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Por que foi que aquela criatura não procedeu com franqueza? Devia ter-me chamado e dito: “Luís, vamos acabar com isto. Pensei que gostava de você, enganei-me, estou embeiçada por outro. Fica zangado comigo?”. E eu teria respondido: “Não fico não, Marina. Você havia de casar contra vontade? Seria um desastre. Adeus. Seja feliz”. Era o que eu teria dito. Sentiria despeito, mas nenhuma desgraça teria acontecido. Lembrar-me-ia de Marina com vaidade, até com orgulho: “Sim senhor, gostei de uma mulher de caráter, mulher de cabelo na venta”. Não seria esta miséria, esta recordação de coisas mesquinhas.

De todo aquele romance as particularidades que melhor guardei na memória foram os montes de cisco, a água empapando a terra, o cheiro dos monturos, urubus nos galhos da mangueira farejando ratos em decomposição no lixo. Tão morno, tão chato! Nesse ambiente empestado Marina continuava a oferecer-se negaceando. Conservava-me preso, fazendo gatimanhos, esticando a saia estreita que lhe mostrava bem as coxas e as nádegas.

“Marina, esse procedimento é incorreto. Por que não me larga? Dê o fora, desocupe o beco.”

“Está roendo courana. Coitadinho dele.”

Não tornamos a falar em casamento. Creio que ela pro­cedeu assim por hábito. Ou talvez quisesse pagar os objetos que tinham esgotado a minha fortuna. Mas ia-se distanciando, e eu não podia agarrá-la. Às vezes ficava trombuda, aparentando gravidade. As distrações eram constantes, aquele modo de se descangotar, abrir a boca e olhar por cima da cabeça da gente. Isto me amarrava e atenazava. Presumo que a intenção dela era desembaraçar-se de mim lentamente, ou desembaraçar-se ela própria do costume que havia adquirido.

À tarde eram aqueles manejos, mas pela manhã, quando eu saía para a repartição, plantava os cotovelos na janela e enxeria-se com Julião Tavares. Uma vez por semana eu largava o serviço antes do meio-dia, só para pegá-los. Ao dobrar a rua Augusta, avistava Julião Tavares na prosa com ela, vermelho, soprando, derretendo-se, a roupa de brim com manchas de suor nos sovacos. Vendo-me, o canalha voltava as costas, porque estava intrigado comigo. Abri-me com d. Adélia, comentei aquele escândalo:

“A senhora aprova o comportamento de sua filha?”

D. Adélia torceu as mãos, engoliu em seco e respondeu numa atrapalhação:

“É a mocidade.”

Perdi os estribos:

“Que mocidade! É sem-vergonheza. Não lhe invejo a sorte, d. Adélia. Sua filha acaba mal.”

“Quem tem família está sujeito a tudo, seu Luís. Ninguém deve dizer ‘Deste pão não comerei nem desta água beberei’.”

“Não deve não, d. Adélia. É uma tristeza. A senhora lavando, engomando, cozinhando, e seu Ramalho na quentura da usina elétrica, matando-se para sustentar os luxos daquela tonta. Sua filha não tem coração.”

“Muito nova, dizia a mãe. Depois endireita. Quando casar, endireita.”

“E a senhora pensa que há no mundo um trouxa que se engane com ela? Não casa não, d. Adélia. Aquela dá com os burros na água.”

D. Adélia tinha lágrimas na voz e gaguejava frases truncadas:

“Então… Eu não sabia. Uma coisa apalavrada… Não há motivo, seu Luís, acredite que não há motivo. Por que foi?”

Eu sentia prazer em atormentar a pobre da velha:

“D. Adélia, olhe para a minha cara. A senhora me acha com jeito de corno?”

“Deus me livre, seu Luís”, exclamava a mulher recuando e arregalando os olhos. “Eu havia de achar semelhante barbaridade?”

“Então, se não me acha com jeito de corno, não me faça perguntas dessa natureza.”

O meu desejo era desligar-me daquela gente, passar calado, carrancudo, as mãos nos bolsos, o chapéu embicado. Esforçava-me por me dedicar às minhas ocupações cacetes: escrever elogios ao governo, ler romances e arranjar uma opinião sobre eles. Não há maçada pior. A princípio a gente lê por gosto. Mas quando aquilo se torna obrigação e é preciso o sujeito dizer se a coisa é boa ou não é e por quê, não há livro que não seja um estrupício.

O que eu devia fazer era mudar de casa. Esta é inconveniente, cheia de barulhos, parece mal-assombrada. Os ratos não me deixavam fixar a atenção no trabalho. Eu pegava o papel, e eles começavam a dar uns gritinhos que me aperreavam. Tinham aberto um buraco no guarda-comidas, viviam lá dentro, numa chiadeira infernal. Às vezes havia um cheiro de podridão. Vitória se enfrenesiava, andava para cima e para baixo, manejando um regador com água e creolina, molhando tudo. Mas o fedor resistia. Afinal íamos encontrar o armário dos livros transformado em cemitério de ratos. Os miseráveis escolhiam para sepultura as obras que mais me agradavam. Antes, porém, faziam um sarapatel feio na papelada. Mijavam-me a literatura toda, comiam-me os sonetos inéditos. Eu não podia escrever.

Os grilos não me incomodavam, escrevo perfeitamente ouvindo os grilos. Havia uma orquestra deles, mas eu nem os notava. Saltavam-me em cima do papel, eu dava-lhes piparotes, e eles desapareciam.

Os ratos é que me roíam a paciência. Corrote, corrote — era como se roessem qualquer coisa dentro de mim. Lembrava-me do tempo em que andava pelas ruas sentindo o cheiro das mulheres. Miudinhos, deviam ser catitas. Corriam pela sala de jantar, vinham mexer nos meus chinelos, sem medo, sem vergonha. Levantava-me, abria as portas do guarda-comidas, saltavam três, quatro, que se escapuliam para os buracos das paredes. Voltavam, assustados, ganhavam confiança, aproximavam-se, bonitinhos, os olhos vivos e as orelhas arrebitadas. O meio de obrigá-los ao silêncio durante uns minutos era espalhar na sala pedaços de miolo de pão, que eles devoravam depressa. Casa infame. E dr. Gouveia cobrava-me cento e vinte mil-réis de aluguel! De quando em quando o madeiramento bichado estalava.

“Qualquer dia esta cumeeira vem abaixo”, gemia Vitória. “Por que é que o senhor não se muda?”

As noites eram medonhas. Os galos marcavam o tempo, importunavam mais que os relógios. E os ratos não descansavam. Enquanto alguns roíam a madeira do guarda­-comidas, outros deviam estar lá dentro no armário, devastando os manuscritos, morrendo na literatura. Fogo nos livros imundos. Mas a casa enchia-se de pulgas. O gato amava nos telhados, gato ordinário. Uns miados estridentes, indiscretos: “Rasga, diabo!”. Marina, quando se excitava, enrolava-se como uma gata e miava. Miava baixinho, para não acordar a vizinhança.

Irritava-me um som de armadores de rede. Em noites de calor Marina dormia em rede, balançava-se.

Os armadores rangiam. O que eu precisava era ler um romance fantástico, um romance besta, em que os homens e as mulheres fossem criações absurdas, não andassem magoando-se, traindo-se. Histórias fáceis, sem almas complicadas. Infelizmente essas leituras já não me comovem.

Os armadores continuavam a ranger. Provavelmente estava deitada de costas, as pernas caídas, os pés no chão dando o impulso para o balanço. Talvez estivesse nua por causa do calor.

Seu Ramalho tossia. D. Adélia descansava na cama dura a armação fatigada.

Ou não descansava. Era possível que fizesse contas, aperreada — tanto para o aluguel da casa, tanto para o mercado, tanto para a luz, tanto para a roupa. Vitória também calculava, resmungando. Os números misturavam-se ao canto dos galos e ao chiar dos ratos. No princípio do mês iria revolver as pratas enterradas no canteiro das alfaces, na raiz da mangueira, ao pé da cerca. Não havia agora ninguém lá. Bichos miúdos apenas, grilos, formigas.

Em que estaria pensando Marina? Provavelmente no outro. Um sujeito gordo, vermelho, suado, bem-falante, de olhos abotoados. Seria possível que ela gostasse daquilo?

Seu Ramalho tossia. Assaltava-me o desejo de ver Julião Tavares sujo de azeite e carvão, recebendo na cara as faíscas da fornalha. Por que não? Derretendo as banhas. Inútil, preguiçoso, discursador. Canalha.