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Pouco a pouco nos fomos distanciando, um mês depois éramos inimigos. A princípio houve brigas, reconciliações desajeitadas, conversas azedas com d. Adélia. Tempo perdido. Marina estava realmente com a cabeça virada para Julião Tavares. Comecei a passar trombudo pela calçada, remoendo a decepção, que procurei recalcar.

“Mulheres não faltam.”

Entrei a procurá-las, a observá-las. Por que só haveria de servir aquela safadinha? Uma datilógrafa que me aparecia em toda parte era bem engraçada. Bonitinha, com olhos verdes e rosto de santa. Eu ia dobrar uma esquina — dava de cara com ela; tomava o bonde — ela era minha companheira de viagem. Depois de tantos acasos, a gente se cumprimentava, embora sem saber que rumo cada um ia tomar. Às vezes eu estava distraído, pensando em coisas à toa. Quando menos esperava, surgiam os olhos de gato da datilógrafa. Outras vezes chegava-me de supetão a ideia de que ia vê-la. E acontecia acertar. Sumiu-se umas semanas. Se não se tivesse sumido, é possível que a minha vida fosse hoje diferente. E talvez não fosse. Duas criaturas juntam-se um minuto, mas entre elas há um obstáculo. Provavelmente a datilógrafa dos olhos verdes, enquanto sorria para mim no bonde ou na esquina, pensava numa espécie de Julião Tavares que iria visitá-la horas depois. Morava numa casa de quintal sujo, lia romances tolos, admirava uma quenga semelhante a d. Mercedes. O pai era um pobre homem carregado de achaques e consumido pelo trabalho, a mãe lavava roupa e queixava-se da carestia.

Vitória é que tinha razão:

“Cabritinha enxerida. Esfregando-se nos homens.”

O sem-vergonha metera-se na casa, ficava lá horas, íntimo da família, unha com carne. Empurrava a porta, entrava como se aquilo fosse dele. Seu Ramalho nem se voltava: debruçado à janela, aperreado, fumando cachimbo, mordia os beiços, encolhia os ombros. Vinha conversar comigo, desabafava:

“Não se case, seu Luís. É o conselho que lhe dou.”

Quando o intruso saía, começava a arenga:

“Isto tem cabimento? Entra quem quer.”

Marina defendia-se, malcriada:

“Entrou porque deixaram. Eu tenho culpa? Não mandei. Posso amarrar as pernas dos outros?”

“Falem baixo”, pedia d. Adélia. “Os vizinhos estão ouvindo.”

“Que vizinhos!” gritava seu Ramalho. “Faço um escândalo. Isto é pensão?”

Não fez o escândalo. E Julião Tavares continuou a frequentar a casa, levando presentes às mulheres. Às vezes jantava lá. Nesses dias um carregador trazia do armazém de Tavares & Cia. um caixão com embrulhos, latas e garrafas. Da minha sala de jantar, eu ouvia as conversas, as risadas, o barulho dos vidros e dos talheres. No fim a coisa descambava em discurso.

Seu Ramalho não tomava parte nessas orgias: embicava o chapéu, acendia o cachimbo e saía. D. Rosália balançava a cabeça com um sorrisinho safado:

“Feias coisas. Não dou um ano que isto cheire a al­fazema.”

Antônia ia comentar a história com o guarda-civil da esquina.

Punha-me a passear pelo corredor, olhando as biqueiras dos sapatos, os tijolos gastos, o rodapé vermelho da parede úmida. Por ali passava um cano. Algumas porcas das juntas estavam mal apertadas e por elas a água esguichava, formando poças no tijolo gasto. O cano estirava-se como uma corda grossa bem esticada, uma corda muito comprida. Eu andava para cima e para baixo, o ouvido atento aos mais insignificantes rumores da casa vizinha. Preocupava-me sobretudo o silêncio. Enquanto estavam batendo nos copos, tagarelando, nem por isso. Mas quando se calavam, vinham-me suposições que me davam tremuras. Provavelmente d. Adélia tinha ido à cozinha preparar o café. E os dois aproveitavam o tempo. Sem dúvida. Imaginava o que eles faziam. Era aquilo, sem dúvida.

“Que é que o senhor tem?” perguntava-me Vitória.

Sem dúvida. Imaginava perfeitamente. E não tirava os olhos da parede manchada, do rodapé vermelho, do cano.

“Um pedaço daquilo é arma terrível. Arma terrível, sim senhor, rebenta a cabeça de um homem. Já se tem visto.”

Mas aquele, comprido demais, pregado ao chão, não tinha jeito de arma: parecia uma corda estirada. Quando vinha o silêncio, detinha-me na sala de jantar, contígua à outra sala onde a súcia se regalava, punha a mão atrás da orelha, continha a respiração. Furava com os olhos a cal que se descascava e dava ao muro a aparência de uma cara sardenta, furava o reboco, furava os tijolos. No outro lado a mesa num desarranjo, restos de comida, pontas de cigarros, nódoas na toalha, garrafas abertas, os dois juntos, perna com perna. D. Adélia, encostada ao fogão, respirava fumaça, engelhava as pálpebras, gemia uma desculpa: “É a mocidade”. Estava invisível e escaldava os dedos torcendo o pano de café. Os dois, grudados, cochichavam, esfregavam-se. Alguns botões tinham saído dos lugares. Afinal tudo era suposição. Talvez d. Adélia estivesse ali, um pouco afastada, os olhos atentos, observando o que se passava por baixo da mesa. História! Escondia-se e justificava aquela sem-vergonha: “É a mocidade”. Indecência. Atracados, os olhos vermelhos, baba no canto da boca, uns bichos. Aproximava-me da parede. Ali a poucos passos, tontos pela bebida, beijando­-se. Conservavam-se em silêncio um instante, mas isto me parecia tempo excessivo, suficiente para todas as patifarias. Risos, a continuação de uma conversa interrompida. A voz precipitada de Marina era ininteligível; a de Julião Tavares percebia-se distintamente e causava-me arrepios: fazia-me pensar em gordura, em brancura, em moleza, em qualquer coisa semelhante a toicinho cru. Pescoço enorme, sem ossos, tudo banha. Quando o homem andava na rua, olhando para cima, risonho, aprumado, com passinhos curtos, a papada tremia. Aquilo era bambo, flácido, devia ter a consistência de filhó. De repente d. Adélia começava a falar. As mesmas queixas de sempre, lamentações tranquilas. Nunca ouvi ninguém se lamentar assim. Palavras arrastadas, monótonas, um pequeno assobio no fim de cada pausa. Aquele sossego me irritava quase tanto como os derramamentos de Julião Tavares. Afastava-me, sacudia a cabeça para não escutar a conversa, passeava pelo corredor, tossindo, batendo os pés, encaminhando o pensamento para coisas diversas, que se embaralhavam. Muitos crimes depois da revolução de 30. Valeria a pena escrever isto? Impossível, porque eu trabalhava em jornal do governo. Moisés se tinha ausentado: a polícia incomodava os rapazes que liam livros suspeitos e falavam baixo. Seu Ivo furtara-me uns pratos. A menina dos olhos agateados desaparecera. A mulher da rua da Lama, a que eu encontrara uma noite no Helvética, andava caipora, no hospital, com doença do mundo. A voz oleosa de Julião Tavares continuava a perseguir-me. Era como se eu estivesse diante de um aparelho de rádio, ouvindo língua estranha. Distanciava-me. As palavras gordas iam comigo. Umas chegavam completas, outras alteravam-se — ruídos confusos e vogais indistintas. Necessário dar cabo daquela voz. Se o homem se calasse, as minhas apoquentações diminuiriam. A criatura faminta da rua da Lama, seu Ivo, Moisés, a menina dos olhos agateados, tudo isto me passava pelo espírito sem se fixar. Um tropel, depois nada. O que ficava era aquela gordura que se derramava pelas paredes. Às vezes eu estava certo de que Julião Tavares se tinha calado, mas a voz não deixava de perseguir-me. Mexia-me, tossia. E olhava com insistência o cano que se estirava ao pé da parede, como uma corda.