Capítulo 7 — Festa
Sinha Vitória meteu-se na cama de varas. Fazia mais de um ano que falava nisso ao marido. Fabiano a princípio concordara com ela, mastigando cálculos, torcendo os beiços. Trinta e cinco mil-réis. Não era caro, mas onde encontrar trinta e cinco mil-réis? Foram ao Seu Inácio, negociaram peles, e Sinha Vitória realizou um sonho que alimentava desde a infância.
Mas, assim que se estirou na cama pela primeira vez, percebeu que tinha feito má compra. O móvel era capenga, quase não se aguentava em pé, as varas por baixo gemiam. Além disso as pontas dos paus, que iam dar no chão, eram tão altas que ao deitar-se na cama Sinha Vitória ficava de joelhos no ar. Ora, uma pessoa deitada devia manter-se horizontal, tocar o chão com os pés. Uma cama que obrigasse cristão a ficar de joelhos no ar não prestava.
Sinha Vitória deu-se por lograda e não comunicou a decepção ao marido. Aliás, ele vivia agora numa agitação danada, preparando-se para ir à festa da cidade. Sinha Vitória faria o mesmo, enfarruscada, porque via nisso uma repetição da viagem que tinha ido fazer meses atrás. Fabiano fora preso ao sair da bodega. A lembrança entristeceu-a, mas era uma fraqueza não ir à festa. Se não fossem, ficariam como uns caipirascos, que não sabem divertir-se.
Amanheceram na cidade e logo se espalharam, Fabiano para um lado, Sinha Vitória para outro, os meninos atrás da mãe. O vaqueiro tinha resolvido tomar um trago. Entrou na bodega, pediu uma cachaça, bebeu-a, perguntou o preço e teve um sobressalto. Seu Inácio cobrara caro. Fabiano fingia sempre não perceber os furtos do vendeiro, mas a conta era exagerada.
Saiu indignado. Seu Inácio era um ladrão. Estava certo que Seu Inácio era um ladrão, mas não podia dizer isso. O nome do vendeiro andava em bocas de gente da cidade. Se ele, Fabiano, fosse falar mal de Seu Inácio, ninguém acreditaria. Fabiano era um bicho. Se dissesse alguma coisa, os homens da rua iam rir-se. Estava acostumado. Mas daquela vez a coisa era séria, havia perigo de a autoridade aparecer, metê-lo de novo no xadrez.
Engoliu a raiva e caminhou de cabeça baixa. As alpercatas batiam no chão branco e liso da rua, e ele estalava os dedos, fazendo uma conta. Tudo errado, naturalmente. Como podia ser, se os homens da cidade o embrulhavam? Estava acostumado, tinha sempre sido assim. Não entendia nada, mas desconfiava.
Passou diante da igreja. A festa estava no auge. Havia muita gente no adro, e os foguetes espocavam lá fora, junto ao cruzeiro. Um bando de crianças corria, armando barulho. Fabiano apertou o passo, desviou-se do arruído, entrou numa rua torta, que conduzia à bodega de Seu Inácio. Lembrou-se de que ali fora espancado e preso. Suspirou. Aquela bebida que tomara lhe pesava no estômago.
Continuou o passeio na rua da igreja e deparou com o soldado amarelo, que passou rente a ele, fardado e de arma ao ombro. Mecanicamente Fabiano levou a mão ao cinturão, mas o cinturão estava vazio. Não podia brigar com a autoridade, e resignou-se. Seria espancado de novo, preso de novo. Na certa o soldado o faria rolar na lama, outra vez, e ele se sujaria, lecionando desacato à autoridade, na calçada, ao meio-dia, debaixo dos olhos de todo o povo da cidade, vexame horrível.
O amarelo se afastou, e Fabiano saiu da rua, inquieto. Aquele amarelo seria capaz de um desaforo. Dava a impressão de estar bebendo, andando assim, torto, de pernas abertas. Olhou em torno com ódio. Várias vezes tinha pensado em mudar-se, largar aquelas bibocas onde não havia gente direita.
Sinha Vitória estava na feira. Gastara trinta mil-réis num rosário de sementes de lágrimas e dez tostões em três varas de chita vermelha. Regatear, exigir o preço justo, nem pensou nisso. Não se conformava com os preços, mas estava disposta a pagar. Para que discutir? A vendedora queria ganhar as suas porcentagens. E o barulho das pessoas, as cores berrantes das fazendas, a gritaria dos negociantes que alteavam os preços alucinavam-na.
Vagou uma hora por ali, zonza, os meninos amarrados às saias. Depois marchou para a igreja. A festa continuava. Foguetes estouravam, o sino batia, no adro havia uma multidão e as crianças corriam entre as pessoas. Sinha Vitória arrumou-se num canto, os meninos ao lado.
A princípio tudo correu bem. As coisas que Sinha Vitória viu na igreja e na feira encantaram-na. As toalhas do altar, as velas, as pedras vermelhas do chão, os bancos brancos, as imagens e o lustre brilhante — tudo aquilo deslumbrou Sinha Vitória, que voltou à infância. Desejou agarrar-se a qualquer coisa, como fazem as crianças, mas teve vergonha e se encolheu. Passou a mão no rosário, apertou-o. Possuí-lo era como se tivesse parte naquelas maravilhas.
Saíram da igreja. No adro, Sinha Vitória viu moças bem vestidas, e a comparação que estabeleceu entre elas e si descontentou-a. Aquilo era um despropósito. Por que haviam as outras de ser diferentes dela? Iam vestidas de saias engomadas, e ela, Sinha Vitória, tinha uma saia sem engomar. Que diferença fazia isso?
Invejou as saias das outras, franzidas em roda, engomadas, cheias de rendas e fitas. Que despropósito! Ela, Sinha Vitória, era uma pobre cabocla da fazenda, e as outras eram moças importantes, da rua. Natural que andassem arrumadas. Mas eram de carne e osso como ela, comiam feijão e bebiam água como ela. Por que seria que elas se vestiam de um jeito e Sinha Vitória se vestia de outro jeito?
Deixou o adro, inquieta, mal-humorada. Meteu-se por uma rua estreita, depois por outra, topou com uma cadeia, ganhou um beco escuro. Os meninos arrastavam-se cansados. E Sinha Vitória ia aborrecida, pensando na cama que tinha comprado. O rosário engolia o dinheiro. Se não tivesse feito aquela compra maluca, eles se arranjariam melhor. Seria mesmo necessário saber rezar? Ter aquele rosário no pescoço era agradável. Mas provavelmente havia nisso muito desperdício.
Saíram da rua, botaram-se numa estrada quase deserta, e Sinha Vitória achou-se melhor. Ao longe, na beira do rio, subiram uma ladeira. Realmente tinham passado um dia nulo. Nada tinham conseguido. A festa, o passeio, tudo tinha sido inútil. Avistaram a fazenda. Os chocalhos das cabras tilintavam. Baleia corria no pátio. Fabiano estava atrasado. Sinha Vitória avançou, pisando com firmeza no chão. Que festa miserável!