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Alguns dias depois Marina me chamou para mostrar os objetos que tinha comprado. Não era quase nada: calças de seda, camisas de seda e outras ninharias.

“Que é do resto?”

“Que resto?” perguntou espantada. “É só isto. Veja se as camisas estão bem-feitas, diga se as cores lhe agradam.”

“Muito boas”, murmurei.

“Mas você nem está olhando.”

“Para quê? Não entendo. O que vejo é que falta quase tudo.”

“Que se há de fazer? É a carestia. Em todo caso julgo que você aprova…”

Que remédio! Havia de brigar com ela, dizer-lhe que tivesse juízo, explicar que sou pobre, não posso comprar camisas de seda, pó de arroz caro, seis pares de meias de uma vez? Seis pares de meias, que desperdício! Se ela suasse no veio da máquina ou aguentasse as enxaquecas do chefe na repartição, não faria semelhante loucura. Mas não despropositei, como o coração me pedia.

“Está bem. Vamos comprar o resto. Faça economia, ouviu? Os cobres estão escassos.”

Sangrei mais quinhentos mil-réis. Depois sangrei duzentos, adquiri móveis em leilão e vesti-me de novo, porque as minhas camisas estavam esfiapadas e o paletó se cobria de nódoas. Marina aplaudia a transformação que se ia operando no meu exterior:

“Precisa é mandar consertar essa gola. O corpo está bom. Os pés não prestam, com esses sapatos indecentes. Dê por visto um pavão.”

Ofereci a seu Ivo os meus sapatos cambados e reformei os pés. O dinheiro sumia-se, essas alterações chupavam­-me as reservas acumuladas com paciência. Eu vivia preocupado, fazendo cálculos na rua. E ainda não havia comprado uma lembrança para Marina.

Liquidei a minha conta no banco, estudei cuidadosamente uma vitrina de joias, escolhi um relógio-pulseira e um anel. Saí da joalharia com vinte mil-réis na carteira, algumas pratas e níqueis. Mais nada. Apenas confiança no futuro, apesar dos encontrões que tenho suportado. Os matutos acreditavam na minha literatura. Vinte mil-réis para café e cigarros.

Ia cheio de satisfação maluca. Não tirava a mão do bolso, apalpava as caixinhas, sentia através do papel de seda a macieza do veludo. Na alvura do braço roliço a fita do relógio faria uma cinta negra; a pedrinha branca faiscaria no dedo miúdo.

“Moisés me emprestará cinquenta mil-réis até o mês vindouro.”

Ao chegar à rua do Macena recebi um choque tremendo. Foi a decepção maior que já experimentei. À janela da minha casa, caído para fora, vermelho, papudo, Julião Tavares pregava os olhos em Marina, que, da casa vizinha, se derretia para ele, tão embebida que não percebeu a minha chegada. Empurrei a porta brutalmente, o coração estalando de raiva, e fiquei em pé diante de Julião Tavares, sentindo um desejo enorme de apertar-lhe as goelas. O homem perturbou-se, sorriu amarelo, esgueirou-se para o sofá, onde se abateu.

“Tem negócio comigo?”

A cólera engasgava-me. Julião Tavares começou a falar e pouco a pouco serenou, mas não compreendi o que ele disse. Canalha. Meses atrás se entalara num processo de defloramento, de que se tinha livrado graças ao dinheiro do pai. Com o olho guloso em cima das mulheres bonitas, estava mesmo precisando uma surra. E um cachorro daquele fazia versos, era poeta.

Aprumava-se, as palavras corriam-lhe facilmente, mas continuei a ignorar o que significavam.

“Tem negócio comigo?” repeti sem pensar que o tipo já havia provavelmente dado resposta.

A loquacidade de Julião Tavares aborrecia-me. Uma voz líquida e oleosa que escorria sem parar. A minha cólera esfriava, o suor colava-me a camisa ao corpo.

A roupa do intruso era bem-feita, os sapatos brilhavam. Baixei a cabeça. Os meus sapatos novos estavam mal engraxados, cobertos de poeira. Pés de pavão.

Julião Tavares falou sobre a política do país. A enxurrada cobria-se de nódoas de gordura, que se alastravam. Ia lá discutir com aquele bandido? O meu desejo era insultá-lo.

“Nunca estou em casa a esta hora. Estou no serviço, percebe? Sou um homem ocupado.”

“Perfeitamente”, respondeu Julião Tavares. “Uma vida cheia, uma vida nobre, dedicada ao trabalho.”

Só a pontapés.

“Muito bonito, seu doutor.”

Ultimamente, embora repugnado, eu o tratava por você.

“Uma coisa é jogar frases em cima do trabalho alheio, outra é pegar no pesado.”

Julião Tavares fechou a cara:

“Todos nós temos as nossas obrigações, homem. Cada qual sabe onde o sapato lhe aperta.”

Olhei os pés dele, e o meu ódio aumentou:

“Os seus não devem apertar muito.”

“Acha?”

Baixei a cabeça, mordi os beiços para não gritar os desaforos que me subiam à garganta e que eu engolia, pus-me a marchar na sala estreita, batendo os calcanhares com força. De uma parede a outra quatro passos. A porta, que tinha ficado aberta, mostrava-me os paralelepípedos, as sarjetas, as pernas dos transeuntes, só as pernas, porque, como já disse, eu tinha a cabeça baixa. A minha curiosidade se concentrava nos sapatos dos transeuntes. Passaram os tamancos de um carregador, os chinelos de Antônia, umas botinas velhas que julguei serem de Lobisomem. As crianças de d. Rosália corriam e gritavam, mas estavam descalças.

Lembrei-me da fazenda de meu avô. As cobras se arrastavam no pátio. Eu juntava punhados de seixos miúdos que atirava nelas até matá-las. Às vezes a brincadeira se prolongava, mas afinal as cobras morriam, e perto dos cadáveres ficavam montes de pedras. Certo dia uma cascavel se tinha enrolado no pescoço do velho Trajano, que dormia no banco do copiar. Eu olhava de longe aquele enfeite esquisito. A cascavel chocalhava, Trajano dançava no chão de terra batida e gritava: “Tira, tira, tira”. As alpercatas de Amaro vaqueiro iam do curral dos bois ao chiqueiro das cabras. Em dias de pega Camilo Pereira da Silva desenroscava-se, vestia o gibão, calçava as perneiras. O barbicacho do chapéu de couro terminava debaixo do queixo numa borla que lhe fazia uma barbinha ridícula. Assim paramentado, Camilo Pereira da Silva andava emproado como um galo, e as rosetas das esporas de ferro tilintavam.

Levantei a cabeça. Julião Tavares sorria e continuava a derramar a voz azeitada. Perto, pancadas de ferro tinindo. Eram as picaretas dos calceteiros que deslocavam as pedras da rua, consertavam o calçamento. No fim de uma daquelas viagens de quatro passos eu via, a alguns metros de distância, um montão de paralelepípedos que a poeira cobria. E, nessa nuvem de poeira, figuras curvadas, movendo-se. Desejei atirar todos aqueles paralelepípedos em cima de Julião Tavares.

Tornei a baixar a cabeça, desanimado, continuei a olhar os pés dos raros transeuntes que passavam na rua. Ia e vinha. Um, dois, um, dois — meia-volta. Este exercício era irritante. A porta escancarada convidava-me a abandonar tudo, a sair sem destino — um, dois, um, dois — e não parar tão cedo. Nenhum sargento me mandaria fazer meia-volta. Os meus passos me levariam para oeste, e à medida que me embrenhasse no interior, perderia as peias que me impuseram, como a um cavalo que aprende a trotar. Tornar-me-ia de novo meio cigano, meio selvagem, andaria numa corrida vagabunda pelas fazendas sertanejas, ouviria as cantigas dos cantadores e as conversas das velhas nas fontes, veria à beira dos caminhos estreitos pequenas cruzes de madeira, as mesmas que vi há muitos anos, enfeitadas de flores secas e fitas desbotadas. Indicaria uma delas, estirando o beiço. Quem teria morrido ali? E alguém me informaria, repetindo as histórias dos cantadores e as conversas das velhas nas fontes: “Um sujeito que namorou a noiva de outro”.

Estremeci. Os meus dedos contraíram-se, moveram-se para Julião Tavares. Com um salto eu poderia agarrá-lo.

Pensei em seu Evaristo e na cobra enrolada no pescoço do velho Trajano. Parei no meio da sala, aterrado com a imagem medonha que me apareceu. O pescoço do homem estirava-se, os ossos afastavam-se, os beiços entreabriam-se, roxos, intumescidos, mostrando a língua escura e os dentinhos de rato.

“Está doente?” perguntou-me Julião Tavares.

Suponho que a minha resposta foi despropositada.

O rapaz levantou-se, aproximou-se, e eu me desviei dele com um palavrão. Não me lembro do que disse, mas sei perfeitamente que terminei com um palavrão obsceno. Julião Tavares aprumou-se.

“Puta que o pariu”, resmunguei.

Parece que ele ouviu. Mas fingiu que não tinha ouvido. Agarrou o chapéu e saiu.

“Bonito!”

E pus-me a esfregar as mãos:

“Por causa de uma guenza de maus costumes estar um homem a aperrear-se. Enrolem-se, durmam, danem-se, vão para a casa do diabo.”

Fui à cozinha e conversei um minuto com o Currupaco.

“O jantar está na mesa”, disse Vitória.

Entrei na sala de jantar, bebi um pouco de aguardente, fiquei um instante olhando, por cima do muro, a mulher que lava garrafas e o homem que enche dornas.

A sombra da mangueira ia cobrindo o quintal.

“As moscas estão comendo o jantar”, gritou Vitória.

Cheguei-me à mesa, bebi mais um trago de aguardente e tomei o caminho da rua. Marina estava à janela:

“Que é isso? Vai com tanta pressa! Fale com os pobres.”

Pareceu-me contrafeita. Sem-vergonha.

“Não matei seu boi não, moço. Me largue.”

Passeei à toa pelas ruas, parando em frente às vitrinas, com a tentação de destruir os objetos expostos. As mulheres que ali estavam em pasmaceira, admirando aquelas porcarias, mereciam chicote. Fui ao jornal, li os telegramas. Eram notícias sem importância, mas julguei perceber nelas graves sintomas de decomposição social. Estive olhando sem ler os cartazes do cinema, entrei maquinalmente. O porteiro sabe que trabalho na imprensa e não pediu bilhete de ingresso. Na sala de projeção fiquei de pé, ao fundo, por baixo da cabina, sem ver a tela. Nunca presto atenção às coisas, não sei para que diabo quero olhos. Trancado num quarto, sapecando as pestanas em cima de um livro, como sou vaidoso e como sou besta! Caminhei tanto, e o que fiz foi mastigar papel impresso. Idiota. Podia estar ali a distrair-me com a fita. Depois, finda a projeção, instruir-me vendo as caras. Sou uma besta. Quando a realidade me entra pelos olhos, o meu pequeno mundo desaba. À saída encontrei Moisés encostado a um poste da iluminação, lendo um jornal.

“Acabe com essa literatura, Moisés”, exclamei impaciente. “Não serve.”

Moisés dobrou a folha, sorrindo:

“Que história é essa?”

“É o que lhe digo. Não serve. A linguagem escrita é uma safadeza que vocês inventaram para enganar a humanidade, em negócios ou com mentiras.”

“Que diabo tem você?” perguntou Moisés.

“Não é nada não. É que não vale a pena, acredite que não vale a pena. Uma pessoa passa a vida remoendo essas bobagens. Tempo perdido. Uma criança mete a gente num chinelo, Moisés; qualquer imbecil mete a gente num chinelo, Moisés.”

Às onze horas achava-me encostado a uma banca do Helvética, bebendo aguardente e não distinguindo bem as pessoas que se serviam nas outras mesas, funcionários, políticos, negociantes, choferes, prostitutas. Uma criaturinha magra empurrou uma das portinholas que dão para a igreja do Livramento, avançou de manso. Ninguém lhe prestou atenção.

“Pst. Senta aí.”

Chegou-se acanhada e esperou a repetição do convite.

“Senta aí.”

Sentou-se. O peito era uma tábua, os braços finos, as pernas uns cambitos que nem sei como aguentavam o corpo. A carinha não era feia, talvez tivesse sido bonita.

“Beba alguma coisa.”

“Não, muito obrigada.”

E espalhou a vista pelas mesas.

“Procurando alguém?”

“Era. Parece que ele hoje não vem. Já é tão tarde!”

“Onde mora?”

“Aqui na rua da Lama. É perto.”

E mostrou a chave que trazia na mão.

“Beba alguma coisa”, insisti.

“Não senhor, eu não bebo.”

Tossia e olhava a porta da cozinha.

“Um petisco.”

Pimentel entrou na sala e perguntou-me ao ouvido:

“Onde diabo arranjou esse canhão?”

Coitadinha. Não era feia, o que estava era estragada.

“Aceite.”

A criatura hesitava, afogueada. Afinal se resolveu:

“Muito obrigada. Eu aceito. O senhor vai comigo, não? É aqui pertinho.”

Comeu de cabeça baixa, em silêncio, e repetiu o prato. Só falou ao terminar o café:

“Vamos?”

Meti a mão no bolso e lembrei-me de que me restava uma cédula de vinte mil-réis. Recebi o troco e levantei-me.

“Vai comigo?” tornou a perguntar a mulher.

Bebi o resto da aguardente:

“Vamos lá.”

No quartinho sujo a rapariga despiu-se e veio abraçar­-me desajeitada. O cabelo tinha um óleo de cheiro enjoativo.

“Esteja quieta.”

E afastei-me, sentei-me na cama, sem tirar o chapéu. Ela acomodou-se, as pernas cruzadas, os braços cruzados escondendo os peitos bambos. Curvada, mostrava apenas um pedaço da barriga engelhada e escura.

“Anda na vida há muito tempo?”

“Nem por isso. Quatro anos.”

“An.”

Quatro anos. E ali estava aquela carcaça comida pe­lo treponema. Panos caídos no chão, o irrigador com per­manganato. Na mesinha da cabeceira essências ordinárias disfarçavam um cheiro forte de esperma. Tive necessidade de fumar. Encontrei cigarros, mas procurei fósforos em todos os bolsos, e o que achei foi o pacote com as caixinhas de veludo — o relógio-pulseira e o anel.

“Faz o obséquio de me arranjar uma caixa de fósforos?”

A mulher levantou-se. Escanzelada, coxas finas com marcas de varizes, nádegas murchas. Chi! que peleiro!

“Muito obrigado.”

Acendi o cigarro. A mulher sentou-se junto de mim e começou o seu trabalho de abraços, beijos etc.

“Esteja quieta.”

Meti a mão no bolso, senti através do papel de seda a macieza do veludo. A fita do relógio faria uma cinta negra no braço roliço, um braço macio como veludo. Os beijos começavam no pulso, onde a fita se enrolaria. O tique-taque seria do relógio ou do sangue correndo na artéria? Na escuridão do quintal os meus beiços avançavam na pele, que se cobria de borbulhas pequenas como pontas de alfinetes.

“Sempre foi assim magra?”

“Ah! não!” respondeu a mulher ocultando as pelancas dos peitos com os cotovelos ossudos. “Era cheia, gordinha.”

Acariciei com as pontas dos dedos o papel de seda. A mulher bocejava, caceteada. Que horas seriam? Talvez uma hora. A folhagem da mangueira estendia um pretume no quintal. Os mais insignificantes rumores cresciam: o salto dos grilos nos canteiros, a queda das folhas, o trabalho das formigas. A luz vermelha do farol espalhava-se pelo telhado. Um minuto depois não era vermelha, era branca. Usávamos precauções excessivas, receávamos que os nossos suspiros fossem ouvidos nas casas fechadas.

“Parece que isso rende pouco, hem?” perguntei abarcando com a vista a mesinha, o espelho rachado, o irrigador, as camisas sujas, toda a miséria do quarto.

A mulher teve um gesto de esmorecimento:

“E então! Não está vendo?”

“É. Não se dá. Por que não arranja outra vida?”

Levantou os ombros, quase agastada:

“Ora outra vida! Que vida? Sempre os mesmos conselhos. Daqui só para a cova.”

Realmente, coitada, dali era para a cova, com escala pelo hospital. Infelicidade. Eu é que me podia considerar um sujeito feliz. Repetia isto maquinalmente, enquanto apalpava as caixinhas de veludo. Soltei-as com raiva, ergui­-me, esfreguei as mãos. O sentido das palavras que me dançavam no espírito tornou-se claro. Perfeitamente, um sujeito feliz. Que é que me faltava? Livre. Se me viesse aquela desgraça depois do casamento? A sem­-vergonha, admiradora de d. Mercedes, tinha feitio para cornear marido mais vigilante que eu. “D. Mercedes é linda, parece uma artista de cinema.” Sem-vergonha. Recuperava a minha liberdade. Muito bem. Fazia tempo que não frequentava as mulheres. Pois estava em casa de uma. O pior é que só me restavam catorze mil-réis e uns níqueis. O dinheiro tinha voado, tinha-se esbagaçado, virara camisas de seda, pó de arroz. Dos males o menor.

“Vão-se os anéis, fiquem os dedos.”

Magnífica solução. Liberdade, liberdade completa.

Pus-me a cantar estupidamente, batendo com os dedos na tábua da mesinha:

Liberdade, liberdade,
Abre as asas sobre nós…

“Está indisposto?” perguntou a mulher. “É bom deitar-se, descansar. Vamos dormir.”

Dormir, que lembrança!

“Não, adeus. Está aqui. Não lhe dou mais porque não tenho, ouviu? Desculpe.”

A criatura recusou os dez mil-réis que lhe apresentei:

“Pode guardar. Nós não fizemos nada. Além disso pagou a ceia. Eu estava com fome.”

“Não senhora. Receba. É o que tenho.”

“Muito obrigada. Já não lhe disse que não aceito? Eu estava com fome.”

Encolerizei-me de verdade e despropositei:

“Não me faça cometer um desatino. A senhora é relógio para trabalhar de graça? A senhora tem obrigação de andar nua diante de mim? Duas horas de chateação, de conversa mole! A senhora é relógio? A senhora não é relógio.”

A mulher recebeu o dinheiro, espantada. Julgou-me doido, suponho. Realmente as últimas palavras me haviam tornado furioso.