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“Marina, a gente deve acabar com isto, minha filha. Vamos para dentro.”

“Vou nada!”

Torcia o corpo, defendia a virgindade com unhas e dentes.

“Está direito. Então é melhor apressar o casório.”

“Com que roupa?” disse Marina.

“Que é que falta?”

“Tudo. Eu sou uma noiva pelada, meu filho.”

Impacientei-me:

“Ora! Ora! Ora! Entre nós não há cerimônia. Arranja-se. Eu tenho umas economias, pouco, mas tenho. Também você não precisa de muita coisa. Umas fronhas, umas camisas…”

Como veem, eu tinha boa vontade. O que receava era transformar as nossas relações, miúdas, num acontecimento social importante.

Aquilo viera pouco a pouco, sem a gente sentir. Naturalmente gastei meses construindo esta Marina que vive dentro de mim, que é diferente da outra, mas se confunde com ela. Antes de eu conhecer a mocinha dos cabelos de fogo, ela me aparecia dividida numa grande quantidade de pedaços de mulher, e às vezes os pedaços não se combinavam bem, davam-me a impressão de que a vizinha estava desconjuntada. Agora mesmo temo deixar aqui uma sucessão de peças e de qualidades: nádegas, coxas, olhos, braços, inquietação, vivacidade, amor ao luxo, quentura, admiração a d. Mercedes. Foi difícil reunir essas coisas e muitas outras, formar com elas a máquina que ia encontrar-me à noite, ao pé da mangueira. Preguiçosa, ingrata, leviana. Os defeitos, porém, só me pareceram censuráveis no começo das nossas relações. Logo que se juntaram para formar com o resto uma criatura completa, achei-os naturais, e não poderia imaginar Marina sem eles, como não a poderia imaginar sem corpo. Além disso ela era meiga, muito limpa. Asseio, cuidado excessivo com as mãos. Passava uma hora no banheiro, e a roupa branca que vestia cheirava. Nos nossos momentos de intimidade eu sentia às vezes uma tentação maluca: baixava-me, agarrava-lhe a orla da camisa, beijava-a, mordia-a. Isto me dava um prazer muito vivo.

“O pior é que você ainda não me pediu”, gemeu Marina.

E fingiu-se amuada. Liguei pouca importância ao amuo, mas fiquei remoendo aquela ideia desagradável de explicar­-me aos outros sobre coisas que só eram interessantes para nós. Explicações horríveis. Necessário entender-me com seu Ramalho, pedir o consentimento dele, dizer besteiras. Ia escrever-lhe uma carta com laços sagrados, felicidade conjugal, himeneu. Infâmia. Só a ideia de escrever isto me dava náuseas. Intenções puras. E era preciso comprar móveis, trastes de cozinha, cortinas para janelas, almofadas. Intenções puras. Domingo, na missa, o padre leria: “Querem casar-se Luís Pereira da Silva, com trinta e cinco anos etc. etc., e Marina Ramalho, etc. etc.”. Luís Pereira da Silva, com trinta e cinco anos, estava longe da igreja e dos banhos. Que necessidade tinha Luís Pereira da Silva daquela verbiagem? Depois os cartões de comunicação, grandes, com letras douradas, aos colegas da repartição, aos conhecidos, às amigas de Marina, ao padrinho, oficial do exército. Indispensável um cartão ao padrinho, que era oficial do exército e servia em Mato Grosso. Alguém me mandaria um telegrama. Intenções puras. Marina dá grande valor aos telegramas.

“Peço amanhã”, murmurei compondo mentalmente as frases bestas da carta. “Falo amanhã. Ou escrevo.”

Mão de esposo, união conjugal, intenções puras — Marina gosta disto. Provavelmente iria recortar e guardar com cuidado a notícia que o jornal publicaria na sétima página, junto aos versos. Em pé, diante do livro aberto, o juiz me perguntaria: “O senhor Luís da Silva quer casar com d. Marina Ramalho?”. Eu, encabulado, mastigaria uma sílaba, esfregando as mãos. Marina, de roupa branca e flores de laranjeira, afirmaria com a cabeça, pálida e comovida. O diretor me diria: “Entrou no rol dos homens sérios, seu Luís”. D. Adélia choraria abraçada à filha, como é de costume. Os sapatos me apertariam os calos, e o telegrama seria pouco mais ou menos assim: “Felicitações ao prezado amigo”. Automóveis da casa para a igreja e da igreja para a casa. Haveria na minha sala alguns troços novos e inúteis. À noite, quando eu fosse procurar em minha mulher as últimas novidades, ela me falaria com entusiasmo naquela glória toda. No dia seguinte d. Rosália se penduraria à janela para gritar: “Estava muito bonita a sua grinalda, minha negra”. Quanto iriam custar tantas maçadas? Talvez os três contos de réis voassem.

“É o diabo, Marina. Vamos ver se arranjamos isto com simplicidade.”