Introduzi perturbações muito sérias numa vida. Quando recebi o ordenado, obtive no café cinquenta e dois mil-réis em prata. Vitória fazia inconscientemente ótimo negócio. Juro de cento por cento. À noite juntei a isso as duas libras esterlinas e, tarde, quando houve silêncio, pus tudo sob a raiz da mangueira. Infelizmente coloquei as moedas empilhadas, como num cartucho, posição diferente da que tinham as que lá estavam. Suponho que isso provocou a desconfiança de Vitória.
No dia seguinte paguei o salário dela. E vi-a, como todos os meses, andar numa agitação, trocando as cédulas, sumindo-se à noite em viagens ao quintal. Mas a confusão, que ordinariamente dura três, quatro dias, desapareceu logo e foi substituída por um abatimento que me causou grande mal-estar. Ouvi-a uma noite inteirinha contar dinheiro. Como já disse, ela pensa em voz alta. O metal tilintava em cima da cama da velha, e os números se acumulavam numa soma infindável, sempre emendada. Às vezes a chave rangia na fechadura, a porta abria-se, tornava a fechar-se, abria-se a da sala de jantar, os passos pesados desciam os degraus. Meia hora depois a mulher voltava, as moedas tiniam novamente em cima da cama. Outro sumiço. Eu adormecia, mas o ferrolho da sala de jantar e a fechadura do quarto próximo acordavam-me. O solilóquio e os tinidos tiravam-me o sono.
Levantei-me cedo e encontrei Vitória muito velha e muito bamba. Deixava-se cair a um canto da cozinha, e era difícil arrancar-se dali. Interrompeu as idas ao quintal e abandonou as lições ao Currupaco. Notei que as covas estavam revolvidas e mal cobertas.
“Vitória!”
Tinha vergonha de chamá-la, temia que ela me pregasse os olhos brancos e cansados, cheios de aflição.
“Vitória!”
Estava sentada, encolhida, movendo em silêncio os beiços moles. E quando levantava a cabeça, mostrava no rosto uma suspeita agoniada. Se ela andava com as suas contas em ordem, certamente se espantava de haver achado em um dos buracos vinte e seis mil-réis a mais; se as contas não estavam em regra, talvez se julgasse roubada. E Vitória engolia em seco, olhava o Currupaco ansiosa, numa interrogação desalentada que fazia pena.
“Vá descansar, Vitória. Você está doente.”
Não podia descansar, e a minha piedade era inútil.
Levei o desespero a uma alma que vivia sossegada. Toda a segurança daquela vida perdeu-se. A linha traçada do quarto à raiz da mangueira, uma linha curta que os passos trôpegos e vagarosos percorriam na escuridão, fora de repente cortada.
“Vá descansar, Vitória.”
Conselho inútil. O céu de Vitória, miudinho, onde grilos e formigas moravam, tinha sido violado.