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Quando a companhia lírica chegou, eu estava completamente arrasado. Dívidas, três meses de aluguel de casa e os bilhetes errados e grosseiros de dr. Gouveia. Aporrinhações. Por causa de uma porcaria, alguns meses de aluguel deste chiqueiro, coices. Pagar tudo, perfeitamente. Bastava reduzir um pouco as despesas e voltar ao jornal. Marina que fosse para o diabo.

Agarrava a papelada com entusiasmo de fogo de palha. Tempo perdido. Marina não ia para o diabo. E eu me metia por estas ruas, passava horas no café, lesando, bebendo. Seria fácil regularizar a minha vida, liquidar as contas, botar tudo de novo nos trilhos. Um pouco de boa vontade, método.

“Outro conhaque.”

Método, perfeitamente, tudo se arranjaria. Saía dali, ia olhar as vitrinas e os cartazes. Bacharel idiota, aperreando um bom inquilino. Porcaria.

“Quem andou por este mundo roendo chifre não se engancha em bobagens. Porcaria. Tenho comido toicinho com mais cabelo.”

Foi nesta disposição que li os cartazes da companhia lírica. Não dei importância a ela. Companhia vagabunda, com pessoal rouco, as cantoras canhões, provavelmente. Encolhi os ombros: não sei música e tenho péssimo ouvido. As paredes dos cafés cobriam-se de retratos de artistas. Vista no papel, havia uma soprano bem regular.

No dia da estreia notei rebuliço em casa de seu Ramalho. Pela manhã chegaram caixas e pacotes; mais tarde bateu palmas uma criatura de preto, certamente a modista; o menino da sapataria apareceu muitas vezes; depois seu Chico, o carteiro, que sabe cortar cabelos de senhoras. Marina largava os sapatos e corria pelo corredor, aos gritos com a mãe, que se mexia com dificuldade. À noite um carro buzinou à porta, e Marina saiu de casa, bem-vestida como as senhoras do Aterro quando vão às festas da Associação Comercial. Atravessou a calçada, sem se virar, e entrou na limusine, onde brilhava a camisa de Julião Tavares, sob o foco elétrico. Os pneumáticos rodaram silenciosos em direção à praça Deodoro, e na rua ficou um cheiro esquisito de gasolina, pó de arroz e perfumes.

Cinco dias seguidos a mesma cena se reproduziu: Marina atravessou a calçada com o andar seguro das senhoras do Aterro, o peitilho engomado brilhou, o ar se encheu de uma estranha mistura de gasolina e perfumes.

Não me continha: saía de casa e andava à toa por estas ruas, fatigando-me em caminhadas longas. O inverno tinha começado, quase sempre caía uma chuvinha renitente. Ia sentar-me num banco da praça dos Martírios, e os pingos que tombavam da folhagem das árvores molhavam-me a cabeça descoberta e escaldada. A sentinela cochilava no portão do palácio. Ao pé do morro, pedaços da igreja fechada apareciam entre os ramos. Um barulho horrível de motores e rodas. Automóveis a roncar. Todos queimavam gasolina misturada com perfume. Depois um rádio começava a trovejar óperas. O cheiro e o som tornavam-se insuportáveis. Esforçava-me por esquecer o nariz e o ouvido, abria os olhos. A sentinela cochilava encostada ao fuzil. Serviço pau. Um pobre homem dormindo em pé. Acordava, escancarava a boca, via com tédio as grades do jardim, o hall deserto, a escada ao fundo, vermelha. O tapete vermelho da escada me dava impressão desagradável. Podia ser de outra cor. As luzes do farol mudavam de minuto a minuto, branca, vermelha, branca, vermelha. Por que não aparecia uma terceira cor? Aquilo era irritante, mas o farol me atraía. Pelo menos variava mais que a sentinela, tinha mais vida que a sentinela.

Levantava-me, subia a ladeira Santa Cruz, percorria ruas cheias de lama, entrava numa bodega, tentava conversas com os vagabundos, bebia aguardente. Os vagabundos não tinham confiança em mim. Sentavam-se, como eu, em caixões de querosene, encostavam-se ao balcão úmido e sujo, bebiam cachaça. Mas estavam longe. As minhas palavras não tinham para eles significação. Eu queria dizer qualquer coisa, dar a entender que também era vagabundo, que tinha andado sem descanso, dormido nos bancos dos passeios, curtido fome. Não me tomariam a sério. Viam um sujeito de modos corretos, pálido, tossindo por causa da chuva que lhe havia molhado a roupa. A luz do candeeiro de petróleo oscilava no balcão gorduroso. Homens de camisa de meia exibiam músculos enormes, que me envergonhavam.

Encolhia-me timidamente. Não simpatizavam comigo. Eu estava ali como um repórter, colhendo impressões. Nenhuma simpatia.

A literatura nos afastou: o que sei deles foi visto nos livros. Comovo-me lendo os sofrimentos alheios, penso nas minhas misérias passadas, nas viagens pelas fazendas, no sono curto à beira das estradas ou nos bancos dos jardins. Mas a fome desapareceu, os tormentos são apenas recordações. Onde andariam os outros vagabundos daquele tempo? Naturalmente a fome antiga me enfraqueceu a memória. Lembro-me de vultos bisonhos que se arrastavam como bichos, remoendo pragas. Que fim teriam levado? Mortos nos hospitais, nas cadeias, debaixo dos bondes, nos rolos sangrentos das favelas. Alguns, raros, teriam conseguido, como eu, um emprego público, seriam parafusos insignificantes na máquina do Estado e estariam visitando outras favelas, desajeitados, ignorando tudo, olhando com assombro as pessoas e as coisas. Teriam as suas pequeninas almas de parafusos fazendo voltas num lugar só.

Ia sentar-me no canto mais escuro, longe do candeeiro de petróleo, longe dos homens de camisas sem mangas e das mulheres que arrastavam tamancos. Vagabundos? Nada. Estavam ali indivíduos de várias profissões. O moleque tisnado era engraxate. A mulher de chinelos, que trazia uma garrafa de querosene pendurada no dedo por um cordel, tinha modos de pessoa séria, casada ou amigada. A rapariga pintada de branco e vermelho, com marcas de feridas nos braços, devia ser uma ratuína como Antônia. O homem gordo era pedreiro, via-se pelas manchas de cal na roupa. Pedreiro com aquele corpo, que perigo! Um cochilo no andaime, pisada em falso na ponta da tábua, e no dia seguinte a família estaria de luto. O rapaz de cabelos compridos que tocava violão provavelmente não se ocupava. No carnaval devia ser uma das figuras mais importantes do cordão, e pela festa de Natal, na barca de terra e varas que ali estava armada em frente à bodega, seria um bicho na chegança, contramestre pelo menos, talvez almirante. Os meninos que brincavam na rua quando estiava, às carreiras e aos gritos, horas depois estariam no grupo escolar, os cotovelos na carteira, escutando, ou não escutando, a voz da professora. Vinte anos depois seriam balizas no clube carnavalesco, contramestres de chegança, donas de casas sossegadas que levariam, pendurada no fura-bolo, uma garrafa de querosene amarrada pelo gargalo, mendigos como aquele que ali estava com a perna estirada coberta de trapos. Felizmente as moscas dormiam, e o homem dos trapos não precisava mandar as almas caridosas para o reino do céu em voz alta, para a casa do diabo em voz baixa. Agora não havia esmolas, e o homem da perna entrapada conversava com os outros quase naturalmente. O dono da bodega era triste. Certamente pensava no aluguel, na figura odiosa de um dr. Gouveia, no imposto e nas faturas dos gêneros. Talvez dentro de seis meses a bodega estivesse fechada, e ele, com os cacarecos, a mulher, de garrafa pendurada no dedo, e os filhos, que agora dançavam na rua molhada, tivesse descido o morro pela banda do norte e vivesse à beira do Reginaldo, onde há febres, inundações e lixo. As crianças dançavam e cantavam na rua molhada. Dentro de vinte anos as que gostassem de torcer-se no mesmo canto seriam parafusos. Ignorariam o que existisse longe delas, mas conheceriam per­feitamente as coisas por onde passassem as suas roscas. Haveria, dentro de vinte anos criaturas assim encaracoladas que, tendo corrido mundo, se resignam a viver num fundo de quintal, olhando canteiros murchos, respirando podridões, desejando um pedaço de carne viciada? Tudo ali era tão simples! Os bordões do violão gemiam, as gargalhadas sonoras da mulher pintada enchiam a praça. A história que o homem acaboclado, de peito cabeludo e cicatrizes no rosto, contava ao engraxate devia ser interessante. Gestos expressivos, provavelmente façanhas de capoeiras. Eu não compreendia a linguagem do narrador, as particularidades que provocavam admiração perdiam-se. As gargalhadas da mulher transformavam-se naquela viagem curta aos meus ouvidos, chegavam-me frias, geladas. E a marcha do carnaval entristecia nos bordões do pinho. Todas aquelas pessoas entendiam-se perfeitamente. Diferiam muito umas das outras, mas havia qualquer coisa que as aproximava, com certeza os remendos, a roupa suja, a imprevidência, a alegria, qualquer coisa. Eu é que não podia entendê-las. “Sim senhor. Não senhor.” Entre elas não havia esse senhor que nos separava. Eu era um sujeito de fala arrevesada e modos de parafuso. Aquele tipo acaboclado, que dizia histórias de capoeira e se balançava num pé só, tinha bíceps enormes, provavelmente estrangularia um homem sem grande esforço. A rapariga pintada cheirava a pó de arroz. A pó de arroz e a gasolina. O rapaz de cabelos compridos largava os sambas carnavalescos e punha-se a arrancar do pinho coisas absurdas que pareciam trechos de óperas. Insuportável. Afinal que estava eu fazendo ali, sentado num caixão, diante de um copo vazio? Procurava fixar a atenção nas crianças que dançavam e corriam, como dançavam e corriam, na areia do Cavalo-Morto, os meus companheiros, alunos de mestre Antônio Justino. Lá estava novamente entrando no passado, torcendo-me como parafuso. “Rei meu senhor mandou dizer que fossem ao cemitério e trouxessem um osso de defunto.” Quem tinha coragem? Os mais atrevidos chegavam até o muro de seu Honório, no fim da rua. Adiante o lugar era mal-assombrado e ninguém se aventurava por lá. Eu queria gritar e espojar-me na areia como os outros. Mas meu pai estava na esquina, conversando com Teotoninho Sabiá, e não consentia que me aproximasse das crianças, certamente receando que me corrompesse. Sempre brinquei só. Por isso cresci assim besta e mofino.

Lembrava-me da minha chegada à vila. As ruas me causavam grande espanto: nunca havia imaginado que as ruas fossem tão compridas e tão largas. Saí de casa e comecei a passear na calçada, olhando a janela de um sobradinho onde se debruçava um homem fardado. Quis recolher-me e entrei pela primeira porta que encontrei. Na sala de jantar descobri uma mulher amamentando o filho, sentada numa esteira, com um gato de banda. Fiquei encabulado e perguntei: “De quem é esse gato?”. A mulher respondeu: “É meu”. Saí e continuei a passear na calçada, mas sem prestar atenção ao homem de farda que se debruçava à janela do sobradinho. Arrisquei-me a entrar por outra porta. Na sala de jantar a mulher amamentava o filho. E o gato de banda. Tornei a perguntar: “De quem é esse gato?”. A mulher respondeu: “É meu”. Mais tarde cabo José da Luz me encontrou perdido e levou-me para casa. Um menino grande e besta, muito diferente dos que brincavam junto à barca de terra e varas. Na escola de mestre Antônio Justino sentava-me afastado dos outros, naturalmente para não me corromper.

E ali estava encostado ao balcão, sem perceber o que diziam, meio bêbedo, suscetível e vaidoso, desconfiado como um bicho. Tudo aquilo me envergonhava: as conversas simples, a alegria, especialmente os músculos do homem que falava ao engraxate. Músculos e mãos enormes, que esganariam facilmente um inimigo. Levantava-me.

“Insuportável.”

A mulher cheirava a gasolina. O violão tocava óperas.

“Insuportável.”

Os bíceps e as mãos do homem acaboclado eram realmente enormes.