Nas horas de serviço conseguia distrair-me. Os livros enormes de lombos de couro e folhas rotas, os ofícios, a campainha do telefone e o tique-taque das máquinas de escrever me arrastam para longe da terra. O que lá fora é bom, útil, verdadeiro ou belo não tem aqui nenhuma significação. Tudo é diferente. Respiramos um ar onde voam partículas de papel e de tinta e trabalhamos quase às escuras. A voz do diretor é doce, ranzinza e regulamentar. Se um funcionário comete uma falta, o diretor mostra o parágrafo e o artigo adequados ao caso. Sucede que o funcionário se defende apontando outro artigo. Aí o diretor perturba-se e descontenta-se: compreende que o serviço não vai bem, mas encolhe-se diante do regulamento e admira e receia o empregado que soube encapar-se nele. Movemo-nos como peças de um relógio cansado. As nossas rodas velhas, de dentes gastos, entrosam-se mal a outras rodas velhas, de dentes gastos. O que tem valor cá dentro são as coisas vagarosas, sonolentas. Se o maquinismo parasse, não daríamos por isto: continuaríamos com o bico da pena sobre a folha machucada e rota, o cigarro apagado entre os dedos amarelos. Deixaríamos de pestanejar, mas ignoraríamos a extinção dos movimentos escassos. Os rumores externos chegam-nos amortecidos. Que barulho, que revolução será capaz de perturbar esta serenidade?
Era, pois, na repartição que eu obtinha algum sossego. As imagens que me atormentavam na rua surgiam desbotadas, espaçadas e incompletas. O ambiente era impróprio à vida intensa que elas tinham lá fora. Quando se iam fixando, um tique-taque de máquina de escrever, o chiar de uma folha que roçava sobre outra como lixa, um toque distante de campainha, uma voz descontente e adocicada, todas as complicações miúdas que me sustentam, cortavam as figuras esboçadas. Julião Tavares era uma sombra que se arredondava, tomava a forma de um balãozinho de borracha. Este objeto colorido flutuava, seguro por um cordel. O vento arrastava-o para um lado e para outro, mas o cordão curto não o deixava arredar-se muito do café. Marina era outra sombra que se balançava devagar na rede. O rumor dos armadores era interrompido pelo tilintar do telefone. A rede ia e vinha, Marina se deslocava um metro para a direita, um metro para a esquerda, e não podia ir mais longe. Desaparecia o risco de se aproximarem os dois, era como se estivessem amarrados.
Logo que me afastava da repartição, tudo mudava. Tropeçando no paralelepípedo, via, meio encandeado pelo sol, os transeuntes juntarem-se e apartarem-se, e isto me parecia cheio de malícia. Havia intenções reservadas nos homens que se acercavam das mulheres, havia promessas nos olhos das mulheres que se desviavam dos homens. Automóveis abertos exibiam casais, automóveis fechados passavam rápidos, e eu adivinhava neles saias machucadas, gemidos, cheiros excitantes. Todos os veículos transportavam pecados. A cidade estava em cio, era como o chiqueiro do velho Trajano. Que perigo! Três horas escondido — e cá fora esta gente desenfreada, bodejando, com estilo, com demoras e requintes, mas bodejando como os bodes do velho Trajano.
Os relógios batiam. Com certeza os machos olhavam os mostradores, pensando em entrevistas. Apressava-me. Três horas metido entre as paredes de uma catacumba oficial. Imaginava o que teria podido acontecer nessas três horas e aterrorizava-me. Corria para casa desembestado. A sala de jantar, a barra vermelha com manchas de umidade, o cano de ferro. Vitória punha os pratos na mesa. Esforçava-me por conversar, lembrava-me das moedas e sentia remorso, falava nos vapores. Vitória dizia a lista dos passageiros. Tentara fazer Currupaco decorar uma das listas, mas Currupaco não dera conta do recado e ficara nos versos da mulher do macaco, que fia e cose e toma tabaco há muitos anos.
“O senhor está magro como um cassaco. Não come!”
Arreliava-se e dava-me conselhos. Como eu não lhe prestava atenção, afastava-se e ia explicar junto à gaiola do Currupaco:
“Papagaio não comeu, morreu.”
Eu mastigava uns bocados, enganava o estômago, olhava o quintal, enfadado com a tagarelice da velha. Zangava-me e tinha vontade de lhe pedir silêncio. Continuando a falar tão alto, não me deixaria ouvir mais nada.
“Vá comprar um maço de cigarros, Vitória.”
Quando ela voltava, dava-lhe outra incumbência e conseguia ficar só algum tempo. Aproximava-me da parede manchada, aumentava a orelha com a mão e esperava, esperava, até que percebia aquela voz sacudida que ia ficando quebrada. Afastava-me, atravessava o corredor, chegava à porta da rua.
Dez minutos depois entrava no café. Lá estava Julião Tavares na prosa. Ia sentar-me no meu lugar. Se Moisés e Pimentel apareciam, conversávamos, discutíamos os fuxicos do jornal, metíamos o pau nos literatos da terra. Sentia-me em segurança. Na animação da palestra procurava cigarros, mas retirava a mão do bolso como se tivesse sido mordido. Aquela coisa punha termo aos momentos de tranquilidade.
“Um maço de cigarros.”
Abria o maço de cigarros e deixava-o sobre a mesa. No dia seguinte jogaria a corda por cima do muro de d. Rosália.
“Fume um cigarro, Pimentel.”
Não. As crianças pegariam aquilo, brincariam com aquilo, e aquilo era sujo e perigoso. Atiraria a corda por cima do muro do fundo, no monte de lixo e cacos de vidro, onde lançam ratos mortos. Seu Ivo, aquele cachorro, achava poucas as minhas aporrinhações e ainda me trazia encrencas. Seu Ivo que fosse para o diabo.
“A arte deve ser assim e assado”, explicava Moisés.
A tecla de sempre, arte como instrumento de propaganda política. Eu queria contrariar o judeu, mas esmorecia, sem coragem para a discussão.
“Estou em segurança, em perfeita segurança.”
Cada vez mais me convencia, porém, de que não estava numa segurança assim tão perfeita. Parecia-me que na calçada inimigos embiocados me espiavam.
“Um homem de repartição habitua-se a não ver nada fora dos processos. Vive lesando, como um cego, não é verdade, Pimentel?”
“Sem dúvida.”
Pimentel concordava distraído! Não desgosta ninguém. Escrevendo, agarra uma opinião e, sinta quem sentir, sapeca tudo no papel. Saem artigos furiosos, agressivos como uma peste. Mas em conversa aprova o que a gente diz.
“Continue, Moisés. Como é lá isso?”
Tranquilo, perfeitamente tranquilo. Seu Ivo era um grande patife. Onde andaria seu Ivo? Vagabundeando pelos municípios. Uma tristeza pensar em seu Ivo, que só servia para incomodar os outros.
“Vai tudo muito mal, minha gente. Vai tudo escangalhado. Não há segurança nenhuma.”
Não havia. A tranquilidade era pouco a pouco substituída por uma inquietação que me tornava brutal com os companheiros. Instabilidade, ruína, o mundo perdido. Não argumentava, não me explicava: queria descontentar Moisés.
“Não há remédio não. História. Tudo perdido.”
Repisava no mesmo terreno, desajeitado. Uma teimosia estúpida. Procurava andar para diante, sentia-me burro, e isto me irritava mais. Ridículo, absolutamente ridículo. E zangava-me com Moisés, que falava sem se alterar. De quando em quando tudo escurecia — ficavam-me diante dos olhos listras coloridas. Receava-me de ofender gravemente Moisés. As minhas mãos dirigiam-se para ele, apertavam-se, como se o fossem estrangular. Eu procurava qualquer coisa, apalpava o bolso que tinha a corda e fazia um chumaço no paletó velho. Baixava a cabeça, prendia as mãos entre as pernas, envergonhado, perguntava a mim mesmo se Moisés teria percebido a tentação e os movimentos. Parecia-me ter cometido uma falta. Selvagem.
“Ora, sim senhor. Em conversinhas como esta é que se armam fuzuês medonhos.”
Dizia isto em voz baixa, mas os dois amigos ouviam algumas palavras e espantavam-se. Fuzuês medonhos, brigas, sopapos, tiros. Lá vinha o título enorme da notícia, em quatro colunas: “Comunista assassinado num café”. Ruim título. Pimentel arranjaria outro melhor. E escreveria durante uma semana coisas interessantes. Enquanto matutava nestes absurdos, olhava-me ao espelho: uma cara besta. Evidentemente o pessoal mangava de mim; Julião Tavares, no outro lado da sala, mangava de mim, via-se muito bem entre as linhas brancas do espelho. Esforçava-me por endireitar o rosto descomposto, procurava entender o discurso de Moisés. Com os olhos arregalados e os queixos contraídos, o que me dava à boca uma aparência de focinho, era como um rato, um rato bem-educado, as patas remexendo o maço de cigarros.
“Perfeitamente, perfeitamente.”
Agora concordava com tudo. Eu tinha lá convicção! Baixava a mão lentamente, tocava no bolso volumoso. Pensava em Chico Cobra e no cabaço cheio de jararacas. Faltava-me qualquer coisa.
“Perfeitamente.”
Levantava-me:
“Está bem. Já volto.”
Corria à rua do Macena, entrava em casa, ia à sala de jantar, ao quintal, ao banheiro, demorava-me até perceber sinais da presença de Marina. Então voltava à conversa interrompida com os amigos.
“Tranquilo, tranquilo.”
Quando não encontrava Julião Tavares, detinha-me um instante à porta, depois saía pelas ruas, a procurá-lo.