Pular para o conteúdo

Marina me explicou muito direitinho que eu não tinha razão. O que tinha era falta de confiança nela. Chorou, e fiquei meio lá, meio cá, propenso a acreditar que me havia enganado.

“Posso obrigar uma pessoa a não olhar para mim? Posso furar os olhos do povo?”

Não senhora. A coisa era diferente. Eles tinham sido pegados com a boca na botija, grelando, esquecidos do mundo. Tinham ou não tinham? Sim senhor, mas sem malícia.

“Posso furar os olhos do povo?”

Esta frase besta foi repetida muitas vezes, e, em falta de coisa melhor, aceitei-a. Sem dúvida. As mulheres hoje não vivem como antigamente, escondidas, evitando os homens. Tudo é descoberto, cara a cara. Uma pessoa topa outra. Se gostou, gostou; se não gostou, até logo. E eu de fato não tinha visto nada. As aparências mentem. A Terra não é redonda? Esta prova da inocência de Marina me pareceu considerável. Tantos indivíduos condenados injustamente neste mundo ruim! O retirante que fora encontrado violando a filha de quatro anos — estava aí um exemplo. As vizinhas tinham visto o homem afastando as pernas da menina, todo mundo pensava que ele era um monstro. Engano. Quem pode lá jurar que isto é assim ou assado? Procurei mesmo capacitar-me de que Julião Tavares não existia. Julião Tavares era uma sensação. Uma sensação desagradável, que eu pretendia afastar de minha casa quando me juntasse àquela sensação agradável que ali estava a choramigar.

“Pois bem, minha filha, não vale a pena falar mais nisso. Enxugue os olhos. Se você diz que não foi, não foi. Acabou-se, não se discute. Está aqui uma lembrancinha que eu lhe trouxe. Vamos ver se fica bonito.”

Marina desembaraçou-se das lamúrias, passou a uma alegria ruidosa. Muitos agradecimentos, uns beijos ainda com a cara molhada. Estranhei aquela mudança repentina.

“Nervoso. Quando casar, endireita.”

Marina examinava o relógio e o anel: levantava a mão, afastava-a, aproximava-a.

“Uma beleza. Você tomando incômodo!”

Incômodo! Eu estava com o bolso pegando fogo e devendo cinquenta mil-réis a Pimentel.

“Não se preocupe. O que precisamos é acertar essa história do casamento. Quando é isso?”

Respondeu vagamente. Andava bordando umas guarnições, preparando umas almofadas. E faltavam certas coisas. Impacientei-me:

“Se você só se decidir quando tiver tudo… Assim ninguém acaba. Vamos marcar o dia. Valeu? Dê uma nota dos troços que faltam.”

“Talvez fosse melhor eu fazer a compra.”

“É. Talvez fosse, gaguejei aflito. Eu vou ser franco. Estou na pindaíba, ouviu? É necessário a gente escolher mercadoria barata.”

Esperei que minha noiva se conformasse com a situação. Baixou a cabeça, e as partes do rosto que não estavam pintadas empalideceram:

“Bem.”

“Dá cá a nota.”

“Para quê? Assim com essa pobreza…”

“Deixa disso”, murmurei ressentido. “Donde vem tanto luxo? Riqueza não tenho, mas para vivermos com decência o que há chega. Dá cá a nota.”

Marina entregou-me lápis e papel, ditou coisas absurdas, com um risinho ruim, e eu percebi nela a intenção perversa de me humilhar. Quando falou em tapetes e tapeçarias, não me contive:

“Oh! Isso também é demais. Eu estou fazendo das fraquezas forças, compreenda. Diga os objetos indispensáveis. Meu avô não possuía tapetes e foi um homem feliz.”

“Naquele tempo era diferente”, respondeu Marina.

“Está bem.”

Não escrevi as tapeçarias, terminei a nota e despedi-me bastante aperreado. Tudo aquilo estava fora dos eixos. Mais tarde encontrei Moisés:

“Olhe cá. Seu tio me quererá vender estas porcarias a crédito?”

“Esse negócio de prestações é por preço horrível”, disse Moisés. “Era melhor você comprar a dinheiro.”

“Mas se não tenho! Estou na quebradeira, Moisés. Mande as fazendas.”

Assim, acabei de encalacrar-me. Marina recebeu os panos friamente, insensível ao sacrifício que eu fazia, aquela ingrata. Se eu não tivesse cataratas no entendimento, teria percebido logo que ela estava com a cabeça virada. Virada para um sujeito que podia pagar-lhe camisas de seda, meias de seda. Que valiam os tecidos grosseiros comprados ao velho Abraão, ou Salomão, o tio de Moisés? Nem olhou os pobres trapos, que ficaram em cima de uma cadeira, esquecidos.

Lembro-me perfeitamente da cena muda que houve naquela tarde. Sentada, a cabeça caída para o encosto da cadeira, as pernas cruzadas, os dedos cruzados num joelho, não me via, era como se estivesse só. A cara parada mostrava cansaço, enjoo. De longe em longe batia com o calcanhar no chão. A saia esticada exibia a coxa, mas a minha atenção se concentrava nos braços e nos dedos. Não trazia o relógio nem o anel que eu lhe tinha oferecido na véspera. Isto me desapontava, arrancava-me pragas e insultos, que eu engolia com medo de praticar uma violência. “Ordinária! Arrasa-se a gente para ser agradável a uma peste assim, e o resultado é este: coice. Ordinária. Safada.” Desejei falar novamente em Julião Tavares, mas temi não convencer-me de que me havia enganado. O rosto imóvel, como se eu não estivesse ali. As mãos finas cruzadas sobre o joelho. Ia escurecendo. Àquela hora seu Ramalho, coberto de azeite, abreviava os dias no calor da usina elétrica, limando bronzes. D. Adélia, na cozinha, enchia-se de fumaça, envenenava-se. Marina permanecia imóvel. Que é que eu estava fazendo, naquele constrangimento, olhando o pacote aberto, estripado, em cima de uma cadeira? As entrevistas no quintal eram coisas muito antigas. O relógio e o anel tinham sido oferecidos na véspera, mas eram antigos também. E parecia­-me que tinham sido dados a outra pessoa. Em que estaria pensando Marina? Agora eu não lhe via o rosto: as feições diluíam-se na escuridão. Sentia-me atordoado, com um nó na garganta. Se falasse, diria injúrias. Uma ingratidão assim! Não esperava aquilo. Fatos e indivíduos desencontrados, velhos e novos, fervilhavam-me na cabeça, misturavam-se. No copiar da fazenda José Baía explicava-me as virtudes da oração da cabra preta. Seu Evaristo balançava, pendurado num galho de carrapateira. Berta me havia segurado um braço e arrastado até a escada. E eu, agarrando-me ao corrimão: “Madame, a senhora não está vendo que não posso encostar-me a uma criatura da sua marca?”. Tavares & Cia., negociantes de secos e molhados na rua do Comércio, vestidos de brim de linho, viviam escondidos por detrás dos fardos e eram uns ratos. “Escrevi muito atacando a Primeira República, doutor. As minhas opiniões são conhecidas.” Pobre da mulher da rua da Lama. Rondando as mesas, com fome, às onze horas da noite.

“Bem. Parece que me vou embora, Marina. Boa noite.”

“Já vai?” perguntou Marina sem se mexer.

“Já.”

Saí, resmungando:

“Escolher marido por dinheiro. Que miséria! Não há pior espécie de prostituição.”