D. Rosália era casada, mas eu não conhecia o marido dela, caixeiro-viajante que andava sempre no interior. Conhecia a voz. Quando ele chegava, depois de uma ausência de meses, a casa ficava em rebuliço. Um sujeito moreno e calvo rosnava um cumprimento e tocava o chapéu ao passar na minha calçada. Presumo que era o marido de d. Rosália, mas não tenho a certeza. Fala mansa e abafada, muito diferente da que eu ouvia da minha sala de jantar. Nunca vi o homem calvo e moreno entrar na casa à esquerda, mas como o aparecimento dele coincidia com a presença do marido de d. Rosália, suponho que os dois eram uma pessoa só.
Antônia chegava à minha janela e, piscando os olhos, segredava: “O homem está aí”. Mordia o beiço e saía bamboleando-se, com um risinho canalha, as pernas grossas muito abertas exibindo marcas de feridas. Para não descontentar a rapariga, eu sorria agradecendo a comunicação, aperreado em excesso, porque nesses dias não me era possível dormir sossegado. D. Rosália, honesta, vivia excitada, e o marido vinha feito um bode. Aquilo durava uma semana, mais de uma semana, até que o casal se acalmava e surgia nova viagem.
Nessa lua de mel, sempre renovada, as crianças marchavam cedo para a cama. Antônia aprontava o café, ia correr a zona. E o trabalho do amor começava, ruidoso, indiscreto. Antes da minha cabeçada com Marina, eu não aguentava aquilo. Escrevia, lia, dormia, acordava, levantava-me, tornava a deitar-me. Não me continha: vestia-me, ia para a rua, meia-noite, de madrugada. Por fim nem esperava tanto: quando Antônia servia o café, aos muxoxos, derrubando louça, e a porta da frente se fechava com um baque, eu agarrava o chapéu e saía. Agora não podia arredar-me dali. Parecia-me que, na minha ausência, Julião Tavares penetraria na casa e levaria o que me restava: livros, papéis, a garrafa de aguardente. Sentia-me preso como um cachorro acorrentado, como um urubu atraído pela carniça. Se pudesse dormir…
Durante o dia passava muitas vezes pela porta de Marina, desejando reconciliar-me com ela. Faltava-me coragem, a vergonha baixava-me o rosto, esquentava-me as orelhas.
Que me importava que Marina fosse de outro? As mulheres não são de ninguém, não têm dono. Sinha Germana fora de Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva, só dele, mas há que tempo! Trajano possuíra escravos, prendera cabras no tronco. E os cangaceiros, vendo-o, varriam o chão com a aba do chapéu de couro. Tudo agora diferente. Sinha Germana nunca havia trastejado: ali no duro, as costas calejando a esfregar-se no couro cru do leito de Trajano. “Sinha Germana!” E sinha Germana, doente ou com saúde, quisesse ou não quisesse, lá estava pronta, livre de desejos, tranquila, para o rápido amor dos brutos. Malícia nenhuma. Como a cidade me afastara de meus avós! O amor para mim sempre fora uma coisa dolorosa, complicada e incompleta.
Se Marina voltasse… Por que não? Se voltasse esquecida inteiramente de Julião Tavares, seríamos felizes. Absurdo pretender que uma pessoa passe a vida com os olhos fechados e vá abri-los exatamente na hora em que aparecemos diante dela.
Nu, deitado de costas na cama de ferro, esfregava-me no colchão estreito e coçava-me, mordido pelas pulgas. No quarto, escuro para a conta da Nordeste não crescer, a luz que havia era a do cigarro, que me fazia desviar os olhos de um lado para outro. Não podia deixar de olhá-la. Às vezes me entorpecia, e a luz ia diminuindo, cobria-se de cinza. De repente despertava sobressaltado: parecia-me que, se o cigarro se apagasse, alguma desgraça me sucederia. E entrava a fumar desesperadamente, e soprava a cinza. Impossível dormir. O quarto de d. Rosália ficava paredes-meias com o meu. Antônia tinha-me dito, em confidência: “O homem chegou”. Devia ser o sujeito calvo e moreno que tocava o chapéu e rosnava um cumprimento. Agora se distinguiam palavras claras: “Bichinha, gordinha…”. Não sei como aquelas criaturas se podiam amar assim em voz alta, sem ligar importância à curiosidade dos vizinhos. D. Rosália resfolegava e tinha uns espasmos longos terminados num ui! Medonho que devia ouvir-se na rua. Antes desse uivo prolongado o homem soltava palavrões obscenos. Parecia-me que o meu quarto se enchia de órgãos sexuais soltos, voando. A brasa do cigarro iluminava corpos atracados, gemendo: “Bichinha, gordinha…” “Ui!”. Na escuridão a parede estreita desaparecia. Estávamos os três na mesma peça, eu rebolando-me no colchão estreito, picado de pulgas, respirando o cheiro de pano sujo e esperma, eles agarrados, torcendo-se, espumando, mordendo-se. Aquilo iria prolongar-se por muitas horas. Depois o silêncio, o cansaço, a luz da madrugada, o sono, a parede, nos afastariam. Se nos encontrássemos, faríamos um ligeiro movimento de cabeça, resmungaríamos uma saudação apressada. D. Rosália, pendurando-se à janela, comentaria os modos suspeitos de Lobisomem e o procedimento de Marina; o homem calvo e moreno prosseguiria nas suas viagens pelo interior; eu redigiria informações: “Em conformidade com o artigo tal do regulamento…”.
Não havia regulamento, nem janela, nem mostruários. O que havia eram duas camas próximas. Uma delas rangia escandalosamente. “Bichinha, taludinha…” Esses diminutivos contrastavam com a voz do homem, grossa, arrastada. Além disso d. Rosália tinha bem quarenta anos e não era taluda: era magra, cheia de ângulos, o carão chupado com duas olheiras fundas que no dia seguinte estariam medonhas. Silêncio de alguns minutos. Iam deixar-me dormir. Nada. Acendia outro cigarro e continuava com a vista presa na brasa, que se aproximava e afastava, em movimentos bruscos, como uma coisa viva mordida pelas pulgas. Aquela espécie de fogo-corredor me fascinava. Se Marina voltasse… Por que não? A água lava tudo, as feridas cicatrizam. Não valia a pena pensar no outro. Julião Tavares era um caminho errado. Tantos caminhos errados na vida! Quem sabe lá escolher com segurança os atalhos menos perigosos? A gente vai, vem, faz curvas e zigue-zagues, e dá topadas de arrancar as unhas. A água lava tudo, as feridas mais graves cicatrizam. Lembrava-me de uma queda antiga que me tinha jogado à cama quinze dias. O cavalo se havia empinado, eu caíra nas pedras do Ipanema, rachara a cabeça, esfolara a coxa. Por que era que uma ferida devia ser vergonhosa e outra não? Depois desse tombo, andara uns tempos bambo, tossindo, e nunca me havia consolidado, nem com os exercícios da caserna.
“Ora aí estão ferimentos que me deviam envergonhar, porque me tornaram fraco. E não me envergonham.”
A brasa do cigarro chegava-me perto dos beiços, brilhava, faiscava, parecia mangar de mim na escuridão. Sinha Germana só tinha aberto os olhos diante do velho Trajano. Sem dúvida. Mas eu queria ver sinha Germana agora, no cinema, ou correndo as ruas, com uma pasta debaixo do braço, e mais tarde no escritório, batendo no teclado da máquina, ouvindo as cantigas dos marmanjos. Hábitos diferentes, necessidades novas.
Afinal por que seria que d. Rosália afirmava que Marina dera com os burros na água? Não havia certeza. E para que certeza?
“Que me importa o que se passa nas casas alheias?”
O que se passava na cama de d. Rosália era quase público, pelo menos estava no conhecimento dos vizinhos. Fazia minutos que os dois se conservavam em silêncio. Enjoados, provavelmente, separados, cada um com o seu lençol. Engano. O barulho recomeçava: cochichos que iam crescendo e se transformavam em gritos, beijos compridos, chupões gorgolejados.
Quando se debruçava à janela, fiscalizando a rua, d. Rosália usava linguagem decente para censurar as filhas de Lobisomem, engulhava, cheia de pudores.
Uma criança urinava na cama e chorava. Distinguia-se perfeitamente o som das gotas que batiam no chão.
“Cala a boca!” ordenava d. Rosália.
O choro findava, mas as gotas continuavam a cair, e a respiração do homem se arrastava, entrecortada, encatarroada, fungada, interrompida por um pigarro, uma respiração de quem se está estrangulando. Aquilo me irritava tanto que eu apertava as mãos nos ouvidos e mordia as cobertas para não gritar. O resfolegar de cachorro cansado atravessava-me as palmas das mãos, rasgava-me os ouvidos, e os pingos de urina, penetrando a palha podre do colchão, caíam-me dentro da cabeça como marteladas. A criança recomeçava a chorar.
“Cala a boca.”
Soluços engolidos da criança e a respiração arquejante do homem. Inútil apertar os ouvidos, que se pegavam às palmas como ventosas. Estirava-me, espreguiçava-me. De costas, as mãos sobre o peito, experimentava relaxar os músculos e não pensar. Através das pálpebras meio cerradas via apenas a brasa do cigarro, que se cobria de cinza. Tranquilo, tranquilo, nenhum pensamento. Sentia vontade de chorar, tinha um bolo na garganta.
“Tranquilo, tranquilo.”
Esta repetição me exasperava e endoidecia. O corpo em completo sossego, o cigarro apagado. Não sabia em que posição estavam as pernas. As mãos pesavam em cima do peito. Mas as pernas, onde estariam elas? Flutuava como um balão. O corpo quase adormecido e sem pernas. As ideias, porém, não me deixavam, ideias truncadas. Uma guerra na Europa. D. Mercedes comprara discos novos para a vitrola. Moisés se ocultava, com medo da polícia. Um espírito puro, um espírito boiando, livre da matéria. As botinas de Lobisomem estavam cada vez mais cambadas. Onde andaria seu Ivo? Um espírito boiando. Como seria? O espírito de Deus era levado sobre as águas.
As pulgas mordiam-me. Sem mudar de posição, esforçava-me por não fixar o pensamento em coisa nenhuma. Quando vinha uma ideia, afastava-a, agarrava-me a outra, que saía logo. Algumas voltavam com insistência. As botinas de Lobisomem estavam cambadas. O espírito de Deus boiava sobre as águas.
Suava frio, mas prolongava a tortura que produziam as picadas das pulgas e a imobilidade. Afinal as picadas das pulgas e a imobilidade me distrairiam daqueles beijos e daqueles uivos. Outra vez o choro da criança, novamente a voz de d. Rosália, arreliada:
“Cala a boca, diabo!”
O pranto continuava. Pisadas de pés descalços, palmadas, muxicões. A criança choramigava baixinho e aquietava-se. Novos passos abafados e um baque na cama, que rangia. O espírito de Deus boiava sobre as águas. Como estariam as minhas pernas? Cruzadas ou afastadas? Seria mais fácil saber como estavam as pernas de d. Rosália. O resfolegar prosseguia, resfolegar de porco fossando. Quantas horas aquilo duraria ainda? Seu Ivo, os discos da vitrola, Moisés, as botinas de Lobisomem, tudo inútil. Inúteis as picadas das pulgas. O homem calvo e moreno, com os olhos abotoados, fungava e arquejava, a baba escorrendo no beiço e umedecendo a pele seca de d. Rosália. Estava mesmo assim: os olhos arregalados, as ventas muito abertas; a boca pingando gosma, a cara barbuda arranhando e escovando o couro de d. Rosália. E aquela respiração estertorosa de bicho sufocado!
Sentava-me e acendia um cigarro. Perdido o sacrifício de permanecer imóvel, suportando as pulgas. Fechava as mãos com força. Estertor de bicho sufocado. O que eu desejava era apertar o pescoço do homem calvo e moreno, apertá-lo até que ele enrijasse e esfriasse. Lutaria e estrebucharia a princípio, depois seriam apenas convulsões, estremecimentos. Os meus dedos continuariam crispados, penetrando a carne que se imobilizaria, em silêncio. Este pensamento afugentava os outros. O espírito de Deus deixava de boiar sobre as águas. Uma criatura morrendo e esfriando, os meus dedos entrando na carne silenciosa. Não me lembrava de Julião Tavares. O que me aparecia na mente era o sujeito calvo e moreno que eu presumia ser o marido de d. Rosália e talvez nem fosse. Enfim desejava matar um homem que me roubava o sono.