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Julião Tavares entrava no café. Ia sentar-me longe dele, voltava-lhe as costas, mas examinava o espelho coberto de letras brancas. Afetava desprezo, aparentemente ignorava a existência do homem. Via, porém, a roupa molhada nos sovacos, os olhos que saltavam das órbitas, o cabelo escorrido, a papada balofa, as bochechas enormes, tudo riscado de traços brancos que anunciavam bebidas. Se me falavam, eu respondia com uma interjeição qualquer, voz selvagem, gutural, ouvida antigamente aos almocreves e aos tangerinos e que não perdi, apesar dos anos de cidade. Enquanto lançava distraído esses gritos estranhos e ásperos, lia os anúncios que havia no espelho. Juntava letras das palavras mais compridas e formava nomes novos.

Esse exercício tornou-se em mim um hábito de que não me posso libertar. Conto pelos dedos as combinações que vão surgindo, em séries de vinte, correspondentes às duas mãos fechadas e abertas. Quando há muitas vogais, consigo arranjar sessenta, oitenta, às vezes cem palavras ou mais. Faço assim com os letreiros das casas de comércio, com os cartazes de cinema, com os títulos dos jornais e dos livros. Esse passatempo idiota dá-me uma espécie de anestesia: esqueço as humilhações e as dívidas, deixo de pensar. Pelo menos não penso numa coisa só. Mas vejo perfeitamente o que se passa em roda. Pouco a pouco chegam sinais de impaciência: os dedos apertam-se, as unhas ferem a palma, e zango-me por estar perdendo tempo com semelhante estupidez, mas ordinariamente não interrompo a contagem.

Ali sentado a um canto, voltado para a parede, sentia­-me distante do mundo. Só via as letras brancas que se estampavam na cara vermelha de Julião Tavares. Lembrava­-me dos desenhos medonhos que os selvagens fazem no rosto e do costume que os cangaceiros têm de marcar os inimigos com ferro quente. Dos letreiros brancos saíam às vezes nomes que se aplicavam bem a Julião Tavares. Se eu fosse um cangaceiro sertanejo e encontrasse Julião Tavares numa estrada, meter-me-ia com ele na capoeira e imprimir-lhe-ia no focinho, com ferro, algumas das letras brancas que lhe apareciam na pele e na roupa. Segurava a xícara desatento, derramava açúcar no pires e no mármore, bebia o café maquinalmente. Os traços de alvaiade zebravam as pessoas que transitavam na rua. Certamente Marina ia surgir entre elas.

Depois que Julião Tavares tinha deixado de frequentar a casa vizinha, qualquer ausência de Marina me trazia a suspeita de que os dois iam encontrar-se. Tomava o chapéu e acompanhava-a, escondendo-me, encostando­-me às paredes, receando que a espionagem fosse descoberta. Evidentemente as relações dos dois estavam reatadas. O homem gordo ia virar uma esquina e dar o braço à amante, levá-la a uma casa de recurso. A evidência esmorecia. Marina andava como as outras mulheres, olhava as vitrinas, entrava nas lojas. Ia esperá-la no primeiro poste cintado de branco. Minutos depois a perseguição recomeçava, até que ela se recolhia. Sentia-me a um tempo aliviado e logrado. Era claro que eles iam juntar-se em qualquer parte. Acusava-me de não ter prestado bastante atenção à rua. Com certeza tinha-me escapado uma porta meio aberta, uma escada sombria onde aquele sem-vergonha se atocaiava. O meu desejo era voltar, examinar os arredores, as esquinas, as árvores da rua Augusta. Estava certo de que, enquanto eu vigiava Marina, Julião Tavares me vigiava de longe, parando, escondendo-se.

Ali no café, com o jornal enrolado sobre o mármore, a mão gorda e curta distribuindo acenos, o sorriso nos beiços grossos, derretia-se para as moças que passavam na calçada. Por detrás das linhas brancas do espelho, a cara redonda se afogueava, as bochechas moles inchavam, o olho azulado queria escapulir-se da órbita e meter­-se no seio das mulheres.

Eu procurava um cigarro, sentia a aspereza da corda. Ficara no bolso desde aquela tarde, misturando-se aos cigarros soltos e machucados.

As letras dos anúncios desapareciam, e toda a minha atenção se concentrava em Julião Tavares. Lembrava-me do primeiro encontro que tivemos, no Instituto. Ele catalogava frases monstruosas a respeito da bandeira nacional. À saída dava-me um empurrão, segurava-me um braço e escorregava na intimidade. Meia hora depois expunha-me projetos de reforma.

“O país precisa isto, precisa aquilo.”

“Ah! Eu conheci logo que o senhor era patriota.”

Lá estava amolando outro, com o cotovelo no mármore, a voz oleosa, o olho derramado sobre as mulheres. Agitava-me, rangia os dentes, grunhia uma obscenidade.

Não ligava importância àquelas bestas, fossem para a casa do diabo. Tinham dormido juntos, ela estava pejada. Muito bem. Era encher-se, parir, enjeitar o filho, marchar para a rua da Lama, acabar-se no esquentamento. Um filho na barriga, um filho daquele sem-vergonha. Tão bom era um como o outro.

E apertava a corda com força. Quando retirava a mão do bolso, via nos dedos os sinais que ela deixava, marcas roxas na pele suada. O meu desejo era dar um salto, passar uma daquelas voltas no pescoço do homem.

O doutor chefe de polícia estava ali tomando café, de cabeça baixa, preocupado com alguma encrenca.

Que é que me podia acontecer? Ir para a cadeia, ser processado e condenado, perder o emprego, cumprir sentença. A vida na prisão não seria pior que a que eu tinha. Realmente as portas ali são pretas e sujas, as grades de ferro são pretas e sujas, os móveis são pretos e sujos. É o que me amedronta. Aquele bolor, aquele cheiro e aquela cor horríveis, aquela sombra que transforma as pessoas em sombras, os movimentos vagarosos de almas do outro mundo, apavoravam-me. Não posso encostar-me às grades pretas e nojentas. Lavo as mãos uma infinidade de vezes por dia, lavo as canetas antes de escrever, tenho horror às apresentações, aos cumprimentos, em que é necessário apertar a mão que não sei por onde andou, a mão que meteu os dedos no nariz ou mexeu nas coxas de qualquer Marina. Preciso muita água e muito sabão. Viver por detrás daquelas grades, pisar no chão úmido, coberto de escarros, sangue, pus e lama, é terrível. Mas a vida que levo talvez seja pior. Não tinha medo da cadeia. Se me dessem água para lavar as mãos, acomodar-me-ia lá. Podia o resto do corpo ficar sujo, podiam os piolhos tomar conta da cabeça e as roupas esfrangalhadas cobrir mal a carne friorenta. Se me dessem água para lavar as mãos, estaria tudo muito bem. Dar-me-iam água para lavar as mãos? A cara do doutor chefe de polícia era triste. Provavelmente ele vivia cheio de aborrecimentos, tinha uma necessidade qualquer e compreenderia a minha necessidade de lavar as mãos. Decididamente a polícia não me inspirava receio.

Medo de Julião Tavares? Não havia motivo, Julião Tavares procuraria levantar-se do tamborete, faria um barulho inútil, bateria com os braços na mesa e quebraria a xícara. As bochechas vermelhas se tornariam roxas, os olhos se rodeariam de olheiras roxas, os beiços roxos e intumescidos se descerrariam mostrando os dentes de rato e a língua escura e grossa, os movimentos das mãos se espaçariam, afinal seriam apenas sacudidelas, contrações. A imobilidade dos dedos sobre o mármore, os pés das unhas roxos. Um rebuliço, mesas caídas, o guarda-civil do relógio oficial apitando, gente correndo, aos gritos.

Medo da opinião pública? Não existe opinião pública. O leitor de jornais admite uma chusma de opiniões desencontradas, assevera isto, assevera aquilo, atrapalha-se e não sabe para que banda vai. Ouvindo-o, penso no tempo em que os homens não liam jornais. Penso em Filipe Benigno, que tinha um certo número de ideias bastante seguras, no velho Trajano, que tinha ideias muito reduzidas, em mestre Domingos, que era privado de ideias e vivia feliz. E lamento esta balbúrdia, esta torre de Babel em que se atarantam os frequentadores do café. Quero bradar:

“Eles escrevem assim porque receberam ordem para escrever assim. Depois escreverão de outra forma. É tapeação, é safadeza.”

Aborreço a lida enfadonha, que só serve para gerar confusão no espírito de seu Ramalho. Pimentel é um malandro. Por que será que Pimentel não escreve sempre as mesmas coisas? Repetindo-as, ele próprio, que não acredita em nada, acabaria acreditando nos seus artigos.

Não há opinião pública: há pedaços de opinião, contraditórios. Uns deles estariam do meu lado se eu matasse Julião Tavares, outros estariam contra mim. No júri metade dos juízes de fato lançaria na urna a bola branca, metade lançaria a bola preta. Qualquer ato que eu praticasse agitaria esses retalhos de opinião. Inútil esperar unanimidade. Um crime, uma ação boa, dá tudo no mesmo. Afinal já nem sabemos o que é bom e o que é ruim, tão embotados vivemos.

Eu não podia temer a opinião pública. E talvez temesse. Com certeza temia tudo isso. Era um medo antigo, medo que estava no sangue e me esfriava os dedos trêmulos e suados. A corda áspera ia-se amaciando por causa do suor das minhas mãos. E as mãos tremiam. O chicote do feitor num avô negro, há duzentos anos, a emboscada dos brancos a outro avô, caboclo, em tempo mais remoto… Estudava-me ao espelho, via, por entre as linhas dos anúncios, os beiços franzidos, os dentes acavalados, os olhos sem brilho, a testa enrugada. Procurava os vestígios das duas raças infelizes. Foram elas que me tornaram a vida amarga e me fizeram rolar por este mundo, faminto, esmolambado e cheio de sonhos. Não preciso de automóveis nem de rádios, viveria bem numa casa de palha, dormiria bem numa cama de varas, num couro de boi ou numa rede de cordas, como Quitéria, como o velho Trajano e Camilo Pereira da Silva. Para que me habituei a ler papel impresso, a ouvir o rumor de linotipos? Desejaria calçar alpercatas, descansar numa rede armada no copiar, não ler nada ou ler inocentemente a história dos doze pares de França.

Onde estariam os descendentes de Amaro vaqueiro? Talvez o guarda-civil do relógio oficial fosse um deles. Se eu matasse Julião Tavares, o guarda-civil não levantaria o cassetete: apitaria. Chegariam outros, que me ameaçariam de longe. O guarda-civil não tem coragem. Se tivesse, não olharia os automóveis horas e horas, junto ao relógio oficial: ocupar-se-ia devastando fazendas, incendiando casas, deflorando moças brancas, enforcando proprietários nos galhos dos juazeiros. Os sertanejos fortes revoltaram-se e andam matando, roubando, violando, quase selvagens, sujos, os cabelos compridos, enfeitados de penduricalhos, os chapéus de couro cobertos de medalhas, as cartucheiras pesadas, enormes. Nenhum respeito à autoridade. Se um oficial de polícia viajar pela estrada, morre na tocaia. E se não morrer logo, é pior: levam-no para a capoeira e torturam-no. Os campos estão desertos, o gado enegreceu com o carrapato, os homens valentes pegaram o rifle, amarraram a cartucheira na cintura. O guarda-civil do relógio oficial veio para a cidade e arranjou emprego. É um sujeito magro como eu, civilizado como eu. Se houver barulho na rua, ele apita. Se houver greve nas fábricas e lhe mandarem atirar contra os grevistas, atira tremendo. As greves acabam. E ele voltará para a chateação do ponto, magro, triste. É pouco mais ou menos como eu.

“Escreva um artigo a respeito de salários, seu Luís.”

Bocejo e sapeco uma literatura ordinária, constrangido. Sei que estou praticando safadeza. Penso no que acontecerá depois. Quando houver uma reviravolta, utilizarão as minhas habilidades de escrevedor? E o guarda-civil? Continuará junto ao relógio, olhando os automóveis, apitando em caso de necessidade? E Julião Tavares, patriota e versejador? Para que serviria Julião Tavares? Agora era uma figura importante demais. Tavares & Cia., negociantes de secos e molhados na rua do Comércio, eram uns ratos. A personagem oficial que visitava d. Mercedes, alta noite, devia muito a Tavares & Cia. E Julião Tavares era importante. Fazia receio matar um sujeito importante como Julião Tavares.