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Capítulo 5 — O menino mais novo

O menino mais novo tinha tido um sonho ruim. Estava no chiqueiro, com o irmão e a cachorra Baleia, as cabras e os cabritos. Baleia latia, mordia-lhe as pernas, depois se levantava nas coxas dele e queria arrancar-lhe os olhos.

Acordara em pânico, com um grito sufocado na garganta, as mãos suadas apertando as pernas de Sinha Vitória. Esta afastara-o, incomodada, e ele se aninhara de novo no colo dela, tremendo, desejando, com raiva, que a manhã chegasse.

Agora marchava para o bebedouro, debaixo do juazeiro. Tinha fome, estômago e tripas reclamavam, mas tornaria a acomodar-se no colo da mãe. A manhã ainda não tinha chegado de verdade. E o menino se comprazia com a ideia de que era pequeno e precisava daquele apoio. Era pequeno, Sinha Vitória era grande.

Olhou os pés, que eram pequenos, cobertos de rachaduras e feridas. Sinha Vitória tinha nos seus pés grandes rasgaduras, ulcerações fundas, e caminhava sobre elas impassível, como se tivesse sola de couro. Que coisa admirável! Ser grande, ter pés enormes e sólidos, calçados em alpercatas resistentes, dar passos largos!

Infelizmente era pequeno e queixava-se. O irmão já se habituara à idéia de ser pequeno, mas ele não. Baleia também era pequena. Sinha Vitória e Fabiano eram grandes. E, pensando bem, o irmão e a cachorra eram maiores do que ele. Tinha vontade de crescer. Mas como não sabia explicar isso, estirou os braços para cima, para os galhos altos do juazeiro. Precisava subir, chegar àquelas folhas.

Examinou os arredores. As coisas eram extraordinárias. Um besouro de asas vermelhas voou, pousou na lama, um cascudo grande, os filhos da areia. Seria possível que os filhos da areia tivessem asas? Um dia as teria também. Faria aquilo: voaria, como o bicho e como as aves de arribação que cortavam o azul lá em cima.

Repetiu as palavras de Sinha Vitória, as exclamações que provocavam riso. Depois, cansado, deitou-se, fechou os olhos. Não queria dormir, bem sabia que em algum lugar o moleque estava crescendo. Se continuasse a dormir, iria ficar muito para trás. Mas o sono era uma coisa irresistível. Os olhos se fecharam, e um sonho mau novamente o atormentou.

Sinha Vitória cheirava mal e a boca dela estava negra, porque tinha comido mucunã torrado. Fabiano estirava-se na rede como se fosse de couro. Couro. O menino mais novo repetiu mentalmente esta palavra, procurou em vão perceber o sentido dela. Provavelmente Fabiano a tinha ouvido dizer por aí — o pai sempre vinha com expressões esquisitas, que Sinha Vitória reprovava.

Baleia estirou as pernas, adormecida. Acordou de um salto. Aquilo era um sonho, era a lembrança do pesadelo. Quis afastar aquelas visões penosas, andou, parou, e como Baleia continuasse quieta, a língua para fora, ofegante, tornou a sentar-se.

Deu uns passos para lá e para cá. Não havia ninguém, não valia a pena fazer nada. Achou-se sem jeito, pensou em voltar para junto de Sinha Vitória e enroscar-se a um canto. Mas tinha orgulho, estava zangado.

Examinou a porteira do curral, o mourão do canto. Tudo muito grande, muito longe. Eram os mesmos objetos que ele vira de perto, com Sinha Vitória, na véspera. A diferença estava nele, naturalmente: tinha-se afastado da mãe e reduzido.

Na véspera tinham ido ali, diante da porteira do curral, e Sinha Vitória se acocorara, descansando os ossos. Em seguida se havia erguido e eles tinham caminhado alguns minutos, Sinha Vitória à frente, ele atrás, uma distância enorme separando-os. Mas na verdade estavam perto um do outro — e Sinha Vitória era enorme.

Agora ele queria crescer, desejava bruscamente ser um homem. Valia a pena? Era bom ser homem e ter um facão grande como o de Fabiano. Um facão enorme, que cortasse mandacarus, raízes e outras coisas duras.

Levantou-se e caminhou para o curral. Baleia acompanhou-o. A porteira estava fechada. Examinou-a, procurando uma passagem. Não havia nenhuma. Tentou passar por baixo, não conseguiu. Estava diante de um obstáculo que era impossível transpor. A cachorra rodeou a cerca, farejando. O menino sentou-se na soleira da porta, desanimado. Baleia também se sentou, a língua de fora, os beiços arreganhados, mostrando as presas, abanando o rabo.

Ficaram assim muito tempo. Depois, para se distrair, o menino começou a arrancar fiapos da esteira furada em que dormia. Puxou um, dois, três. Aquilo entreteve-o. Largou a esteira, levantou uma pedra miúda, atirou-a a Baleia. O animal desviou-se, ganindo, e o menino, satisfeito com o resultado, procurou mais pedras. Não achou nenhuma e tornou a mexer na esteira desfiada.

Evidentemente Baleia era maior do que ele. Desejou brigar com ela, puxar-lhe as orelhas, obrigá-la a pedir socorro num ganido. Mas a cachorra tinha dentes afiados, e ele, o menino mais novo, tinha mãozinhas fracas, boas para agarrar xícaras, mamadeiras. Baleia era grande, havia nela qualquer coisa dos adultos, uma inacessibilidade, longínqua. Tudo grande. Não conseguia furtar-se à comparação entre o seu tamanho e o das coisas.

Impressionou-se com a altura do mourão do canto do curral, achou que nunca poderia alcançar o topo daquilo. E Fabiano tinha-se trepado nele no dia anterior, as pernas separadas, olhando a catinga. Como seria possível um homem trepar num pau? Andava com as próprias pernas, sobre a terra — e de repente estava no alto de um mourão! Agora, pensando naquilo, o menino julgava Fabiano extraordinário.

Baleia abandonou a soleira da porta, entrou no copiar, deu duas voltas na sala, foi brincar com as panelas que secavam junto à trempe. Sinha Vitória chamou-a. Baleia correu, cheirou os pés da dona e sentou-se no calor, cochilando.

O menino ficou só no bebedouro, vestido de camisa de baeta, a cabeça chata agasalhada num guarda-pó de Fabiano. A aragem seca da manhã entrava-lhe pelas mangas compridas da camisa de baeta. Muito frio. Sinha Vitória estava longe, no copiar, uma distância impossível. Encolheu-se, apertando os braços ao corpo, e ficou de cócoras, os joelhos dobrados, embrulhado como uma trouxa.

Depois abriu os olhos, ainda meio tapados de sono, botou a mão para fora e arrancou um graveto seco de unha-de-gato. Foi quebrá-lo em pedaços miúdos, mas o espinho cravou-se na carne mole do dedo. Gritou, largou o graveto, enfiou o dedo na boca. Podia ter arrebentado o espinho, mas chorou. E num choro raivoso, sacode o braço para cima, ameaçando alguém.

O grito despertou Sinha Vitória, que se ergueu, zonza, entrou no copiar e apareceu junto ao bebedouro.

— Que há?

O menino não respondeu. Estava furioso, queria ser grande, como os adultos. Encolheu-se, fechou-se, perdeu-se numa perturbação. Sinha Vitória puxou-o para casa, deitou-o no cocho de sal e foi mexer nas panelas.

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