Capítulo 4 — Sinha Vitoria
Acocorada junto às pedras que serviam de trempe, a saia de ramagens entalada entre as coxas, Sinha Vitória soprava o fogo. Uma nuvem de cinza voou dos tições e cobriu-lhe a cara, a fumaça inundou-lhe os olhos, o rosário de contas brancas e azuis desprendeu-se do cabeção e bateu na panela. Sinha Vitória limpou as lágrimas com as costas das mãos, encarquilhou as pálpebras, meteu o rosário no seio e continuou a soprar com vontade, enchendo muito as bochechas.
Labaredas lamberam as achas de angico, esmoreceram, tornaram a levantar-se e espalharam-se entre as pedras. Sinha Vitória aprumou o espinhaço e agitou o abano. Uma chuva de faíscas mergulhou num banho luminoso a cachorra Baleia, que se enroscava no calor e cochilava embalada pelas emanações da comida.
Sentindo a deslocação do ar e a crepitação dos gravetos, Baleia despertou, retirou-se prudentemente, receosa de sapecar o pêlo, e ficou observando maravilhada as estrelinhas vermelhas que se apagavam antes de tocar o chão. Bocejou, entorpecida, desejando comunicar às pessoas a sua satisfação.
Chegou-se a Sinha Vitória, acariciou-a com os olhos, lambeu-lhe as alpercatas de rasgaduras. Em seguida afastou-se, deu duas voltas para o lado da porta e da janela, inquieta, atravessou o copiar, entrou na sala. Voltou, inquieta, passou pela cozinha, foi açular os meninos que se divertiam no barreiro, tentou inutilmente morder a cauda. Nada disto interessava, Baleia queria mostrar-se agradecida à dona, mas não possuía meios. Sinha Vitória é que não fazia caso dela.
Estava ocupadíssima em cozinhar a janta. Depois lavaria os pratos, as colheres de pau, a panela de barro, poria tudo num canto da trempe, amontoado. Varria a cozinha, ia lavar-se na biqueira da telha. Depois se deitaria no chão. E não abriria mais a boca até o outro dia. Nada a distraía. Era como se o curral, o chiqueiro, os juazeiros, o menino mais novo, que não queria saber de andar no cocorote e caíra no bebedouro, escabichando-se, o menino mais velho, que se esfolara no pé de catingueira, o marido, molambo e sujo de sangue coalhado, não existissem.
Quando a panela fervesse, recuaria um pouco, sentaria na pedra que ficava perto do pote da água, desencostaria as alpercatas com uma careta, esfregaria os dedos torrados, inchados, molhados. Mas agora a panela não fervia. E Sinha Vitória soprava.
O fogo estalava. Às vezes Baleia o encarava, tomava a resolução de retirar-se, mas voltava prudentemente, receando perder alguma coisa. Não se contentava com ossos. Queria um naco de carne. E Sinha Vitória não lhe dava. Por aí imaginava que a dona era uma criatura má. Os olhos dela não tinham brilho nenhum; a boca era má, apertava-se num bico que avançava e se contraía, deixando ver os dentes. Sinha Vitória falava, e os sons que produzia eram sempre os mesmos. Nunca tinha visto uma dona assim. Felizmente havia no rancho um ser superior e bom — Fabiano, que chegaria do serviço tarde da noite, com a camisa e as calças de zuarte manchadas de sangue.
Baleia ia recebê-lo na estrada, junto ao cruzeiro. Cheirava-lhe as pernas, roçava a cabeça nelas — e Fabiano acariciava-a olhando-lhe os flancos magros, as costelas salientes. A cachorra se afastava satisfeita, correndo no escuro, e dava voltas ao redor do marido de Sinha Vitória.
Andavam assim até o jirau, onde as alpercatas de Fabiano batiam no chão, grossas e duras. Sinha Vitória, na cozinha, ouvia os rumores que vinham da sala, onde ele arrumava o gibão, a guarda-peito, as perneiras e o chapéu de couro, tirava as esporas e as guardava debaixo da rede, arrastava um dos bancos para o copiar, estirava-se nele, dobrava um braço, fazia uma travesseira.
Quando Fabiano roncava, ela o chamava, e iam para a cozinha tomar café. Às vezes, nos dias de serviço leve, conversavam. Sinha Vitória falava em cama de couro. Ora, cama de couro! Não sabia por que, mas Fabiano desejava cama de lastro de couro. Seria bom ter um móvel assim, importante. Fazia figura. Dava sensação de conforto e segurança.
Sinha Vitória insistia: Seu Tomás da bolandeira tinha cama. E Sinha Vitória desejava uma cama. Seu Tomás era remediado e desabusado. A cama dele era de vara, não era de couro. Couro de boi era bruto e peludo, só servia para caboclos sem delicadeza. Ela queria era uma cama de varas. Sinha Vitória estava certa. Mas deviam possuir qualquer coisa que lembrasse Seu Tomás da bolandeira. Era um homem muito sabido. Lera livros, jornais. Levantava-se cedo, punha o chapéu de palha, ia para o curral, andava à toa, os pés para trás, procurando as suas cavalgaduras, que pastavam soltas. As esporas do cavaleiro tilintavam.
Fabiano também seria assim, se não fosse aquele negócio da cama. Tolice, naturalmente seria. Como é que um sem-vergonha, um matuto da catinga, podia ter cama decente? Era uma sorte haver naquela terra seca um patrão e uma patroa, que, coitados, tinham dó da gente.
Sinha Vitória desejou o bem-estar de Seu Tomás. Coitado. Se a seca chegasse, ele abandonaria a bolandeira, o cavalo de sela e a cama, agarrava a trouxa e caía no mundo. Ela, Sinha Vitória, seria como ele, se aquela necessidade tão simples tivesse sido satisfeita. Uma cama. Fora criada dormindo em esteiras. Os pais, que dormiam em esteira, não conseguiram fazer-lhe o mimo, não possuíam uma cama.
Agora, pensando naquilo, aperreava-se. Não queria morrer. Ainda esperava dias melhores, colheita abundante, o chiqueiro e o curral cheios. Aguentaria firme, embrulhada nos molambos. A roupa era uma miséria. E o colchão de capim? Não se lembrava de colchão. Teria sido bom possuir colchão. Sinha Vitória lembrou-se de filhos novos. Eram fracos, embora gritassem muito, talvez morressem logo. Se morressem, sofreriam menos.
Era uma sorte haver ainda algumas galinhas. As cabras estavam lá fora, pastando, os chocalhos tiniam. Muitas cabras. Deviam valer dinheiro. Se fossem vendidas, a cama seria possível. Foi isto o que Sinha Vitória gritou, dando pancadas na panela com a quenga de coco. Por que vender as cabras? Quando as levassem para a cidade, atravessassem o rio, o chiqueiro ficaria vazio. Adiantava ter chiqueiro sem cabras? Para um cristão ser feliz, havia mister ter chiqueiro e cabras, muitas cabras. E Sinha Vitória possuía cabras.
A panela chiava. Sinha Vitória remexeu-a com a quenga. Apanhou um tição, acendeu o cachimbo de barro, pôs-se a chupar o canudo cheio de sarro. Seu desejo realizava-se. E ela caía na modorra do fim do dia, um torpor que os chocalhos das cabras embalavam. Ia tudo bem. Se a seca não chegasse.