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O último dia foi medonho. Quando a limusine rolou no paralelepípedo e o peitilho de Julião Tavares se sumiu, não me afastei da janela. Fiquei mastigando o cigarro e respirando aquela mistura desagradável que enchia a rua. Nenhum desejo de ir aos Martírios, subir o morro do Farol e escutar os tipos que se encostavam ao balcão sujo e gorduroso da bodega. Apalpei a carteira vazia, meti os dedos nos bolsos miúdos, vazios. Sentia-me incompleto e sem ânimo de me aventurar sozinho por aquelas ruas esquisitas. Sentia-me fraco e desarmado.

Por que seria que o peitilho de Julião Tavares brilhava tanto e não se amarrotava? Julião Tavares ficava duro como um osso fraturado envolvido em gesso, tinha o espinhaço aprumado em demasia, olhava em frente, com segurança, a vinte passos. O peitilho da camisa absolutamente chato.

A minha camisa entufa no peito, é um desastre. Quando caminho, a cabeça baixa, como a procurar dinheiro perdido no chão, há sempre muito pano subindo-me na barriga, machucando-se, e é necessário puxá-lo, ajeitá-lo, sujeitá-lo com o cinto, que se afrouxa. Esses movimentos contínuos dão-me a aparência de um boneco desengonçado, uma criatura mordida pelas pulgas. A camisa so­be constantemente, não há meio de conservá-la estirada. Também não é possível manter a espinha direita. O diabo tomba para a frente, e lá vou marchando como se fosse encostar as mãos no chão. Levanto-me. Sou um bípede, é preciso ter a dignidade dos bípedes. Um cachorro como Julião Tavares andar empertigado, e eu curvar-me para a terra, como um bicho! Desentorto o espinhaço. Que é que me pode acontecer? Se dr. Gouveia passar por mim, finjo não vê-lo. É impossível pagar o aluguel da casa. Não pago. Hei de furtar? Dr. Gouveia que se lixe. Se o governador e o secretário me encontrarem, é como se não encontrassem. Não os enxergo, na rua sou um homem. Pensam que vou encolher-me, sorrir, o chapéu na mão, os ombros derreados? Pensam? Estão enganados. Sou um bípede. É isto, um bípede. Mas não é necessário que dr. Gouveia, o governador e o secretário apareçam na rua. Aliás é bom que eu não veja essas criaturas exigentes. Se elas desejarem qualquer coisa de mim, falarão de longe: escreverão um bilhete ou darão uma ordem para o jornal, ao Pimentel, pelo telefone. Mandarei um mês do aluguel da casa, se puder, ou escreverei mais uma coluna que já escrevi centenas de vezes e reproduzo sempre, substituindo palavras. Esses homens dominam-me sem mostrar o focinho: manifestam-se pelo arame, num pedaço de papel.

Pensam que vou ficar assim curvado, nesta posição que adquiri na carteira suja de mestre Antônio Justino, no banco do jardim, no tamborete da revisão, na mesa da redação? Pensam? Procuro ajeitar as vértebras, mas as vértebras parecem soltas, presas apenas por um fio, como as que Dagoberto vinha jogar em cima da minha cama. Resvalam pouco a pouco, e ao cabo de vinte minutos de exercício penoso o meu corpo toma a configuração de um arco. A cabeça pende, como se procurasse dinheiro na calçada, e a camisa faz pafos no peito. Inútil tentar abaixá-la e prendê­-la na cintura. Sobe sempre e me arrelia. Enquanto me aperreio com ela, não vejo as pessoas. Que será de mim para o futuro? Está claro que não inspiro confiança aos trabalhadores. Na sessão mais agitada seu Ramalho gemerá, cansado e asmático, um ombro alto, outro baixo: “Camarada Luís da Silva, você escreveu um artigo defendendo o imperialismo”. “Não escrevi não. Sou lá homem para defender o imperialismo?” “Está aqui o original, é a sua letra”, dirá o rapaz de cabelos compridos, que toca violão. Moisés não terá coragem de interceder por mim. Pimentel estará fuzilado. Lobisomem tomará uma nota lenta nos papéis. Fico pensando em coisas assim, cabisbaixo, a testa enrugada. Se dr. Gouveia, o governador, o secretário, passarem por mim, não os verei: seguirei o meu caminho com dignidade curva, o espírito distante. Os conhecidos que me virem pensarão: “Luís da Silva é um sujeito que não tem subserviência nenhuma”. E os que me cumprimentarem e não obtiverem resposta dirão: “Luís da Silva é uma besta, um imbecil, um cretino”. É bom não levantar a espinha. Se a levantasse, teria de baixá-la de novo a cada passo, aflito e apressado, o chapéu na mão. Assim, não vejo ninguém, caminho batendo nos transeuntes, enrolando palavras de desculpa, entrando no futuro como um parafuso. “Camarada Luís da Silva, antes da revolução você elogiava os políticos safados do interior, os prefeitos ladrões. Onde está o dinheiro que essa gente lhe deu?” Sabia lá!

Agora não tinha dinheiro. De quando em quando metia a mão no bolso. Desarmado e só, inteiramente só, encostado à janela, ouvindo o barulho dos automóveis. Nenhum desejo de fugir das pessoas que iam ao teatro. Sentia era vontade de ir também, sentar-me numa cadeira junto do palco, bater palmas, olhar os camarotes. Faltavam-me cinco ou seis dias para receber o ordenado. Agora não havia dinheiro, só restavam níqueis. Um empréstimo, sem dúvida, um empréstimo. Mas quem me iria emprestar vinte mil-réis àquela hora?

D. Mercedes entrou no carro. A personagem oficial não a acompanhava. Tipo de responsabilidades, pai de família, ia ao teatro em companhia da mulher e das filhas. D. Mercedes sentava-se num camarote fronteiro, não bem fronteiro, um pouco de esguelha, e não se exibia demais.

Se Pimentel aparecesse, talvez me arranjasse o ingresso do jornal. Ou um empréstimo. Dentro de cinco dias, seis quando muito, o tesouro pingaria o ordenado da gente.

“Daqui a dez anos terei esse ordenado?”

E Julião Tavares? Julião Tavares estaria expatriado, fuzilado ou enforcado. Enforcado, Julião Tavares enforcado. Marina deixaria de pintar as unhas e iria trabalhar no asilo das órfãs.

Vinte mil-réis, vinte mil-réis. Lembrava-me dos leilões em que se cavava dinheiro para um santo, diante da igreja da vila. “Vinte mil-réis me dão por esta prenda…” O olho de vidro de padre Inácio, imóvel na órbita escura, tinha uma dureza sinistra.

Vinte mil-réis, vinte, mil-réis. Não haveria leilões, não haveria santos, Marina trabalhando no asilo das órfãs, Julião Tavares enforcado, padre Inácio morto muitos anos antes.

Àquela hora a plateia começava a encher-se, um garoto dizia pilhérias, as cantoras pintadas e empacaviradas em mantos compridos entravam pela portinhola da caixa. Mantos pretos. Pareceu-me que os mantos deveriam ser pretos, mas não pude saber por que me vinha esta ideia.

Vinte mil-réis, vinte mil-réis. Padre Inácio cravava nos ofertantes o olho duro e imóvel, andava em torno da mesa com as mãos atrás das costas, todo preto.

Um empréstimo, era o que me valia. Pensei nas minhas entrevistas com Marina, alta noite, no quintal. Certamente ela havia esquecido aquilo, mas eu me lembrava de tudo muito bem. As formigas rendilhavam as folhas. Um grilo saltava no canteiro. A iluminação da cidade chegava ali muito reduzida. Quase não tínhamos necessidade de roupa. “Vamos entrar, meu coração.” As luzes se tinham apagado e eu conseguira que Marina se despisse. Beijara-a da cabeça aos pés, sentira nos beiços os carocinhos que se formavam na pele macia. Ela curvava-se e cobria os peitos com as mãos. Olhava-a e apenas distinguia uma sombra que se torcia junto ao tronco da mangueira. Parecia-me que Marina estava vestida de preto.

Ali, perto da raiz, ao pé da cerca, no canteiro das alfaces, escondia-se a fortuna de Vitória. Aqueles pontos me eram familiares, seria capaz de encontrá-los com os olhos fechados.

Tempo sem fim à janela, olhando os automóveis que passavam para o teatro. Ainda passavam alguns. Bem. A representação ainda não tinha começado.

Vinte mil-réis. Cinco ou seis dias depois pagaria, com juro de cento por cento. Daria cento por cento ao velho Abraão. Uma semana de prazo. Pimentel não aparecia, Moisés não aparecia.

Com certeza a plateia estava quase cheia, seria difícil encontrar cadeiras perto da orquestra. “Letra D, letra F.” “Acabaram-se. Só há de S para trás.” Marina passeava o lorgnon pelos camarotes, indiferente, e os rapazes abotoavam para ela os olhos gulosos. D. Mercedes mordia os beiços com despeito. Julião Tavares, apertado no smoking, parecia menos gordo. Dentro de alguns anos estaria enforcado, mas agora estava bem vivo. E na camisa branca, sem uma dobra, as pedras dos botões faiscavam, a gola do smoking faiscava.

Entrei desanimado, fui debruçar-me à janela da sala de jantar. Vitória pôs a xícara, o açucareiro e a garrafa térmica sobre a mesa, foi deitar-se. Ouvi o rumor da chave na fechadura, depois o resmungar de orações e o chocalhar das contas do rosário. Em seguida houve silêncio. Os olhos de um gato passaram por cima do muro de d. Rosália. Currupaco mexeu-se na gaiola e bateu as asas.

Uma ação indigna. Perfeitamente, ação indigna, mas não ousei confessar a mim mesmo qual era a ação, qual era a indignidade. Horrível fixar aquilo no pensamento. Não queria pensar.

A casa devia estar cheia, o homem da bilheteria cochilava. Um olho, no palco, observava a plateia por um buraco do pano de boca. Marina bocejava por detrás do leque, Julião Tavares amolava-se.

Afinal Vitória encontrava sempre moedas minhas no chão quando varria a casa. Depois elas apareciam em cima da mesa de jantar, nas cadeiras, debaixo dos travesseiros, mas antes tinham estado ocultas naqueles lugares que eu conhecia bem. Muito provável que a velha se enganasse nas contas e deixasse algumas lá enterradas. Natural estarem ali vinte mil-réis meus. Indignei-me com a pobre e entrei a descompô-la mentalmente:

“Ladra! Estar um homem em dificuldade por causa de vinte mil-réis, uma porcaria, e saber que essa miserável esconde as economias dele, economias suadas, em buracos no chão.”

Decidi-me a ir pisar mais uma vez a terra que Marina havia pisado, encostar-me ao tronco da mangueira, onde ela estivera nua, enrolada na escuridão, torcendo-se e mordendo os braços para não gritar por causa dos beijos que eu lhe dava na barriga e nas coxas. Desci os degraus. Na porta do banheiro meti o pé numa poça.

Julião Tavares seria enforcado. Marina trabalharia no asilo das órfãs.

Perfeitamente, era ali que ela havia tirado a camisa uma noite. Agora estava embrulhada em roupa comprida, o lorgnon insultando as mulheres dos outros camarotes. O pano já se tinha levantado, Fígaro e Almaviva se escondiam perto da janela de Rosina, o dr. Bartolo fechava a porta. Marina olhava a cena com fastio.

Meses atrás estava ali no escuro, nua, o corpo todo coberto de carocinhos miúdos como pontas de alfinetes. Inteiriçava-me, rangia os dentes, pisava com raiva o chão que escondia o tesouro de Vitória. Debaixo das solas dos meus sapatos, a alguns centímetros de profundidade, estavam as moedas que eu precisava. Raspar um pouco a terra, mergulhar a mão, agarrar um punhado delas.

Os olhos do gato brilharam outra vez em cima do muro de d. Rosália e ficaram parados, redondos e fosforescentes. Pensei na datilógrafa que tinha desaparecido. Talvez estivesse doente. Ou morta. Franzina, com aquele peitinho estreito, batendo na máquina.

Mexia-me, e não podia desviar os olhos das duas tochas que me espiavam por cima do muro. Sentia os torrões se esfarelarem sob as solas dos sapatos, quase que ouvia o tilintar das moedas. Soaram pisadas perto. Encolhi-me e acocorei-me, receando que alguém trepasse o muro e viesse reforçar a espionagem do gato. Estava cheio de atrapalhação e vergonha. Uma ação indigna. Procurava afastar esta ideia pensando em Marina, imaginando-a vestida de preto. Um manto impalpável que eu atravessava com as mãos e com os beiços.

D. Basílio comparava a calúnia a um incêndio. Que fazia Marina, chateada, bocejando por detrás do leque? Só para se mostrar, só para mostrar a roupa e o lorgnon. Amolada, sonolenta. Julião Tavares também estava amolado e sonolento. D. Basílio descrevia o incêndio, acompanhando com as mãos o movimento das labaredas. A princípio eram chamas fracas, e d. Basílio, para segui-las, baixava-se, estava quase encostando as mãos no soalho.

As minhas mãos encontraram-se esgaravatando a raiz da mangueira.

“Que miséria! Que miséria!”

Repetia as palavras como um idiota, olhando as duas brasas imóveis em cima do muro. Mas os dedos continuavam a remexer os torrões. Cavando a terra com as unhas, como um gato!

“Que miséria! Que miséria!”

Umidade pegajosa corria-me pelos braços, molhava a camisa. Cinco dias, seis dias depois, receberia o dinheiro no tesouro. Receberia o dinheiro, trocaria uma cédula por pratas e deitaria ali as moedas, com acréscimo de cento por cento. Se Moisés tivesse aparecido… Moisés e Pimentel só apareciam quando não eram necessários. Restituiria as moedas com aumento. Considerei que Vitória não se assemelhava ao tio de Moisés. Vitória não tinha a paixão do lucro: apenas guardava enterrado o dinheiro ganho. E queria que, muito ou pouco, ele estivesse ali em segurança. A ideia de que ela ia surgir, resmungando, arrastando os pés reumáticos, paralisou-me os dedos. Surpreendi-me a dizer e a repetir em voz baixa:

“O dinheiro foi feito para circular.”

Com certeza Vitória estava dormindo, sonhando com os navios e com o Currupaco. Os olhos do gato cresciam, cresciam extraordinariamente, iluminavam o quintal todo.

“Sim ou não. Sim ou não. É estúpido, absolutamente estúpido. Afinal o dinheiro foi feito para circular.”

Lembrei-me do jogo das crianças. Cara ou cunho? Se desse cara, sim; se desse cunho, não. Mergulharia a mão na terra úmida, tiraria uma moeda, acenderia um fósforo. Se saísse cunho, iria deitar-me, não tornaria a ver Marina. Tantos tormentos por causa de uma fêmea! Dormir, dormir. Senti as pálpebras pesadas; julgo que, fascinado pelos olhos do gato, deixei a cabeça inclinar-se num cochilo. Se saísse cara, acabaria depressa com aquilo e iria ao teatro. Tinha quase a certeza de que, indo ao teatro, tudo se arranjaria: Marina voltaria para mim, Julião Tavares se achataria, se desagregaria, como um pouco de azeite em água corrente. Meter a mão na terra, agarrar um dobrão do império, riscar um fósforo. Afastei a ideia. Que lembrança! Bastavam as luzes medonhas dos olhos do gato. Acabar depressa, acabar depressa. Não era nenhum selvagem para adotar recursos infantis. Sim ou não. Um homem livre. Perfeitamente, um homem livre de superstições. Comecei a cavar a terra com desespero, ralando os dedos. Estava decidido. Pronto! Seis dias depois colocaria no buraco o duplo da quantia retirada.

“Nenhuma ação indigna. Nenhuma ação indigna.”

Continuei a aprofundar a cova com as unhas, como um gato. Restituiria o dinheiro com acréscimo de cento por cento. Um roubo. Roubaria de mim mesmo para aumentar o tesouro da ladra. Sobressaltei-me. Se as moedas não estivessem ali? Se a velha as tivesse transportado para outro lugar? Revolvi apressado a terra mole. Chegaria a tempo de alcançar o segundo ato? Agora não sentia vergonha: indignava-me por causa da hesitação que tinha consumido uma eternidade. Um homem livre, sem dúvida. O que me incomodava era o gato. Se não fosse o receio de fazer barulho, atiraria um punhado de torrões no animal. As tochas desapareceriam, eu me tranquilizaria.

Até que enfim! Lá estavam elas debaixo dos dedos: dobrões enormes da colônia, peças menores e mais fornidas, da monarquia, rodelas atuais, de dez tostões e de dois mil-réis. Apanhei vinte destas últimas. Vinte mil-réis, ou mais, que Vitória não ia enterrar níqueis. Fechei a cova, fui ao banheiro lavar as mãos e as moedas. Esfreguei-as, enxuguei-as com o lenço. E fugi, atravessei a casa, abri a porta da rua. Alcançaria o fim do segundo ato ou o princípio do terceiro. Lembrei-me de contar o dinheiro. Desdobrei o lenço, examinei as moedas ainda úmidas. Vinte e seis mil-réis em prata e duas libras esterlinas. Tomei o chapéu, desci a calçada. Como diabo teria Vitória conseguido agadanhar aquele ouro?

Pus-me a andar lentamente, a pressa havia desaparecido. Atônito, o lenço com as pratas na mão esquerda, as duas libras na direita, avizinhei-me da praça. Tinha repugnância de meter as moedas no bolso. Olhei os dedos com atenção, cheirei-os. Fedor de azinhavre, terra nas unhas. Porcaria. Esfreguei as mãos no lenço molhado.

Era necessário livrar-me do dinheiro. Pensei em voltar, afrontar de novo os olhos do gato. Um engraxate ambulante olhou-me os pés e bateu na caixa. Onde guardaria aquilo? Já perto do teatro parei, meio aliviado. Baixei-me e escondi num sapato as duas libras esterlinas. As pratas ficaram envolvidas no lenço.