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No outro dia retirei quinhentos mil-réis do banco e fui à casa vizinha:

“Ó d. Adélia, faça o favor de chamar a Marina.”

E, enquanto esperava:

“Ela contou à senhora, não contou? Pois é. Parece que o mês vindouro a gente se engancha. Tenha a bondade de explicar isto a seu Ramalho. Ele já sabe, não?”

D. Adélia embrenhou-se em circunlóquios para dizer que o marido sabia e não sabia. Sabia que eu gostava da menina. Isto se via perfeitamente. Agora ir para a igreja assim tão depressa era surpresa.

Marina se vestia num quarto próximo, topando nos móveis, derrubando as coisas.

“É isto, d. Adélia. Quem tem de se empenhar que se venda logo. A senhora não acha? Explique a seu Ramalho. Esse negócio de pedido de casamento é muito pau, não tenho jeito. Apareça, Marina.”

“Um minuto”, respondeu a minha amiga mostrando um pedaço da cara pela porta entreaberta. “Estou acabando de me calçar.”

“Está nada! Está pintando os beiços. Essa sua filha é uma pintura, d. Adélia.”

Sem saber se aquilo era elogio ou censura, d. Adélia sorriu vexada e justificou Marina:

“É a mocidade.”

Meti a mão no bolso para tirar os quinhentos mil-réis, acanhei-me. Tirei um cigarro, que machuquei olhando as figuras das paredes:

“A senhora tem um Coração de Jesus muito bonito.”

Marina apareceu, enroscando-se como uma cobra de cipó e tão bem-vestida como se fosse para uma festa. Ao pegar-me a mão, ficou agarrada, os dedos contraídos, o braço estirado, mostrando-se, na faixa de luz que entrava pela janela. Isto me dava a impressão de que o meu braço havia crescido enormemente. Na extremidade dele um formigueiro em rebuliço tinha tomado subitamente a conformação de um corpo de mulher. As formigas iam e vinham, entravam-me pelos dedos, pela palma e pelas costas da mão, corriam-me por baixo da pele, e eram ferroadas medonhas, eu estava cheio de calombos envenenados. Não distinguia os movimentos desses bichinhos insignificantes que formavam o peito, a cara, as coxas e as nádegas de Marina, mas sentia as picadas — e tinha provavelmente os olhos acesos e esbugalhados. Com uma sacudidela, desembaracei-me da garra que me prendia e tornei-me um sujeito razoável:

“Estávamos combinando, Marina. Quanto mais depressa melhor, foi o que eu disse a d. Adélia. Gente pobre não tem luxo.”

“É preciso fazer as coisas com decência”, opinou Marina.

“Claro. Mas com modéstia. Não é, d. Adélia? Dispensa-se o véu. Para que véu? Eu por mim casava hoje.”

Marina escandalizou-se, trombuda. E d. Adélia, mexendo-se aflita na cadeira, que rangia sob as banhas excessivas, baixava os olhos, escondia as mãos papudas debaixo do avental, dava razão a mim, dava razão à filha, num desconchavo:

“É mesmo, seu Luís, gente pobre não tem luxo. Com decência, e então? Antigamente um noivado era serviço. Preparar a roupa branca, bordar a colcha, que trabalhão! Tarefa para meses. Hoje em dia, na máquina, vuco, vuco, vuco, num instante se borda uma colcha.”

“A gente podia passar sem a colcha bordada.”

“Isso é casamento de cambembe”, disse Marina.

D. Adélia, com os olhos suplicantes, pedia silêncio.

“A propósito de roupa branca, d. Adélia…”

Calei-me, com vergonha de oferecer os quinhentos mil-réis. O mulherão suspirou:

“No meu tempo de moça um pedido de casamento era coisa muito séria.”

Agora eu estava ali conversando sobre lençóis.

“A propósito de roupa branca, d. Adélia, estive pensando… Até falei com a Marina, provavelmente ela disse à senhora. Para abreviar, compreende?”

Compreendia.

“Cedo ou tarde eu havia de comprar esses panos. Para que etiqueta? Por isso me lembrei de propor a Marina… A senhora não leva a mal, suponho.”

Não levava:

“Quando duas pessoas se entendem…”

“Pois é. Uma espécie de adiantamento. É tirar de uma mão e botar na outra. Fica tudo em casa.”

Entreguei a Marina a pelega de quinhentos:

“Está aqui, minha filha. Comece os arranjos. E adeus, que não quero perder o ponto.”

Marina recebeu o dinheiro sem constrangimento, e eu me sensibilizei julgando que ela procedia assim por estar identificada comigo. Fiz-lhe algumas recomendações miúdas e retirei-me.

A primeira pessoa conhecida que encontrei na rua foi Julião Tavares. Senti um estremecimento desagradável, a repugnância que sempre me vinha quando dava de cara com aquele sujeito, e fingi não vê-lo, entrei numa loja para não falar com ele. Na repartição as horas correram doces e rápidas. O café estava cheio de caras amáveis. Guardei na memória pedaços de conversas. O cego dos bilhetes de loteria passou entre as cadeiras, batendo com o cajado no chão, cantando o número.

Se eu pegasse a sorte grande, Marina teria colchas bordadas a mão. Pobre de Marina! Precisava fazenda macia, pulseiras de ouro, penduricalhos.

As cadeiras da minha casa eram bem ordinárias. No tijolo safado não havia tapete. Nem um quadro na parede. E o colchão, duro como pedra, faria escoriações no corpo de Marina. Contento-me com muito pouco, habituei-me cedo a dormir nas estradas, nos bancos dos jardins.

“16 384”, gemia o cego batendo com a bengala no cimento.

Ou seria outro número. Cem contos de réis, dinheiro bastante para a felicidade de Marina. Se eu possuísse aquilo, construiria um bangalô no alto do Farol, um bangalô com vista para a lagoa. Sentar-me-ia ali, de volta da repartição, à tarde, como Tavares & Cia., dr. Gouveia e os outros, contaria histórias à minha mulher, olhando os coqueiros, as canoas dos pescadores.

“16 384.”

Vestido de pijama, fumando, olharia lá de cima os te­lhados da cidade, os bondes pequeninos a rodar quase parados e sem rumor, os focos da iluminação pública, os coqueiros negros à noite. Uns quadros a óleo enfeitariam a minha sala. Marina dormiria num colchão de paina. E quando saltasse da cama, pisaria num tapete felpudo que lhe acariciaria os pés descalços.

“16 384.”

Um tapete fofo, sem dúvida. E a cama teria uma colcha bordada cobrindo o colchão de paina, uma colcha bordada em seis meses.