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Aos domingos iam ao cinema, juntos, de braço dado, bancando marido e mulher — ele com ar bicudo e saciado, ela bem-vestida como uma boneca e toda dengosa. Seda, veludo, peles caras, tanto ouro nas mãos e no pescoço que era uma vergonha. O pessoal da vizinhança povoava as janelas. D. Mercedes indignava-se, as filhas de Lobisomem mostravam as caras espantadas entre as rótulas, Antônia andava como lançadeira, ouvindo os comentários. As exclamações iam de um lado para outro. Só queriam saber se ainda estava inteira. As opiniões variavam. Discutiam as modificações do tipo: a grossura da barriga, o modo de andar. Eu, com os ouvidos abertos, simulando indiferença, escutava palavra aqui, palavra ali.

“Que é que temos, Antônia?”

Antônia, bamboleando-se, cosia pedaços daqueles fuxicos.

E os dois lá iam até o fim da rua, grudados, ela desconjuntando-se, enrolando-se, torcendo-se como uma cobra de cipó. Dobravam a esquina, a rua ficava deserta. Reapareciam. Com certeza tinham desistido do cinema. Quando se aproximavam, é que eu notava o engano: era outro casal. Julião Tavares e Marina transformavam-se por momentos nas pessoas que vinham da praça Deodoro, mas eu continuava a vê-los longe, em diferentes lugares.

As três filhas de Lobisomem apareciam juntas, num feixe, confusão de cabelos arrepiados e olhos espantados. Antônia, colorida de vermelho e branco, saía à procura de machos. O vento gemia nos arames da Nordeste, e os arames balançavam como cordas.

Julião Tavares e Marina tinham entrado no Livramento e lá iam juntinhos, esfregando-se. Cadeiras na calçada. Era necessário saltar no paralelepípedo. Um passo em fal­so, topada na sarjeta, e os dois corpos se chocavam. Diante da igreja, nos bancos da praça miúda, gente esquisita: homens sujos, mulheres sem companhia. E crianças abandonadas pelos cantos. Cochichos, palavrões, descontentamento, frases incendiárias. Na calçada estreita da igreja as crianças abandonadas apinhavam-se. Automóveis parados, choferes adormecidos, vagabundos, exposição de prostitutas à entrada da rua da Lama.

D. Rosália conversava com d. Adélia. Picuinhas, perfídias: “Não se queixe não, minha negra. A senhora até não é das mais caiporas. Tem quem lhe dê tudo”. D. Adélia sorria vexada, mexia os beiços e não encontrava resposta.

Mais algumas pernadas, e os dois estavam defronte do café. Julião Tavares passava como um pavão. E o pessoal se calava, arregalava os olhos para Marina, que não ligava importância a ninguém, ia fofa, com o vestido colado às nádegas, as unhas vermelhas, os beiços vermelhos, as sobrancelhas arrancadas a pinça. Entravam no cinema, Julião Tavares comprava um jornal. Na sala de espera toda gente se voltava, com uma pergunta nos olhos. Julião Tavares sentava-se, fingia ler os telegramas, vaidoso. “Quem é?” Informações em voz baixa, muita inveja. Sim senhor. Que bicho de sorte! Marina fazia água na boca dos homens.

Agora estava escuro. Debruçado à janela, eu fumava sem ver a rua. Via seu Ivo, Pimentel, a datilógrafa desaparecida. Onde estaria a datilógrafa? Bonitinha, com uns olhos de gato que acariciavam a gente. E amável, sem fumaças. Quando eu tirava o chapéu, respondia com um sorrisinho modesto. O meu desejo era sair de casa, ir procurá-la. Talvez estivesse num cinema de arrabalde, com o namorado. Coitadinha. Provavelmente nem pensava nisso. O dia inteiro batendo no teclado com os dedos entorpecidos, e duzentos mil-réis por mês. Talvez tivesse irmãos pequenos. Invadia­-me uma ternura, queria ligar-me àquela moça que vestia roupas ordinárias e andava à pressa, com uma pasta debaixo do braço. Seríamos felizes. Ela trabalharia menos. Ao chegar a casa, fatigada, distrair-se-ia papagueando com o Currupaco, meteria as mãos doídas no pelo do gato. Eu escreveria um livro de contos, que ela datilografaria nas horas vagas, interessando-se. Convidaríamos Pimentel e Moisés. Quando a corja estivesse na sala vizinha, bebendo, nós conversaríamos sobre literatura. Moisés atacaria os livros feitos com frases bem-arrumadas. A arte deveria estar ao alcance de todos, a serviço da política. “Que diz, seu Pimentel?” Pimentel responderia estirando o beiço. Escrevendo, é capaz de demonstrar qualquer coisa. Diante da folha de papel, em mangas de camisa, trabalha como um carroceiro, os dedos grossos pegando a caneta com força. Depois fecha o cérebro e desenruga a testa. “Que diz, seu Pimentel?” Não diria nada. Para que um homem discutir, se não é obrigado a isto? Do outro lado da parede, risos, tinir de copos. Nós continuaríamos a conversa tranquilamente.

Onde andaria a datilógrafa dos olhos agateados? O que é certo é que eu precisava mulher. Devia acabar aquela maluqueira e meter-me na farra. Se achasse uma criatura como Berta… O diabo da alemã voltava-me sempre à lembrança, provavelmente por ter sido a primeira mulher bonita e limpa a que me encostei. “Senhor não quer entrar?” Tipo admirável, ariano puro. “Madame, um sujeito como eu pode agarrar-se a uma pessoa da sua marca?” A ariana pura tinha respondido numa língua embrulhada.

Às vezes seu Ramalho puxava uma cadeira, sentava-se à porta. Eu olhava distraído os arames, que balançavam como cordas bambas. Esta comparação dos arames a cordas vinha-me ao espírito com insistência. Se pudesse trabalhar, escrever, livrar-me daqueles arames… Não podia: a literatura cambembe para os políticos da roça tinha parado. Além disso eu necessitava beber muito, sentia preguiça, passava horas no café, esbagaçando dinheiro. O ordenado voava, as dívidas cresciam.

Naquele momento, porém, não pensava em nada disso. Pensava na miséria antiga e tinha a impressão de que estava amarrado de cordas, sem poder mexer-me. No banco do jardim, com os sapatos gastos, as meias reduzidas a canos, esperava ansiosamente um auxílio qualquer. Estudava as caras, numa agonia. A fome triturava-me a barriga, uma fome de muitos dias, enganada com pedaços de pão e cálices de aguardente. “Cidadão, um nortista perseguido pela adversidade…” Não distinguia bem a cara do cidadão: a cabeça inclinava-se, a vista escurecia e pregava-se nos dedos dos pés, que saíam pelos buracos dos sapatos. Se pudesse, se não estivesse policiado e exausto, mataria o cidadão para roubar-lhe um níquel. Andava sujo, as calças com os fundilhos rotos e as bainhas esfiapadas, a gravata feita uma corda. Apanhava os jornais esquecidos nos bancos e procurava os anúncios miúdos para ver se descobria trabalho, mas as letras dançavam, fugiam. Imaginava fortunas absurdas: dinheiro achado na rua, um roubo que nunca tive coragem de praticar, o aparecimento de um fazendeiro rico e atilado que me diria: “Ninguém percebe o seu valor, rapaz. O que lhe falta é roupa. Roupa e trato. Vamos comer no restaurante. E toca para São Paulo, meter a cara na lavoura do café”. Qualquer serviço que me dessem seria bom. Oferecia-me para garçom de botequim, para revisor de jornal. Tinha uma inclinação maluca para os jornais. “Queria que o senhor experimentasse, que me deixasse trabalhar uns dias de graça.” Humilhações. Depois era a pensão de d. Aurora. A fome desaparecera, mas a falta de mulher atormentava-me. As que passavam na rua tinham cheiros violentos, e eu andava com as narinas muito abertas, farejando-as, como um bode. No colchão duro da minha cama de ferro os percevejos passeavam sobre os ossos amarelos que Dagoberto jogava lá.

Tarde. Os meninos de d. Rosália corriam no calçamento e faziam algazarra doida. As rótulas da casa de Lobisomem estavam cerradas. Encostado à janela, fumando, eu olhava a rua comprida e estreita. De quando em quando vultos distantes assustavam-me. E os arames balançavam como cordas.

O meu pensamento fugia dali, entrava no quarto escuro que ficava ao pé da escada. Dagoberto pegava uma vértebra, eu escancarava o compêndio. A caveira desdentada era horrível, toda queimada de cigarros, o frontal cheio de buracos que serviam de cinzeiros. De que teria morrido o dono daquela caveira? Mas Dagoberto e os ossos desapareciam. Lá vinham d. Aurora e a neta marchando para o cinema. As minhas mãos úmidas apertavam no bolso as notas, eu sorria encolhido e silencioso, fazendo cálculos. D. Aurora, mole, tomava no bonde o lugar de dois passageiros, sacolejava-se com o movimento do carro, os caracóis brancos agitavam-se. Parecia-me que, se ela não estivesse entrouxada, as banhas se despegariam do corpo. A neta emproava-se, a vaidade pingava do leque, do lorgnon, dos olhos. Na sala de projeção a gente não via a tela. Horas horrivelmente cacetes, em que pedaços de duas pessoas se encontravam. Só uns pedaços, os outros estavam longe. As pernas da moça eram frias. Onde andaria o pensamento dela? Eu pensava nos bancos do passeio, nos sapatos sem sola, no galego do frege, no chefe da revisão. Com os dedos esmorecidos no joelho da pequena, lembrava-me também da cesta de ossos de Dagoberto e dizia mentalmente expressões técnicas. D. Aurora dormia.

Com certeza àquela hora o Capitólio se esvaziava, uma exposição de roupas desfilava nos corredores que limitam a sala de espera. Os ventiladores parados, grande calor. Marina, bamba, apertava os olhos, encolhia-se no vestido machucado, bocejava; Julião Tavares abanava-se com o jornal.

Que diabo fazia eu ali, debruçado à janela? Entrava, ia para a sala de jantar, abria um livro, punha-me a ler marcando os períodos com o dedo. Quando terminava um período, baixava o dedo a um lugar onde era provável haver ponto-final. Parecia-me que este exercício me fixava a atenção na leitura: às vezes conseguia compreender uma página inteira. Mas o dedo fatigava-se, entorpecia, e os olhos desviavam-se das letras, pregavam-se na toalha, nas moscas adormecidas sobre as nódoas. Um relógio batia. Julião Tavares e Marina ausentes. Vitória falava alto na cozinha. Antônia embalava o filho mais novo de d. Rosália, e a criança manhosa berrava com desespero. Felizmente ainda era cedo para os ratos roerem a madeira do guarda-comidas. A vitrola de d. Mercedes começava a tocar, o galo de d. Adélia batia as asas. Alguma cantiga distante, de bêbedo. Que fim teria levado seu Ivo, coitado? Apito de trem, provavelmente dez horas. O relógio da sala de jantar quase sempre parado. Passos na calçada. Quem seria? Muito tarde. O rolar dos veículos esmorecia. O gato já andava miando nos telhados. Os papéis, livros com as folhas intactas, esquecidos nas cadeiras, causavam-me enjoo. Rumor de ferrolho na casa vizinha, pisadas no corredor. Com certeza tinham voltado. Engano. Era seu Ramalho que entrava, aperreado, ia arengar com a mulher por causa do procedimento da filha. Às vezes a discussão se arrastava durante horas, mastigada e rancorosa. E Marina ausente.

“Isso tem jeito?”

D. Adélia chorava, assoava-se, gemia desculpas sem pé nem cabeça.