondeu. Estava furioso, queria ser grande, como os adultos. Encolheu-se, fechou-se, perdeu-se numa perturbação. Sinha Vitória puxou-o para casa, deitou-o no cocho de sal e foi mexer nas panelas.

Capítulo 6 — Inverno

A caatinga ressuscitara, em parte. As folhas caíam, cobriam a terra de tapetes vermelhos, depois murchavam, tornavam-se pardas e sumiam. Novas folhas nasciam, pequeninas, débeis, enroladas, e abriam-se, duras, resistentes. Por baixo delas os gravetos secos alastravam-se, pretos, reduzidos, sem serventia.

Na lama seca do bebedouro, as pegadas dos animais desapareciam. Nas porteiras dos currais e nos cruzeiros das veredas, o chão gretava-se, cobria-se de fendas insaciáveis, que, adormecidas na seca, agora se escancaravam, vermelhas, indiscretas.

A fazenda renascia. E Fabiano esfregava as mãos, satisfeito. Sim senhor, a fazenda era dele. Era. Ao se apossar da casa, tivera a impressão de que ela lhe pertencia. Pensando bem, isso era um erro, mas nem sempre a gente pensa direito. Agora, ali na catinga, era possível esquecer a cidade, o patrão, o soldado amarelo, e tudo quanto há de ruim no mundo. Fabiano estirava-se no chão, os olhos azuis perdidos nos ramos da umbuzeira. Por que não podia viver escondido com a família naquele deserto?

Chocalhos de badalos de ossos animariam a solidão. A caatinga ficaria toda verde. As águas corriam, um pé-de-turco verdejava, as várzeas se cobririam de capim. Os troços minguados ajuntavam-se no chão: a espingarda de pederneira, o aió, a cuia de água e o baú de folha pintada. Os meninos cresceriam e o ajudariam na lida do campo.

Fechou os olhos para não ver a catinga amarela, e aquele bem-estar que estava sentindo cresceu. Não tinha culpa de em dias de aperto comer carne de gado alheio. Era assim com todos os vaqueiros do sertão. Demais não comia propriamente a carne; era o couro. Quando um sujeito chegava à boca do forno, não tinha outro jeito senão comer o que não lhe pertencia. E depois... Que ideia de besteira! Não era possível que um cristão matasse outro cristão por causa de um boi. A fazenda tinha tantas reses! Não fazia falta um bezerro, em tantas cabeças de gado. De certo o patrão nem dava por aquilo.

Levantou-se, agarrou o facão e dirigiu-se aos juazeiros. A novilha raposa estava comendo ramos de catingueira. Não tinha morrido, a oração e a creolina haviam-lhe curado a bicheira. Fabiano encostou-se ao tronco de um pau, abandonou o facão, acendeu o cachimbo, matou a saudade dos meninos e de Sinha Vitória.

Em horas de maluqueira Fabiano desejava imitá-lo: dizia palavras difíceis, truncando tudo, e convencia-se de que melhorava. Tolice. Via-se perfeitamente que um sujeito como ele não tinha nascido para falar certo.

Seu Tomás da bolandeira falava bem, estragava os olhos em cima de jornais e livros, mas não sabia mandar: pedia. Esquisitice um homem remediado ser cortês. Até o povo censurava aquelas maneiras. Mas todos obedeciam a ele. Ah! Quem disse que não obedeciam?

Fabiano, você é um bicho. Estava ouvindo falar demais. Puxou a fumaça do cachimbo e cuspiriu-a. Agora Sinha Vitória vivia de mal com ele. Mulher é um bicho difícil de entender, pior que a aparição do demônio em quatro patas. A cama. Sinha Vitória vivia falando em cama. Havia mister juntar dinheiro, comprar um móvel, uma miséria qualquer, e estavam naquela matinada por causa de cama.

Tolice. Não dizia nada para não contrariá-la, mas sabia que era tolice. Cambembes podiam ter luxo? Ao chegarem àquele lugar tinham a impressão de estarem sempre de viagem. Qualquer dia o patrão os botaria fora, e eles ganhariam o mundo, sem rumo. Carregariam cama no lombo? Viviam de trouxa arrumada, dormiriam bem debaixo de um pau.

Olhou a catinga amarela, que o poente avermelhava. Se a seca chegasse, não ficaria planta verde. Arrepiou-se. Chegaria, naturalmente. Sempre tinha sido assim, desde que ele se entendera. E antes de se entender, antes de nascer, sucedera o mesmo — anos bons misturados com anos ruins. A desgraça estava em caminho, talvez andasse perto. Nem valia a pena trabalhar. Ele marchando para casa, trepando a ladeira, espalhando seixos com as alpercatas — ela se avizinhando a galope, com vontade de matá-lo.

Virou o rosto para fugir à curiosidade dos filhos, benzeu-se. Não queria morrer. Ainda tencionava correr mundo, ver terras, conhecer gente importante como Seu Tomás da bolandeira. Era uma sorte ruim, mas Fabiano desejava brigar com ela, sentir-se com força para brigar com ela e vencê-la. Não queria morrer. Estava escondido no mato como tatu. Duro, lerdo como tatu. Mas um dia sairia da toca, andaria com a cabeça levantada, seria homem.

— Um homem, Fabiano.

Coçou o queixo cabeludo, parou, reacendeu o cigarro. Não, provavelmente não seria homem: seria aquilo mesmo a vida inteira, cabra, governado pelos brancos, quase uma rês na fazenda alheia.

E o chocalho dos badalos de ossos? Esperava com certeza que as fontes borbulhassem, que o riachinho se enchesse de água, que a bicheira se espalhasse pelas reses. Mataria um bezerro e comeria a carne antes que o patrão o expulsasse da casa. Mas ia depressa demais. Fabiano tinha medo que a fome chegasse de supetão e o apanhasse ali, na catinga vermelha, entre as árvores sem folhas. Não queria viver e morrer como um bicho.

Afastou esses pensamentos. Dali a pouco chegaria à beira do rio. Desejaria subir a ladeira e encontrar na cozinha Sinha Vitória acocorada junto à trempe, soprado o fogo. Os meninos estariam no barreiro, brincando com Baleia. A cachorra corria, farejando pegadas. Infelizmente Fabiano tinha obrigações. Apertava-lhe o coração deixar a casa vazia. Mas ele era vaqueiro, sinha Vitória costureira, e aquilo não tinha remédio.

Capítulo 7 — Festa

Sinha Vitória meteu-se na cama de varas. Fazia mais de um ano que falava nisso ao marido. Fabiano a princípio concordara com ela, mastigando cálculos, torcendo os beiços. Trinta e cinco mil-réis. Não era caro, mas onde encontrar trinta e cinco mil-réis? Foram ao Seu Inácio, negociaram peles, e Sinha Vitória realizou um sonho que alimentava desde a infância.

Mas, assim que se estirou na cama pela primeira vez, percebeu que tinha feito má compra. O móvel era capenga, quase não se aguentava em pé, as varas por baixo gemiam. Além disso as pontas dos paus, que iam dar no chão, eram tão altas que ao deitar-se na cama Sinha Vitória ficava de joelhos no ar. Ora, uma pessoa deitada devia manter-se horizontal, tocar o chão com os pés. Uma cama que obrigasse cristão a ficar de joelhos no ar não prestava.

Sinha Vitória deu-se por lograda e não comunicou a decepção ao marido. Aliás, ele vivia agora numa agitação danada, preparando-se para ir à festa da cidade. Sinha Vitória faria o mesmo, enfarruscada, porque via nisso uma repetição da viagem que tinha ido fazer meses atrás. Fabiano fora preso ao sair da bodega. A lembrança entristeceu-a, mas era uma fraqueza não ir à festa. Se não fossem, ficariam como uns caipirascos, que não sabem divertir-se.

Amanheceram na cidade e logo se espalharam, Fabiano para um lado, Sinha Vitória para outro, os meninos atrás da mãe. O vaqueiro tinha resolvido tomar um trago. Entrou na bodega, pediu uma cachaça, bebeu-a, perguntou o preço e teve um sobressalto. Seu Inácio cobrara caro. Fabiano fingia sempre não perceber os furtos do vendeiro, mas a conta era exagerada.

Saiu indignado. Seu Inácio era um ladrão. Estava certo que Seu Inácio era um ladrão, mas não podia dizer isso. O nome do vendeiro andava em bocas de gente da cidade. Se ele, Fabiano, fosse falar mal de Seu Inácio, ninguém acreditaria. Fabiano era um bicho. Se dissesse alguma coisa, os homens da rua iam rir-se. Estava acostumado. Mas daquela vez a coisa era séria, havia perigo de a autoridade aparecer, metê-lo de novo no xadrez.

Engoliu a raiva e caminhou de cabeça baixa. As alpercatas batiam no chão branco e liso da rua, e ele estalava os dedos, fazendo uma conta. Tudo errado, naturalmente. Como podia ser, se os homens da cidade o embrulhavam? Estava acostumado, tinha sempre sido assim. Não entendia nada, mas desconfiava.

Passou diante da igreja. A festa estava no auge. Havia muita gente no adro, e os foguetes espocavam lá fora, junto ao cruzeiro. Um bando de crianças corria, armando barulho. Fabiano apertou o passo, desviou-se do arruído, entrou numa rua torta, que conduzia à bodega de Seu Inácio. Lembrou-se de que ali fora espancado e preso. Suspirou. Aquela bebida que tomara lhe pesava no estômago.

Continuou o passeio na rua da igreja e deparou com o soldado amarelo, que passou rente a ele, fardado e de arma ao ombro. Mecanicamente Fabiano levou a mão ao cinturão, mas o cinturão estava vazio. Não podia brigar com a autoridade, e resignou-se. Seria espancado de novo, preso de novo. Na certa o soldado o faria rolar na lama, outra vez, e ele se sujaria, lecionando desacato à autoridade, na calçada, ao meio-dia, debaixo dos olhos de todo o povo da cidade, vexame horrível.

O amarelo se afastou, e Fabiano saiu da rua, inquieto. Aquele amarelo seria capaz de um desaforo. Dava a impressão de estar bebendo, andando assim, torto, de pernas abertas. Olhou em torno com ódio. Várias vezes tinha pensado em mudar-se, largar aquelas bibocas onde não havia gente direita.

Sinha Vitória estava na feira. Gastara trinta mil-réis num rosário de sementes de lágrimas e dez tostões em três varas de chita vermelha. Regatear, exigir o preço justo, nem pensou nisso. Não se conformava com os preços, mas estava disposta a pagar. Para que discutir? A vendedora queria ganhar as suas porcentagens. E o barulho das pessoas, as cores berrantes das fazendas, a gritaria dos negociantes que alteavam os preços alucinavam-na.

Vagou uma hora por ali, zonza, os meninos amarrados às saias. Depois marchou para a igreja. A festa continuava. Foguetes estouravam, o sino batia, no adro havia uma multidão e as crianças corriam entre as pessoas. Sinha Vitória arrumou-se num canto, os meninos ao lado.

A princípio tudo correu bem. As coisas que Sinha Vitória viu na igreja e na feira encantaram-na. As toalhas do altar, as velas, as pedras vermelhas do chão, os bancos brancos, as imagens e o lustre brilhante — tudo aquilo deslumbrou Sinha Vitória, que voltou à infância. Desejou agarrar-se a qualquer coisa, como fazem as crianças, mas teve vergonha e se encolheu. Passou a mão no rosário, apertou-o. Possuí-lo era como se tivesse parte naquelas maravilhas.

Saíram da igreja. No adro, Sinha Vitória viu moças bem vestidas, e a comparação que estabeleceu entre elas e si descontentou-a. Aquilo era um despropósito. Por que haviam as outras de ser diferentes dela? Iam vestidas de saias engomadas, e ela, Sinha Vitória, tinha uma saia sem engomar. Que diferença fazia isso?

Invejou as saias das outras, franzidas em roda, engomadas, cheias de rendas e fitas. Que despropósito! Ela, Sinha Vitória, era uma pobre cabocla da fazenda, e as outras eram moças importantes, da rua. Natural que andassem arrumadas. Mas eram de carne e osso como ela, comiam feijão e bebiam água como ela. Por que seria que elas se vestiam de um jeito e Sinha Vitória se vestia de outro jeito?

Deixou o adro, inquieta, mal-humorada. Meteu-se por uma rua estreita, depois por outra, topou com uma cadeia, ganhou um beco escuro. Os meninos arrastavam-se cansados. E Sinha Vitória ia aborrecida, pensando na cama que tinha comprado. O rosário engolia o dinheiro. Se não tivesse feito aquela compra maluca, eles se arranjariam melhor. Seria mesmo necessário saber rezar? Ter aquele rosário no pescoço era agradável. Mas provavelmente havia nisso muito desperdício.

Saíram da rua, botaram-se numa estrada quase deserta, e Sinha Vitória achou-se melhor. Ao longe, na beira do rio, subiram uma ladeira. Realmente tinham passado um dia nulo. Nada tinham conseguido. A festa, o passeio, tudo tinha sido inútil. Avistaram a fazenda. Os chocalhos das cabras tilintavam. Baleia corria no pátio. Fabiano estava atrasado. Sinha Vitória avançou, pisando com firmeza no chão. Que festa miserável!

Capítulo 8 — Baleia

A cachorra Baleia estava para morrer. Tinha emagrecido, o pêlo caíra-lhe em vários pontos, as costelas avultavam num fundo róseo, onde manchas escuras supuravam e sangravam, cobertas de moscas. As chagas da boca e a inchação dos beiços dificultavam-lhe a comida e a bebida.

Por esse motivo Fabiano imaginara que ela estivesse com um princípio de hidrofobia e amarrara-lhe no pescoço um rosário de sabugos de milho queimados. Mas Baleia, sempre de mal a pior, roçava-se nas estacas do curral ou metia-se no mato, impaciente, enxotava os mosquitos sacudindo as orelhas murchas, agitando a cauda pelada e curta, grossa na base, cheia de moscas, semelhante a uma cauda de cascavel.

Então Fabiano resolveu matá-la. Foi buscar a espingarda de pederneira, lixou-a, limpou-a com o saca-trapo e fez tenção de carregá-la bem para a cachorra não sofrer muito. Sinha Vitória fechou-se na camarinha, rebocando os meninos assustados, que adivinhavam desgraça e não se cansavam de repetir a mesma pergunta:

— Vão bulir com a Baleia?

Tinham visto o chumbeiro e o polvarinho, os modos de Fabiano afligiam-nos, davam-lhes a suspeita de que Baleia corria perigo.

Ela era como uma pessoa da família: brincavam juntos os três, para bem dizer não se diferenciavam, rebolavam na areia do rio e no estrume fofo que ia subindo, ameaçava cobrir o chiqueiro das cabras.

Quiseram mexer na taramela e abrir a porta, mas Sinha Vitória levou-os para a cama de varas, deitou-os e esforçou-se por tapar-lhes os ouvidos: prendeu a cabeça do mais velho entre as coxas e espalmou as mãos nas orelhas do segundo. Como os pequenos resistissem, aperreou-se e tratou de subjugá-los, resmungando com energia.

Não era preciso barulho não. O que estava feito estava feito. Não se conserta um erro com um gemido, nem arrumam-se cacos de louça partida com lágrimas. Tinha sido uma desgraça, mas era preciso esquecer. Nunca ter havido gente como eles. E a culpa era do bicho. Por que teria o estúpido animal dado para aquela desesperação repentina, mordido os homens e tornado a vida difícil? Necessidade de morrer.

Baleia encostava a cabecinha fatigada na pedra. A pedra estava fria, certamente Sinha Vitória tinha deixado o fogo apagar-se muito cedo.

Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariam com ela num pátio enorme, num chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de preás, gordos, enormes.

Os meninos, em perigo, sentiam falta dela. Baleia se inquietou, ouvindo-os:

— Vão bulir com a Baleia?

Ela queria protegê-los, mas nem se podia mexer, inútil, um bagaço. Um peso enorme esmagava-a, uma sombra a cobria. Fabiano estava perto e Baleia desejou acordar para defender-lhe as pernas. Infelizmente não conseguia agarrar-se ao sono, como desejava. Sentia a aproximação da morte, por isso fugira para ali. O corpo já estava frio, mas o resto ainda não se resolvera a extinguir-se. Abandonou-se como se em redor tudo fosse escuro.

Uma sede horrível queimava-lhe a garganta. Procurou ver as pernas do amigo, não conseguiu. Sombras. Muitas sombras. E as pernas de Fabiano eram as maiores sombras da campina.

Baleia respirava depressa, a boca aberta, os queixos desgovernados, a língua pendente e insensível. Não sabia o que tinha sucedido. O estrondo, a pancada que recebera no quarto e a viagem difícil no barranco haviam-lhe embotado os sentidos. Agora não podia mais levantar-se, nem latir, nem correr, e estava transformada num objeto pardo e peludo que mexia a custo a cabeça e não tinha força para morder Fabiano.

Fabiano era o dono dela, um dono enorme. E Baleia via vagamente uma coisa qualquer, que era a mão de Fabiano. Não podia ver a cara do amo. Os olhos da cachorra estavam vidrados e Fabiano, um vulto indeciso, crescia, vacilava, sumia-se. Baleia arfava, a língua pendente para fora da boca. Seria bom deitar-se numa sala com ladrilhos, como fizera algumas vezes. Lembrou-se confusamente dos preás, das pedras, da agua. Tentou adivinhar a intenção de Fabiano, esforçando-se por entendê-lo. Sombras apenas.

Iria morrer. Bem. O que sentia agora era raiva daquela situação desagradável, raiva e ciúmes de Fabiano. A tremura subia, deixava a barriga e o peito, alcançava o pescoço, espalhava-se na cabeça. Os olhos ficaram azulados e meio fechados.

Baleia procurou Fabiano. Queria avisar-lhe que estava morrendo. Mas Fabiano não pareceu entender. Baleia continuava a bater as pálpebras, procurando ver melhor, e mexia o rabo, implorando um olhar do dono.

Provavelmente Fabiano pensava que ela estava com raiva dele. Não estava. Fabiano continuava a ser um deus, e Baleia divinizava também os meninos e Sinha Vitória. Conservava um resto de esperança na humanidade. Se conseguisse ficar boa, apanharia muitos preás. Ofereceria alguns a Fabiano. Daquela vez não dissera que ela era como uma pessoa da família. Não. Era um bicho, a obrigação dela era viver arrastada, curva, submissa. E esfregava-se contra a pedra.

Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariam com ela num pátio enorme, num chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de preás, gordos, enormes.

Capítulo 9 — Contas

Fabiano recebia na partilha a quarta parte dos bezerros e a terça dos cabritos. Mas como não tinha roça e apenas se limitava a semear na vazante uns punhados de feijão e milho, comia da feira, desfazia-se dos animais, não chegava a ferrar um bezerro ou assinar a orelha de um cabrito.

Se pudesse economizar durante alguns meses, levantaria a cabeça. Forjara planos. Tolice, quem é do chão não se trepa. Consumidos os legumes, rodiam os bichos do chiqueiro, depois os cabritos e os bezerros morriam. Vendia-os para se livrar de despesas. Não ficava com nada.

Ora, daquela vez, como das outras, Fabiano ajustou o gado, arrependeu-se, enfim deixou a transação meio apalavrada e foi consultar a mulher. Sinha Vitória mandou os meninos para o barreiro, sentou-se na cozinha, concentrou-se, distribuiu no chão sementes de várias espécies, realizou somas e diminuições. No dia seguinte Fabiano voltou à cidade, mas ao fechar o negócio notou que as operações de Sinha Vitória, como de costume, diferiam das do patrão. Reclamou e obteve a explicação habitual: a diferença era proveniente de juros.

Não se conformou: devia haver engano. Ele era bruto, sim senhor, via-se perfeitamente que era bruto, mas a mulher tinha miolo. Com certeza havia um erro no papel do branco. Não se descobriu o erro, e Fabiano perdeu os estribos. Passar a vida inteira assim no toco, entregando o que era dele de mão beijada! Estava direito aquilo? Trabalhar como negro e nunca arranjar carta de alforria?

O patrão zangou-se, repeliu a insolência, achou bom que o vaqueiro fosse procurar serviço noutra fazenda.

Aí Fabiano baixou a pancada e amunhecou. Bem, bem. Não era preciso barulho não. Se havia dito palavra à toa, pedia desculpa. Era bruto, não fora ensinado. Atrevimento não tinha, conhecia o seu lugar. Um cabra. Ia lá puxar questão com gente rica? Bruto, sim senhor, mas sabia respeitar os homens. Devia ser ignorância da mulher, provavelmente devia ser ignorância da mulher. Até estranhara as contas dela. Enfim, como não sabia ler (um bruto, sim senhor), acreditara na sua velha. Mas pedia desculpa e jurava não cair noutra.

O amo abrandou, e Fabiano saiu de costas, o chapéu varrendo o tijolo. Na porta, virando-se, enganchou as rosetas das esporas, afastou-se tropeçando, os sapatões de couro cru batendo no chão como cascos.

Foi até à esquina, parou, tomou fôlego. Queria entrar na bodega, puxar conversa com o vendeiro, desabafar. Era uma necessidade, mas teria de gastar dinheiro, e Fabiano detestava o desperdício. Bateu as alpercatas no chão, reacendeu o cigarro, puxou fumaça e empurrou a porta da bodega.

Seu Inácio, gorduroso, ensebado, estava detrás do balcão. Fabiano pediu uma pinga, virou o copo de um trago, limpou os beiços à manga, maldisse os patrões e esbravejou. Devia ser ignorância da mulher. Aqueles eram demais. A gente trabalhava como um mouro, guardava tostão sobre tostão — e um dia de tarde vinha o amo com um papel na mão, sentava-se na mesa da sala, em frente de Fabiano, e fazia contas. No fim da operação devolvia os tostões guardados.

Isto era. Ele, Fabiano, era como um cachorro, só recebia ossos. Por que seria que os homens ricos ainda lhe tomavam uma parte dos ossos? Não percebia.

Seu Inácio evitou responder, e Fabiano, com o pensamento no patrão, dirigia-lhe injúrias. Seu Inácio bebeu um gole de café, resmungou qualquer coisa e foi mexer em umas garrafas, consertando prateleiras. Por que seria que Seu Inácio não queria dizer nada? Ficava em cima do muro, conversava com os dois lados. Cachorro, cambembe, estava bem. Mas para que tanto papel? Era bruto, sim senhor, nunca havia aprendido, não sabia explicar-se. Estava aí. Papagaio sabido como Seu Tomás da bolandeira falava bonito, disparava nomes arrevesados, mas um dia caíra no mundo, com a família, sem rumo, tangido pela seca. Seu Inácio cochichou:

— Governo.

Fabiano achou a palavra horrorosa. Pior que trovão, pior que o rumor dos matutos em casa de Seu Inácio. Era pior que tudo. Governo! Nunca vira o governo, mas sabia que ele era perverso, pior que os urubus e os donos de fazendas. Tinha pensado um momento em ser governo, mas isto fora um sonho. Bem. O governo como que estava longe. Se governasse, as coisas seriam direitas. Não eram. Governo era gente tirana, pegava tudo, não deixava ninguém viver. Até Seu Inácio, que tinha negócio, estava sujeito ao governo. Estremeceu. Aquilo, sim, era uma desgraça. Os homens ricos, com o governo, enganavam os pobres, roubavam.

Saiu da bodega, montou o cavalo de fábrica e partiu, na vertical do meio-dia, pensando na infeliz, nos filhos, nos amigos de Seu Tomás. Procurava avaliar a desgraça que o atingia e via-se perdido numa multiplicação confusa. Aquilo era língua de gente da cidade. Mas ele era bruto. Não sabia ler, escrever, não sabia fazer contas. Tinha trabalhado muito e recebido menos do que lhe pertencia. Era injusto, mas as leis deviam ser assim. Para se defender precisava ler e escrever. Estava preso. Por que estava preso? Achava-se na situação de um cachorro sem dono. Depois pensava na partida e no futuro incerto. Talvez fosse melhor.

Capítulo 10 — O soldado amarelo

Fabiano ia satisfeito. Sim senhor, dias de chuva eram bons para o gado. O capim estava brotando e havia comida por toda a parte. As cabras e os cabritos, os carneiros e as ovelhas se multiplicavam, o chiqueiro e o curral não os comportavam. Ele, Fabiano, produzia e ninguém lhe dava valor. Tinha feito milagres, só conhecidos na catinga, que o rodeava.

Chegara naquele estado, com a família morrendo de fome. Caíra no fim do pátio, debaixo de um juazeiro, depois tomara conta da casa deserta. Ele, a mulher e os filhos tinham-se habituado à camarinha escura, pareciam ratos — e a lembrança dos sofrimentos passados esmorecera.

Pisou com firmeza no chão gretado, puxou a faca de ponta, esgaravatou as unhas sujas. Tirou do aió um pedaço de fumo, picou-o, fez um cigarro com palha de milho, acendeu-o ao binga, pôs-se a fumar regalado.

— Fabiano, você é um homem, exclamou em voz alta.

Conteve-se, notou que os meninos estavam perto, com certeza iam admirar-se ouvindo-o falar só. E, pensando bem, ele não era homem: era apenas um cabra ocupado em guardar coisas dos outros. Vermelho, queimado, tinha os olhos azuis, a barba e os cabelos ruivos; mas como vivia em terra alheia, cuidava de animais alheios, descobria-se, encolhia-se na presença dos brancos e julgava-se cabra.

Entristeceu. Considerar-se plantado em terra alheia! Engano. A sina dele era correr mundo, andar para cima e para baixo, à toa, como judeu errante. Um vagabundo empurrado pela seca. Achava-se ali de passagem, era hóspede. Sim senhor, hóspede que se demorava demais, tomava amizade à casa, ao curral, ao chiqueiro das cabras, ao juazeiro que os tinha abrigado uma noite.

Olhou em torno, com receio de que, fora os meninos, alguém tivesse percebido a frase imprudente. Corrigiu-a, murmurando:

— Você é um bicho, Fabiano.

Isto para ele era motivo de orgulho. Sim senhor, um bicho, capaz de vencer dificuldades.

Nessa viagem, cansado, o espinhaço em arco, a cabeça pendida para a esquerda, Fabiano avistou um soldado amarelo, de número, montado num cavalo lazarento. O infeliz abriu caminho na beira da lagoa, por entre as pedras, e ganhou a estrada. Lá se encontravam o vaqueiro e o polícia.

Fabiano pisou firme no chão. Àquela hora, naquele lugar, não esperava deparar com a autoridade. Pôs-se em guarda, alargando as ventas e fungando como um cachorro.

O soldado amarelo desarmara o espírito. Como era pança? Ele e o amarelo! Ora, ora! Depois de tanta humilhação e tantos cães mordidos, acabava encontrando o valente, o que o levara ao xadrez, que o maltratara na cadeia.

Não havia engano. Era o inimigo, era um inimigo que se aproximava a cavalo, bamba na sela, o coronhão da carabina batendo nas coxas. Aquele infame amarelo tinha-o arrastado pelos cabelos, tinha-lhe batido, tinha-lhe dado um pontapé.

A lembrana da viagem à cadeia, da humilhação sofrida na presença de Sinha Vitória, dos aborrecimentos que suportava há meses, tudo fervia no espírito de Fabiano. A fome desapareceu, os ruídos da fazenda se apagaram. Eram como se na sua vida houvesse aparecido um buraco. O ódio ia crescendo. Precisava matá-lo. Livrar-se daquele amarelo.

Chegou-se um pouco, torcendo a boca, impaciente. Tinha o direito de matar o soldado amarelo. Tinha. E não matava porque era uma cabra.

Fabiano contraiu-se, agarrou-se à faca. Uma pancada no pescoço e tudo se arranjaria. E a vontade dele se estirou na vertical, os olhos azuis baixaram-se para a direita e para a esquerda, fixaram-se na cabeça do cavalo que marchava muito perto. A cabeça do soldado estava a dois palmos da sua. Era uma cabeça inerte, chata por cima, com o osso saindo. Uma cabeça de soldado amarelo.

Fabiano largou a faca, o braço amoleceu. Virou-se e afastou-se, inquieto. Aquele amarelo seria capaz de um desaforo. Vacilou, pensou. Besteira pensar. Tinha sido excelente a idéia de não pegar na faca. Vexame. Não era homem para amarrar um desgraçado daqueles. Não. Nunca havia feito mal a ninguém. Se matasse o soldado, iriam processá-lo, prenderiam Sinha Vitória e os meninos. Bem. E depois, matá-lo para quê? Ele estava ali quieto, mal se aguentando na sela, o mosquetão oscilando à garupa. Não tinha culpa de ser um infeliz.

Governo é que devia ter juízo.

Passou a língua nos beiços. Mataria o soldado amarelo? Ora, mataria. Tinha o direito, pois não tinha? Não tinha. Aquilo era besteira. Tolice considerar-se com direito de matar o soldado amarelo. Mas se fosse possível pegar-lhe uma surra, quebrar-lhe os ossos... Uma surra. Provavelmente o amarelo nem resistiria. Era uma sombra. Quase não se agüentava em pé. Pensou na família, nos filhos pequenos, em Sinha Vitória. Coitados. Iriam padecer por causa de um verme. Necessidade de matá-lo. Tinha necessidade de matá-lo? Não. Nunca vira o amarelo maltratar crianças, bater em mulher. Mas ele, Fabiano, fora maltratado.

O ódio que Fabiano sentia pelo soldado diminuiu. Se não fosse a família... Bem, o soldado era um infeliz. Estava ali, caindo do cavalo, morrendo de fome, amolecido pela aguardente que tomara na feira. Fabiano, ao contrário, tinha comido, tinha dormido, estava são e disposto, andara léguas e mais léguas sem cansaço. Se quisesse, amarrava o amarelo, tirava-lhe a carabina e a faca, fazia tudo sem dificuldade. Mas para quê? O soldado era um coitado. Por isso é que o governo o pagava mal. Ordinariamente os soldados têm família e filhos pequenos.

Esfregou as mãos satisfeito. Não matara o soldado amarelo. Estava bem, matá-lo? Não estava. Por que haveria de estar?

Capítulo 11 — O mundo

O menino mais velho ia tagarelando. Não obtinha resposta e não se incomodava. De quando em quando fazia uma pergunta, esperava a explicação que não vinha e caía num assombro que durava pouco, porque vinha outra pergunta.

Sinha Vitória, agoniada, queria ver-se livre daquele incômodo. Mostrou as folhas distantes, que pareciam birutas multicores. Não tinha dúvida: eram as terras do Seu Tomás, muito longe. Que iriam fazer eles lá? Bem. Daqui a muito tempo iriam. Chegariam a uma cidade. Os meninos frequentariam escola, seriam diferentes dos pais. Isto havia de acontecer. Preciso viajar e conhecer aquilo tudo.

Fabiano, a mulher e os dois filhos iam-se amolando. Precisavam sair daquele lugares, passar uns dias afastados da fazenda. Agora estavam descansados, podiam mudar-se quando quisessem. Levavam a família, as malas de couro, os troços. Iriam para diante, sempre para diante, não voltariam nunca, e quando chegassem a uma terra distante, ficariam nela, descansariam, com o coração sem sobressaltos.

Falavam de coisas agradáveis. Sinha Vitória mencionava a cama de lastro de couro. Fabiano concordava, encolhendo os ombros. Se ela queria, estava dito. Não ia desagradar à mulher por causa de um móvel. Sinha Vitória arranjava explicações. Era feio dormir no chão, como porcos. Fabiano grunhia: — "Hum! hum!" Como porcos, dizia ela. Fabiano não se opôs: era duro viver como bichos e não falar como gente.

Concordava com a mulher. Mudar-se-iam, levariam os filhos para uma cidade qualquer e os colocariam numa escola. Ele só teria a resmungar, mas a obrigação dela era falar, conversar com Sinha Terta, fofocar com a comadre, admirar as saias das outras. Ao chegarem a uma terra civilizada, os meninos entrariam na escola. Ele, Fabiano, seria o pai deles, um pobre diabo, cabra, mas os meninos seriam diferentes. Sinha Vitória teria uma cama de lastro de couro. E os meninos dormiriam em redes.

O menino mais velho se aproximou, perguntou não sei que coisa. Fabiano parou, franziu a testa, esperou de boca aberta a repetição da pergunta. Não percebendo o que o filho desejava, repreendeu-o, aludindo à roupa, ao calçado, aos objetos de uso doméstico. Em seguida, afastou-se e começou a andar de um lado para outro.

— Inferno!

Queria Sinha Vitória e os filhos felizes. Mas estava preso a uma terra, a um patrão, ao soldado amarelo, ao fiscal da prefeitura. Procurou em vão perceber o que eles desejavam dele. Certamente havia de livrar-se dessas pestes. Era impossível continuar a viver assim, arreliado, puxando facão, largando-o, tenso, desesperado.

Estirou o beiço, avançou uns passos no escuro. Mas sentiu frio, e foi-se arrepiando, morrendo de medo. Caminhou mais depressa. A fazenda enorme, a noite enorme, o mundo enorme. Estranha demais a claridade da lua, os objetos brilhando. Meteu-se entre as pedras, avançou cautelosamente, devagar, afastou-se, num desvio. Mas para onde se dirigia? Desandou. Voltou, inquieto. Precisava saber onde estava Sinha Vitória. Os juazeiros. O escuro estava demasiado denso. Apressou-se, amedrontado. Diante dele o caminho era incerto. Como poderia saber que caminho tomara Sinha Vitória? Mexeu na cabeça. Nada. Onde estaria Sinha Vitória? Onde estariam os meninos? Talvez estivessem perto. Quem sabe? Por que se ocultavam?

Chamou a mulher, em vão. Uma coruja piou. Estava perto. Onde estaria a coruja? Esticou o pescoço, pôs as mãos em concha junto às orelhas, para distinguir melhor a direção do ruído. Esquerda. Direita. Atrás. Não sabia onde estava a coruja. Ninguém saberia dizer onde estava a coruja. Bem. Não havia pensamento nenhum na cabeça dele. Olhou o céu, procurando constelações. Não as encontrou. O mundo estava disposto de maneira que ele não podia saber onde estava a coruja nem onde estava Sinha Vitória. Afligiu-se. Chamou de novo. Nada. O pio da coruja, que enchia o mundo de mistério, vinha da esquerda, da direita, de trás, de todos os lados. Desgraça. Estava perdido.

Capítulo 12 — Pia

Sinha Vitória tinha amanhecido nos seus azeites. Fora de propósito, dissera ao marido umas inconveniências a respeito da cama de varas. Fabiano, que não esperava semelhante desatino, apenas grunhira: — "Hum! hum!" E, recolhendo o chapéu de couro à arca da roupa, saíra para amansar um cavalo novo, pensando na mulher, que era um bicho esquisito, mulher de lua.

Sinha Vitória desejava possuir uma cama real, de couro e sucupira, igual à de Seu Tomás da bolandeira. Doidice. Não sabia onde Seu Tomás arranjara aquela cama. Mas asseverava que era de couro e sucupira. Fabiano, que desconfiava da veracidade de Seu Tomás, tentara convencê-la de que ela se enganava, mas não insistira.

Agora pensava noutro objeto, também de categoria. Não sabia bem de que se tratava. Ouvira falar da coisa, muitas vezes, mas não tinha propriamente noção dela. Precisava consultar o marido, e isto lhe dava desgosto. Arreliar-se-ia por causa de uma palavra. Estava escuro, Fabiano andava no campo, não podia vê-la. E provavelmente nem sabia que ela existia. Sinha Vitória encolheu os ombros. Que importava que Fabiano soubesse ou não soubesse?

Trouxera do bebedouro um pote cheio até o gargalo, e desejava lavar as mãos. Mas o pote ficava em cima duma prateleira, e era difícil fazê-lo descer e torná-lo a colocar no lugar, sem auxílio. Pedir o braço de Fabiano, que estava ausente? Besteira. Uma criatura tão diminuída valer-se de uma criatura tão grande! Esforçar-se-ia, tentaria o impossível. Chegava a encolher-se toda, a fim de agarrar com a boca o gargalo do pote e puxá-lo. E ficava numa imobilidade rígida, receosa de que ele lhe caísse em cima da cabeça.

Naquele tempo a família vivia em sobressaltos, o chiqueiro e o curral estavam cheios, engordara bem. Um dia, quem sabe? Seria conveniente realizar o sonho. Não compreenderiam que realizá-lo era necessário. Sinha Vitória era uma pobre cabocla da fazenda. Nunca tinha visto uma cidade. Mas tinha certeza de que nas cidades as casas deviam ter o negócio que ela desejava.

Vivia dando voltas nos seus sonhos, vivia com esperança. Realizaria o sonho, e quando chegasse uma visita, ia mostrar a ela uma coisa de primeira, direitinha. A visita ficaria admirada, falaria nisso com as vizinhas, e as vizinhas invejavam Sinha Vitória. Ora, era preciso realizar aquele sonho. Iam-se transformar, e ela seria como as pessoas da cidade.

Assim pensando, Sinha Vitória lembrou-se da palavra. Pronunciou-a com uma satisfação de menina travessa. E acocorou-se na cozinha, junto à trempe. Desejou possuir aquilo, mesmo ignorando para que servia.

— Fabiano!

O marido estava no campo, não podia ouvir. Ninguém ouviria. E talvez a coisa não existisse. Sinha Vitória desejara durante meses uma cama de lastro de couro, e a cama de varas continuava firme. Na verdade não era firme: balançava e rangia. Seria bom substituí-la por uma cama de verdade. Ora, a cama estava ali, rangendo. Não havia meio de transformá-la. A palavra era: cama. E ela, Sinha Vitória, não tinha outra.

Agora desejava outra coisa, uma coisa diferente, que ela mesma não sabia dizer. Sabia, mas tinha um nome esquisito. Ouvira-o na cidade e ficara um pouco admirada. Depois se habituara. E passara a desejar a coisa esquisita, o nome esquisito. Que nome seria? Esquecido. Procurou lembrar-se, inútil. Estava escuro, Fabiano andava no campo. O que ela desejava tinha uma forma e uma cor, mas Sinha Vitória não podia dizer que cor e que forma eram aquelas. E tinha um nome.

— Pia.

Ora, bolas! Lembrou-se da forma e da cor. A forma era bonita. Esforçou-se por tornar a vê-la com os olhos da alma. Não viu. Vira a cama de varas, imaginara a transformação dela numa cama de couro. Quis ver a coisa diferente. Em vão. E aquele nome feio, pia.

Levantou-se, aprumou-se, caminhou de um lado para outro. Tinha uma forma e uma cor, tinha um nome. Devia servir para alguma coisa. Fazia parte das casas da cidade. E Sinha Vitória desejava possuir uma, importantes, como as pessoas da cidade.

— Pia.

Palavra feia. Não sabia onde a metera na cabeça. Ouvira-a a várias pessoas, homens e mulheres. Alguém a pronunciara perto dela, na feira. E ela gravara a palavra, com a esperança de aprender qualquer coisa. Fora em conversa de gente instruída, umas tantas palavras que ela não compreendia. Que importava? Sinha Vitória sabia que as pessoas da cidade tinham muitas coisas que ela não tinha.

Pia. Nunca vira uma, mas tinha a certeza de que era um objeto valioso. Principalmente porque ouvira falar dele quando uma filha de Seu Tomás da bolandeira tinha vindo visitar a fazenda. Indagara à pequena se na cidade havia pia, e ela respondera que sim, havia. Então ficara convencida de que era necessário possuir uma pia.

Balançou a cabeça, lamentando a condição dela. Provavelmente as pias eram caras. E ela, pobre, sem nada, desejando uma coisa difícil! Necessário ir ver as pias, se aperfeiçoar. Uma grande ambição, mas talvez fosse possível. Com tanto trabalho, poderiam economizar dinheiro. Viriam tempos melhores, choveriam para os lados do sertão.

— Pia.

Era uma esquisitice. Não sabia para que serviam as pias. Sabia, entretanto, que eram úteis. A filha de Seu Tomás não falaria uma coisa à-toa. Uma pessoa da cidade, instruída, tinha dito que havia pias. E se havia, seria bom ter uma no seu rancho. Os outros viriam admirá-la, invejá-la. E ela, Sinha Vitória, possuiria uma coisa que os outros não tinham.

Não havia dúvida: as pessoas da cidade sabiam muitas coisas, serviam-se de objetos maravilhosos. E Sinha Vitória desejava aproximar-se delas, reproduzir as suas maneiras e os seus costumes.

Foi buscar um pote vazio, trouxe-o do bebedouro e colocou-o num canto da cozinha. Ficou a contemplá-lo. A vasilha de barro ali acocorada era uma pia, não tinha dúvida.

Capítulo 13 — Fuga

A caatinga estendia-se, de um vermelho indeciso salpicado de manchas brancas que eram ossadas. O vôo negro dos urubus fazia círculos altos em redor de bichos moribundos.

— Ué!

Fabiano dirigiu-se para casa, acompanhado dos filhos. A mulher estava cansada, enfastiada da cachorra, dos filhos, da imundice. Achou que o mundo era um lugar estreito. Precisava sair, pisar campo, ver gente, negociar. Levantou-se. Arre! Tinha sido na verdade um resto de gente.

Nem parecia que tinha sido um ente humano. Era um refugo. Os mais velhos já estavam cansados. A caatinga os machucava. Iam tropeçando, cambaleando. Caminhavam para o sul, metidos naquele sonho. Uma cidade grande, cheia de pessoas fortes. Os meninos em escolas, aprendendo coisas difíceis e necessárias. Eles dois velhinhos, acabando-se como uns cachorros, inúteis, acabando-se depressa de fadiga.

E andavam para o sul, metidos naquele sonho. Uma cidade grande, cheia de pessoas fortes. Os meninos em escolas, aprendendo coisas difíceis e necessárias. Sinha Vitória esquecendo-se da catinga, vista de longe, como um pesadelo.

Chegariam a uma terra desconhecida e civilizada, ficariam presos nela. E o sertão continuaria a mandar gente para lá. O sertão mandaria para a cidade homens fortes, brutos, como Fabiano, Sinha Vitória e os dois meninos.

Fabiano estava contente e acreditava nessa terra, porque não sabia como ela era nem onde era. Repetia docilmente as palavras de Sinha Vitória, as palavras que Sinha Vitória murmurava porque tinha confiança nele. E andavam para o sul, metidos naquele sonho.

Retardaram-se, temerosos. Olharam os quatro cantos, as sombras se estendendo, a noite cobrindo a terra. Poderia vir daí uma desgraça, bicho ou gente. Fabiano meteu a mão no cinturão e segurou o cabo da faca de ponta. Voltariam? Não podiam voltar. O chiqueiro estava vazio, as porteiras do curral tinham caído.

Uma cidade grande, cheia de pessoas fortes. Os meninos em escolas, aprendendo coisas difíceis e necessárias. Eles dois velhinhos, acabando-se como uns cachorros, inúteis, acabando-se depressa de fadiga.

Não, provavelmente não se acabariam. Estariam sempre com as suas camas nas costas, caminhando, caminhando, o mundo todo se espalhando diante deles, andando atrás de uma felicidade impossível. Naquele momento não poderiam dizer se ela existia. Olhavam um para o outro e sentiam vergonha. A esperança ia se diluindo. Tinham criado raízes, começavam a acostumar-se. Agora recebiam uma ordem breve e dura: iam-se embora. Para onde?

E viviam numa terra alheia. Apenas possuíam a força do trabalho, uns trapos sujos, as armas e os utensílios. Fabiano tinha a certeza de que não possuía nada. Entregara ao patrão tudo o que colhera. Estava direito. Nascera com esse destino, ninguém tinha culpa de ele haver nascido com um destino ruim. Era uma sorte ruim, mas estava dito: "Fora isso"! Compreendia que era assim, acostumara-se. E não queria mudar de sorte. Tinha medo de mudar de sorte. Esticou o beiço, arreliado.

Sinha Vitória pôs a mão no ombro do companheiro e falou dos meninos. Era necessário, absolutamente necessário, criá-los, aumentá-los. Fabiano sentia necessidade de um desabafo. Não se podia viver assim, como bichos.

Chegariam a uma terra desconhecida e civilizada, ficariam presos nela. E o sertão continuaria a mandar gente para lá. O sertão mandaria para a cidade homens fortes, brutos, como Fabiano, Sinha Vitória e os dois meninos.

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