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À noite sentava-me à calçada e olhava a rua. Seu Ramalho fazia o mesmo. Palavra de cá, palavra de lá — como falávamos baixo, era necessário aproximarmos as cadeiras. Depois do namoro da filha com Julião Tavares, d. Adélia mostrava-me antipatia. A princípio era aquela subserviência, tremura, cumplicidade; mas agora nem me via: enrugava a testa e grunhia “Hum! Hum!” com um modo insuportável. Seu Ramalho, que meses atrás me olhava desconfiado, tornara-se um excelente amigo e dava-me conselhos:

“Não se case, seu Luís. Casamento é buraco. O mundo está perdido.”

“Isso é por causa do cinema, seu Ramalho. O senhor nunca vai lá. É feliz. Nem calcula as sem-vergonhezas que há na tela.”

Seu Ramalho baixava a cabeça, pensativo:

“Deve ser também por falta de religião.”

“É. Deve ser também por isso.”

Realmente a minha vizinha desconhecia as igrejas, e isto não me preocupava.

“O cinema é o diabo, seu Ramalho. O senhor não ima­gina. São uns beijos safados, língua com língua, nem lhe conto. Provavelmente as moças saem de lá esquentadas.”

“Devem sair, concordava seu Ramalho. Por isso há tanta gente de rédea no pescoço.”

“Que rédea! Hoje não há rédea. Um sujeito corre atrás de uma saia, pega a mulher, larga, pega outra, e é aquela garapa.”

“Safadeza.”

“É. Tudo é safadeza. Antigamente essa história de honra era coisa séria. Mulher falada não tinha valia.”

“Nenhuma”, exclamava seu Ramalho, cansado, tossindo. “E eram vinganças medonhas.”

“Vinganças horrorosas”, bradava eu excitado.

Nesse ponto da conversa contávamos sempre uma série de casos que ilustravam as nossas afirmações. Animado, o cachimbo apertado entre os dentes, seu Ramalho assobiava as mesmas anedotas, empregando o mesmo vocabulário. Às vezes eu o interrompia:

“O senhor já contou essa.”

Mas seu Ramalho continuava sem se perturbar: falava para dar prazer a si mesmo, não me escutava. Talvez quisesse enganar-se e convencer-se de que seria também capaz de praticar façanhas. As palavras saíam-lhe sem variações. Era amigo da verdade e tinha imaginação fraca. As minhas narrativas não se comparavam às dele: sendo muito numerosas, eu esquecia frequentemente certas passagens, ficavam brechas, soluções de continuidade. Além disso eram transmitidas em linguagem artificial, que o vizinho achava falsa e retocava.

O conto sensacional de seu Ramalho era o seguinte. Um moleque de bagaceira tinha arrancado os tampos da filha do senhor de engenho. Sabendo a patifaria, o senhor de engenho mandara amarrar o cabra e à boca da noite começara a furá-lo devagar, com ponta de faca. De madrugada o paciente ainda bulia, mas todo picado. Aí cortaram-lhe os testículos e meteram-lhos pela garganta, a punhal. Em seguida tiraram-lhe os beiços. E afinal abriram-lhe a veia do pescoço, porque vinha amanhecendo e era impossível continuar a tortura.

“Medonho! Seu Ramalho. Que coisa extraordinária!”

Pedia-lhe explicações:

“Por que foi que arrancaram os quibas antes dos beiços?”

“Quem sabe?”

No dia seguinte reproduziria o mesmo caso: o moleque morreria lentamente, sem beiços, a boca enchumaçada, por causa dos gritos. Eu desejava que seu Ramalho acrescentasse alguma coisa à história. Mas seu Ramalho só sabia aquilo e era incapaz de inventar. Por isso fazia pausas para recordar os fatos com segurança, batia na testa, interrogava-se a cada instante e acusava-se quando avançava uma informação inverídica:

“1910. Minto, 1911. 1911, Manuel?”

As duas datas produziam-lhe verdadeira aflição. Nunca pôde fixar-se em nenhuma. Detinha-se em cálculos, sempre se reportando a acontecimentos notáveis na sua pequena vida: o dia do casamento, a mudança para a capital, o sarampo da filha. D. Adélia, com flores de laranjeira, sem aquele corpo mole e pesado, era bem bonita; na viagem, em estrada de ferro, o trem da Great Western descarrilara; Marina ficara coberta de calombos e vergões encarnados.

Naquela noite seu Ramalho voltou a referir-se a esses três casos importantes. Nunca tinha viajado em estrada de ferro. Um descarrilamento para começar.

“Não é esquisito? Todos os dias rodam trens, que chegam no horário. Pois justamente quando eu embarco vem o desastre. Não parece que estava ali um diabo esperando por mim para botar as rodas fora dos trilhos?”

E descreveu a cena. Abandonados no campo, os passageiros metiam os olhos pelas vidraças, e só enxergavam uma luzinha distante. Fazia frio. Ele tirava o paletó e enrolava a menina, que esperneava no banco do carro de segunda classe. Alguns trabalhadores, de malotes, dormiam. Uma velha gemia de quando em quando: “Fechem essa janela”. Uma rapariga cheirosa encostava-se aos homens. Ele acalentava a menina, que se arreliava no banco imundo. E olhava desconfiado a rapariga, receando que ela se aproximasse de d. Adélia. Mulher da vida, cheirosa, roçando-se nos homens, ali no carro pequeno, cheio de gente e quase sem luz. Apenas um lampião fumacento, de vidros tisnados.

D. Adélia, corada, risonha, de carnes enxutas, era um mulherão. O casamento fora quatro anos antes da viagem. Bonita de verdade. Com o véu, a grinalda de flores de laranjeira, dançara uma noite sem descansar. Olhava os moços cara a cara, e eles baixavam a cabeça.

“An! Os marmanjos desanimavam.”

O sarampo de Marina tinha sido dez anos depois da viagem. Estivera, vai não vai, batendo a caçoleta.

“Antes tivesse batido, que era inocente e não dava desgosto a ninguém.”

A febre durara muitos dias. Mal respirava, magrinha como um palito, e por cima dos olhos vidrados as moscas passeavam. D. Adélia, bamba, arrastava os chinelos de trança que pareciam dois sapos. Estava mole, encolhida, machucada, e habituara-se a falar cochichando e a baixar a cabeça diante de toda gente.

Seu Ramalho deu um suspiro e empurrou a história do moleque da bagaceira, o que havia arrancado os tampos da filha do patrão.

“1 910 ou 1911?”

Nunca pude saber com precisão a data da morte do moleque. Isto não tinha importância: não guardo números, e a angustiada confusão de seu Ramalho irritava-me. Enquanto ele batia na testa, avançava e recuava, eu ia pouco a pouco distinguindo uma figura nua e preta estirada nas pedras da rua. O ventre era uma pasta escura de carne retalhada; os membros, torcidos na agonia, estavam cobertos de buracos que esguichavam sangue; a boca, sem beiços, mostrava dentes acavalados e vermelhos, numa careta medonha; os olhos esbugalhados tornavam-se vermelhos. O negro arquejava. Corria sangue entre as frestas dos paralelepípedos e empoçava na sarjeta. A poça crescia, em pouco tempo transformava-se num regato espumoso e vermelho.

“Ai, ai!” suspirou seu Ramalho. “Vou chegando ao serviço.”

Ergueu-se como se levantasse da cadeira um peso enorme. E, descontente, arfando, um ombro alto, outro baixo, o cachimbo entre os dentes, lá se foi para a usina elétrica. Segui-o com a vista até a esquina. Quando ele desceu da calçada, estremeci: pareceu-me que tinha sujado os sapatos no sangue.

A vitrola de d. Mercedes rodava marchas de carnaval; d. Adélia abriu os postigos: “Hum! hum!”; a cabeça de d. Rosália tinha os cabelos vermelhos. Antônia, pintada de vermelho, as pernas abertas, passou bamboleando-se. Das saias dela desprendeu-se um cheiro forte de sangue. Provavelmente estava menstruada e não se lavava. Os arames da Nordeste balançavam como cordas. Eu receava que os transeuntes tropeçassem no moleque estendido no calçamento. Rangia os dentes e dizia baixinho:

“Que estupidez! Que estupidez!”

Mas a figura continuava a escabujar no chão. Agora não era preta nem estava nua. Pouco a pouco ia embranquecendo e engordando, o sangue estancava, as feridas saravam.

Àquela hora Marina devia descansar, escanchada na rede, deitada de costas. Uma perna dava o impulso para o balanço, e os armadores rangiam: ran, ran. Provavelmente se estragava pensando num romance besta. O ar refrescava­-lhe as coxas suadas. E os armadores faziam: ran, ran.

“Que estupidez! Que estupidez!”

A figura deitada no calçamento estava branca e vestida de linho pardo, com manchas de suor nos sovacos. Felizmente o sangue tinha desaparecido, já não havia a umidade pegajosa na sarjeta, nos cabelos de d. Rosália, nas saias de Antônia. Em redor tudo calmo. Gente indo e vindo, crianças brincando, roncos de automóveis. O homem tinha os olhos esbugalhados e estrebuchava desesperadamente. Um pedaço de corda amarrado no pescoço entrava-lhe na carne branca, e duas mãos repuxavam as extremidades da corda, que parecia quebrada. Só havia as pontas, que as mãos seguravam: o meio tinha desaparecido, mergulhado na gordura balofa como toicinho.

A vitrola de d. Mercedes moía a paciência da gente; os armadores lá dentro rangiam; um guarda-civil afastado balançava o cassetete e olhava a rua com indiferença. Eu apertava os dedos, cravava as unhas nas palmas, tremia, retesando os músculos. O suor ensopava-me a camisa. E o homem arquejava no calçamento, os olhos abotoados, a cara roxa, os dentes à mostra, a língua fora da boca.