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Defronte da minha casa veio morar uma família esquisita, que não se relacionou com a vizinhança: um velho barbudo, encolhido, e três moças amarelas, sujas, malvestidas, ruivas e arrepiadas. O homem, de nome ignorado, andava olhando os pés, carrancudo, e não cumprimentava ninguém. Às vezes surgia a figura de uma das moças à janela; mas se alguém aparecia na rua, o postigo se fechava silenciosamente.

“Eu queria saber que espécie de gente é aquela”, resmungava d. Adélia. “Só bicho.”

“É mesmo, d. Adélia”, concordava Antônia. “Tudo entocado. Só bicho.”

Seu Ivo procurou entrar na toca, bateu, pediu comida: não teve resposta. Um dia d. Mercedes atracou-me na passagem:

“O senhor não me dirá que mistério é esse?”

“E eu sei? Minha senhora.”

“De que viverão eles?” perguntava d. Adélia.

Seu Ramalho explicava:

“Cada qual tem os seus ganchos.”

“É exato”, confirmava d. Adélia.

Enquanto a criada andava em busca de machos, d. Rosália esquecia os meninos e ficava horas ganhando calos nos cotovelos, o olho pregado na casa da família esquisita:

“Que vida! Uma pessoa assim cria mofo. Nem vão à igreja.”

“Talvez sejam protestantes”, comentava seu Ramalho.

“Com certeza. Devem ser bodes.”

Até Marina fervia de curiosidade:

“Luís, descubra isso, meu filho.”

De repente começaram a circular boatos feios: as moças eram filhas e amantes do velho.

“Que horror! Logo três!”

“É por isso que ele anda capiongo. São remorsos.”

“Provavelmente.”

“Eu queria que me dissessem como se soube.”

“Ora como se soube! Sabe-se tudo.”

“Mas quem viu?”

O carvoeiro tinha visto o homem abotoado a uma das sujeitas, no quarto. Porcaria. Nem fechavam a porta. D. Mercedes resumiu o caso:

“É verdade.”

“O carvoeiro lhe contou, d. Mercedes?”

“Não, foi outra pessoa. Na cidade onde eles moravam todo mundo falava. Foi o que me disseram. Sei de fonte limpa.”

Quem teria dito? Com certeza a personagem graúda que vivia com ela.

“Estão ouvindo? D. Mercedes garantiu.”

“Até dá engulhos”, exclamou Antônia cuspindo. “Comer três filhas! Que lobisomem!”

Daí em diante o velho se chamou Lobisomem.

“Parece que Lobisomem amanheceu doente. Não saiu hoje.”

“São pecados.”

As crianças de d. Rosália contavam histórias de lobisomens, e o herói delas era o vizinho. A notícia chegou aos ouvidos de Julião Tavares:

“Diz que um velho por aqui destambocou as filhas? Como é?”

“Calúnias”, respondeu Moisés.

“Em todo caso é bom verificar isso. Talvez a gente pudesse agarrar uma.”

Cachorro! Lobisomem continuava como tinha chegado, indiferente, a cara enferrujada, tão distraído que esbarrava com as pessoas, e os choferes paravam os autos violentamente para não atropelá-lo. E as filhas, coitadas, amarelas, feias, nem se penteavam. Saberiam alguma coisa? Talvez não soubessem. Ao mudar-se para ali, certamente já traziam uma carga de infelicidades. E era possível que houvessem percebido fragmentos de horrores, gestos de desprezo, pilhérias ladradas na rua. Pobre do Lobisomem! Não tinha hora para sair, hora para chegar. Sempre só. Nem um guarda­-chuva, nem uma bengala, trastes necessários a homem tão curvado. Ora para um lado, ora para outro, sem destino. Que vida! Nem um hábito. Esta ideia de uma pessoa viver sem hábitos era para mim extremamente dolorosa. Apesar de haver atravessado uma existência horrível, sempre encontrara nela, mesmo nos tempos mais duros, ocupações que me entretinham. Comparava-me a Lobisomem. Eu era quase feliz, e a comparação me atenazava.

Marina tinha deixado de ver-me à tarde, mas todas as noites a gente se reunia no fundo do quintal. Ela passava pelo buraco da cerca, encostava-se ao tronco da mangueira, e eram beijos, amolegações que nos enervavam.

“Vamos entrar, descansar um bocado, Marina. Já que chegou aqui, dê mais uns passos.”

“Você está maluco? Eu vou dar o fora. Qualquer dia a gente mete o rabo na ratoeira. Os velhos descobrem tudo, estrilam, e é um fuzuê da desgraça.”

“Deixa disso, Marina, vamos lá para dentro.”

Good-bye.”

“Vem cá, Marina.”

“Vai-te embora, lobisomem.”

Até ali, àquela hora, surgia o nome do vizinho. O que mais me aborrecia era não saber se as pessoas que falavam dele acreditavam na história suja. Enchia-me de raiva por não conseguir livrar-me dos fuxicos. Desprezava involuntariamente o desgraçado Lobisomem. Se aquilo fosse verdade? Não tinha verossimilhança, era aleive, disparate. Mas tanta gente repetindo as mesmas palavras… E casos iguais já se tinham visto.

“Besteira. Perdendo tempo com bobagens. Para o inferno.”

Realmente a cara de Lobisomem não inspirava simpatia. E as filhas, de boca aberta, brancas, enroscadas, mo­les… Gente suspeita. Estas dúvidas eram terríveis. Aga­r­rava­-me ao judeu para libertar-me delas:

“Isto é o diabo. Uma criatura inofensiva, uma criatura parada!”

“Safadeza”, dizia Moisés tranquilamente.

“Infâmia. Esta canalha precisa chicote.”

“Pois não fale nisso, homem. Para que mexer em porcaria?”

“Não é tanto assim”, intervinha Julião Tavares. “O incesto é natural, explica-se.”

“Lá vem pedantismo.”

E não prestava atenção à conversa de Julião Tavares. Lembrava-me de outro indivíduo infeliz, um sertanejo que vi há muitos anos, quando ele saía da prisão depois de cumprir sentença. Era um cearense esfomeado que tinha aparecido na vila em tempo de seca. Esmolambado, cheio de feridas, trazia escanchada no pescoço uma filhinha de quatro anos. Tinham ido morar na rua das putas e viviam de esmolas. Um dia as vizinhas ouviram gritos na casinha de palha e taipa que eles ocupavam. Juntaram-se curiosos, olharam por um buraco da parede e viram o homem na esteira, nu, abrindo à força as pernas da filha nua, ensanguentada. Arrombaram a porta, passaram o homem na embira, deram-lhe pancada de criar bicho — e ele confessou, debaixo do zinco, meio morto, que tinha estuprado a menina. Processo, condenação no júri. Anos depois os médicos examinaram a pequena: estava inteirinha. O que havia era sujidade e um corrimento. Tratando a doença da filha com remédios brutos da medicina sertaneja, o homem tinha sido preso, espancado, julgado e condenado.

“Está ouvindo, seu Moisés? Cipó de boi, facão e pé no tronco.”

Moisés inflamava-se. Julião Tavares bocejava:

“Natural. A justiça não é infalível.”