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Capítulo 10 — O soldado amarelo

Fabiano ia satisfeito. Sim senhor, dias de chuva eram bons para o gado. O capim estava brotando e havia comida por toda a parte. As cabras e os cabritos, os carneiros e as ovelhas se multiplicavam, o chiqueiro e o curral não os comportavam. Ele, Fabiano, produzia e ninguém lhe dava valor. Tinha feito milagres, só conhecidos na catinga, que o rodeava.

Chegara naquele estado, com a família morrendo de fome. Caíra no fim do pátio, debaixo de um juazeiro, depois tomara conta da casa deserta. Ele, a mulher e os filhos tinham-se habituado à camarinha escura, pareciam ratos — e a lembrança dos sofrimentos passados esmorecera.

Pisou com firmeza no chão gretado, puxou a faca de ponta, esgaravatou as unhas sujas. Tirou do aió um pedaço de fumo, picou-o, fez um cigarro com palha de milho, acendeu-o ao binga, pôs-se a fumar regalado.

— Fabiano, você é um homem, exclamou em voz alta.

Conteve-se, notou que os meninos estavam perto, com certeza iam admirar-se ouvindo-o falar só. E, pensando bem, ele não era homem: era apenas um cabra ocupado em guardar coisas dos outros. Vermelho, queimado, tinha os olhos azuis, a barba e os cabelos ruivos; mas como vivia em terra alheia, cuidava de animais alheios, descobria-se, encolhia-se na presença dos brancos e julgava-se cabra.

Entristeceu. Considerar-se plantado em terra alheia! Engano. A sina dele era correr mundo, andar para cima e para baixo, à toa, como judeu errante. Um vagabundo empurrado pela seca. Achava-se ali de passagem, era hóspede. Sim senhor, hóspede que se demorava demais, tomava amizade à casa, ao curral, ao chiqueiro das cabras, ao juazeiro que os tinha abrigado uma noite.

Olhou em torno, com receio de que, fora os meninos, alguém tivesse percebido a frase imprudente. Corrigiu-a, murmurando:

— Você é um bicho, Fabiano.

Isto para ele era motivo de orgulho. Sim senhor, um bicho, capaz de vencer dificuldades.

Nessa viagem, cansado, o espinhaço em arco, a cabeça pendida para a esquerda, Fabiano avistou um soldado amarelo, de número, montado num cavalo lazarento. O infeliz abriu caminho na beira da lagoa, por entre as pedras, e ganhou a estrada. Lá se encontravam o vaqueiro e o polícia.

Fabiano pisou firme no chão. Àquela hora, naquele lugar, não esperava deparar com a autoridade. Pôs-se em guarda, alargando as ventas e fungando como um cachorro.

O soldado amarelo desarmara o espírito. Como era pança? Ele e o amarelo! Ora, ora! Depois de tanta humilhação e tantos cães mordidos, acabava encontrando o valente, o que o levara ao xadrez, que o maltratara na cadeia.

Não havia engano. Era o inimigo, era um inimigo que se aproximava a cavalo, bamba na sela, o coronhão da carabina batendo nas coxas. Aquele infame amarelo tinha-o arrastado pelos cabelos, tinha-lhe batido, tinha-lhe dado um pontapé.

A lembrana da viagem à cadeia, da humilhação sofrida na presença de Sinha Vitória, dos aborrecimentos que suportava há meses, tudo fervia no espírito de Fabiano. A fome desapareceu, os ruídos da fazenda se apagaram. Eram como se na sua vida houvesse aparecido um buraco. O ódio ia crescendo. Precisava matá-lo. Livrar-se daquele amarelo.

Chegou-se um pouco, torcendo a boca, impaciente. Tinha o direito de matar o soldado amarelo. Tinha. E não matava porque era uma cabra.

Fabiano contraiu-se, agarrou-se à faca. Uma pancada no pescoço e tudo se arranjaria. E a vontade dele se estirou na vertical, os olhos azuis baixaram-se para a direita e para a esquerda, fixaram-se na cabeça do cavalo que marchava muito perto. A cabeça do soldado estava a dois palmos da sua. Era uma cabeça inerte, chata por cima, com o osso saindo. Uma cabeça de soldado amarelo.

Fabiano largou a faca, o braço amoleceu. Virou-se e afastou-se, inquieto. Aquele amarelo seria capaz de um desaforo. Vacilou, pensou. Besteira pensar. Tinha sido excelente a idéia de não pegar na faca. Vexame. Não era homem para amarrar um desgraçado daqueles. Não. Nunca havia feito mal a ninguém. Se matasse o soldado, iriam processá-lo, prenderiam Sinha Vitória e os meninos. Bem. E depois, matá-lo para quê? Ele estava ali quieto, mal se aguentando na sela, o mosquetão oscilando à garupa. Não tinha culpa de ser um infeliz.

Governo é que devia ter juízo.

Passou a língua nos beiços. Mataria o soldado amarelo? Ora, mataria. Tinha o direito, pois não tinha? Não tinha. Aquilo era besteira. Tolice considerar-se com direito de matar o soldado amarelo. Mas se fosse possível pegar-lhe uma surra, quebrar-lhe os ossos... Uma surra. Provavelmente o amarelo nem resistiria. Era uma sombra. Quase não se agüentava em pé. Pensou na família, nos filhos pequenos, em Sinha Vitória. Coitados. Iriam padecer por causa de um verme. Necessidade de matá-lo. Tinha necessidade de matá-lo? Não. Nunca vira o amarelo maltratar crianças, bater em mulher. Mas ele, Fabiano, fora maltratado.

O ódio que Fabiano sentia pelo soldado diminuiu. Se não fosse a família... Bem, o soldado era um infeliz. Estava ali, caindo do cavalo, morrendo de fome, amolecido pela aguardente que tomara na feira. Fabiano, ao contrário, tinha comido, tinha dormido, estava são e disposto, andara léguas e mais léguas sem cansaço. Se quisesse, amarrava o amarelo, tirava-lhe a carabina e a faca, fazia tudo sem dificuldade. Mas para quê? O soldado era um coitado. Por isso é que o governo o pagava mal. Ordinariamente os soldados têm família e filhos pequenos.

Esfregou as mãos satisfeito. Não matara o soldado amarelo. Estava bem, matá-lo? Não estava. Por que haveria de estar?

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