Como era grande o calor, abri a janela do quintal. Uma baforada de ar quente bateu-me no rosto. Debrucei-me e distraí-me acompanhando com a vista os movimentos da mulher que lava garrafas. O gato pulou de um galho da mangueira, saltou o muro, trepou num monte de lixo e cacos de vidro. O homem triste andava entre as pipas, debaixo do telheiro, a encher dornas.
Que estaria fazendo Marina? Pensei em d. Mercedes. Vida bem sossegada a dessa galega. Um sem-vergonha o figurão que a sustentava, um caloteiro: devia os cabelos da cabeça e dava festas, punha automóveis à disposição da amásia. Como diabo podia um macho gostar daquela tipa de carnes bambas?
“Ladrões, velhacos, porcos!”
Bati a janela com força. Depois voltei a abri-la. A mulher magra, de cócoras, a saia entalada entre as pernas, continuava a lavar garrafas. O homem triste passeava entre as pipas.
Com certeza a minha vizinha àquela hora pintava as unhas. Indignei-me:
“Ó Vitória, por que não varre esta casa direito? Cisco por toda parte, montes de cisco. Tudo cheio de poeira.”
Vitória não percebeu a repreensão. Agarrei uma toalha e esfreguei com ela o guarda-louça:
“Porcaria!”
Peguei um livro, abri a porta e desci os degraus do quintal, furioso com o amante de d. Mercedes. Velhaco. Devia nas lojas, devia nas mercearias, devia ao alfaiate. Atracado aos usineiros, aos banqueiros, aos homens da Associação Comercial, numa adulação torpe. Os credores miúdos deixavam-se esfolar com medo; os grandes sangravam por conveniência: tinham interesses, arranjavam o que queriam. E um safado como aquele era troço no Estado. Que desgraça!
Deitei-me na espreguiçadeira, acendi um cigarro, abri o livro e comecei a ler maquinalmente. De quando em quando bocejava, suspendia a leitura incompreensível.
O jardim, que a antiga inquilina vinha regar todas as manhãs, estava sujo, maltratado, coberto de garranchos e folhas secas.
Soltei o livro e fechei os olhos, aborrecido. Mas os olhos não ficaram bem fechados: através das pálpebras meio cerradas distinguiam-se as coisas que estavam perto do chão, dez ou quinze metros em redor — o tronco do mamoeiro, o monte de lixo, as florinhas desbotadas. D. Adélia, no banheiro, lavava roupa, e a água espumosa corria de lá, vinha estagnar-se numa poça junto à cerca.
Se aquela tonta prestasse, estaria ajudando a mãe, ensaboando panos. Preguiça. Estava era lendo besteiras, arrancando cabelos das sobrancelhas com a pinça ou raspando os sovacos. A princípio ainda tratara dos canteiros. Habituara-se depois a levar para ali um romance, que não abria. Conversava. E eu me zangava com as conversas dela, que, como já disse, eram malucas. Zangava-me de verdade. Mas estava ali com os olhos meio fechados, espiando os canteiros e esperando que a mulherinha chegasse.
Fazia uma semana que eu andava cavando uma colocação para ela. Arranjar emprego, como não ignoram, é dificuldade. As pessoas a que a gente se dirige sorriem. Tudo fácil, às ordens, perfeitamente. Escutam as choradeiras com paciência e escrevem cartões a outras pessoas. Estas escrevem outros cartões, e assim por diante. Cada um se desaperta. Eu falara ao diretor da minha repartição:
“Doutor, tenho uma vizinha que faz pena, moça prendada. Mata-se para ajudar a família, mas, como sabe, trabalho de mulher em casa não rende. Se o senhor pudesse, com a sua influência…”
O diretor respondera distraído:
“Está bem. Vamos ver.”
Noutras repartições, a mesma história com pequenas variantes:
“Moça decente, instruída, matando-se para auxiliar a família. Um modelo. A mãe doente…”
Enfim uma cambada de mentiras inúteis. Nos bancos:
“Moça digna, alguns conhecimentos de escrituração mercantil e de aritmética.”
Nos armazéns:
“Muito preparo, muita leitura, excelente calculista. Podia encarregar-se da correspondência.”
Nas redações:
“Ó Fulano, você não me arranja aí na expedição qualquer coisa para uma moça que eu conheço? Um osso, uma sinecura que justifique dois ou três vales por mês.”
Afinal fora encontrar para Marina um emprego de cem mil-réis numa loja de fazendas. E ali estava espiando o quintal com o rabo do olho.
Chape, chape, chape. Era o vascolejar da água nas garrafas. Líquido se derramava: o homem triste enchia dornas. D. Adélia tossia no banheiro, espremendo roupa. E Vitória, na cozinha, cantava: “Currupaco, papaco. A mulher do macaco…”. Um galo no galinheiro pôs-se a arrastar a asa a uma franga. Eu estava fazendo ali a mesma coisa, apenas com mais habilidade e mais demora. A franga não aparecia. Quem se ligasse a ela faria negócio mau, seu Ramalho tinha razão. Se ele, que era pai, sustentava opinião assim, imaginem. Sovaco raspado, unhas cor de sangue e sobrancelhas que eram dois traços. Mulher pelada. Para que diabo uma pessoa arrancar as sobrancelhas?
De repente a franguinha surgiu dentro do meu reduzido campo de observação. Como disse, eu apenas enxergava uns dez ou quinze metros do jardim. Primeiramente distingui as biqueiras vermelhas de uns sapatos, aqueles sapatos que, segundo a declaração de seu Ramalho, custavam cinquenta mil-réis e duravam um mês. Para ir ao quintal, sapato de sair e meia de seda esticada no pernão bem-feito. Ótimas pernas. As coxas e as nádegas, apertadas na saia estreita, estavam com vontade de rebentar as costuras.
Talvez a franguinha tivesse percebido que eu fingia dormir: pôs-se a ciscar por ali, rindo baixinho, avançando, recuando, mostrando-se pela frente e pela retaguarda. Eu respirava com dificuldade e pensava nas lições de geografia de seu Antônio Justino: “Primeiro desaparece o casco, depois os mastros”. Era o contrário que se dava agora: quando Marina se afastava, desaparecia em primeiro lugar a parte superior do corpo, isto é, a cintura, pois a cabeça e o tronco estavam fora do meu campo de observação.
Voltava-me as costas:
“Chi, chi, chi.”
Um riso semelhante a um cochicho. Curvava-se para a frente: a cintura fina sumia-se, os quadris aumentavam. O pano marcava-lhe a separação das nádegas. Um passo, outro passo. As ancas morriam, agora eram as coxas grossas. Outro passo: uma ruga na meia cor de creme mostrava a articulação da coxa com a perna. E a perna cheia ia adelgaçando até findar num jarrete fino encastoado no tacão vermelho do sapato.
“Chi, chi, chi.”
O cochicho risonho afastava-se, chegava-me aos ouvidos como o chiar de um rato. Chiar de rato, exatamente. Chiar de rato ou carne assada na grelha. Parecia-me que aquilo estava chiando dentro de mim, que a minha carne se assava e chiava. Os tacões vermelhos viravam-se para o outro lado. As biqueiras surgiam e avançavam. Lá vinham pedaços de canelas. As mãos puxavam a saia para trás, distinguiam-se os joelhos e as coxas. Como vinha curvada para a frente, a barriga desaparecia.
“Chi, chi, chi.”
O rato roía-me por dentro. Senti cheiro de carne assada. Não, cheiro de fêmea, o mesmo cheiro que antigamente me perseguia, em meses de quebradeira. “D. Aurora, veja se me arranja um quarto mais barato. Os tempos andam safados, d. Aurora.”
As pernas de Berta eram assim bem torneadas. Apenas as de Berta eram nuas, tudo em Berta era nu.
“Chi, chi, chi.”
Lá estavam novamente os quadris expostos. Para que aqueles panos? Gritei interiormente. Não era melhor que se descobrisse tudo? Coxas descobertas, rabo descoberto.
Foi assim que vi Marina entre as pestanas meio cerradas, como Berta me aparecia. As nádegas cresciam monstruosamente — e eu mal podia respirar. Se d. Adélia e Vitória viessem ali, veriam aquela armada: Marina despida, curvada para a frente, mostrando um traseiro enorme.
Tolice. D. Adélia, fria, com o pensamento distante de coisas assim, espremia camisas molhadas no banheiro. E Vitória conversava com o Currupaco, o vivente que ela estima e não lhe provoca imagens indecentes.
Chape, chape, chape. A mulher magra não acabava de lavar garrafas. A torneira derramava líquido na dorna. Ouvia-se perfeitamente. A princípio chegava-me um som confuso. Agora, porém, os sentidos irritados percebiam tudo. O chape-chape da mulher, o rumor do líquido, pregões de vendedores ambulantes, rolar de automóveis, a correria dos filhos de d. Rosália no quintal próximo, o cheiro das flores, dos monturos, da água estagnada, da carne de Marina, entravam-me no corpo violentamente. Apertei as pálpebras. A poça de água, os canteiros mofinos, o monte de lixo, sumiram-se. O que eu via bem eram os quartos brancos de Marina curvada, as coxas brancas.
“Chi, chi, chi.”
Devia estar um pouco afastada, mostrando apenas os tacões ou as biqueiras dos sapatos. Mais perto, mais perto, o cheiro mais vivo, o chichichi mais perceptível — e eu sentia uma espécie de desmaio com aquela aproximação. O livro caiu, cruzei as pernas, sentei-me, vi Marina em pé junto da cerca, rindo como uma doida:
“Puxa! Que olhos abotoados! Parece que vai ter uma congestão.”
Eu devia estar ridículo. Baixei a cara, com vergonha, e pus-me a esfregar as pálpebras, a agitar a cabeça para espalhar as ruindades que havia dentro dela. Quando terminei a esfregação, Marina continuava no mesmo lugar, exibindo os dentinhos, com tanta malícia no rosto que fiquei besta, acuado. Felizmente podia vê-la da barriga para cima.
“Cara de mal-assombrado”, pilheriou Marina. “Sonhou com alma do outro mundo?”
A visão obscena e os desejos lúbricos esmoreceram.
“Sonhei nada!”
Estava num entorpecimento estúpido. Tive a impressão extravagante de que o ar havia tomado de repente a consistência mole e pegajosa de goma-arábica. Nesse ambiente gelatinoso Marina se movia, nadava, desesperadamente bonita, o peitinho redondo subindo e descendo, a querer saltar pelo decote baixo, pimenta nos olhos azuis, os cabelos de fogo desmanchando-se ao vento morno e empestado que soprava dos quintais. Veio-me o pensamento maluco de que tinham dividido Marina. Serrada viva, como se fazia antigamente. Esta ideia absurda e sanguinária deu-me grande satisfação. Nádegas e pernas para um lado, cabeça e tronco para outro. A parte inferior mexia-se como um rabo de lagartixa cortado. Mas eu não reparava na parte inferior, que tanto me perturbara: recebia as faíscas dos olhos azuis e desejava enxugar com beijos a saliva que umedecia os beiços um pouco grossos da minha amiga. Estava linda. Tinha corrido por ali alguns minutos como um rato, chiando. Eu era um gato ordinário. Podia saltar em cima dela e abocanhá-la: ao pé das estacas podres que Vitória remove todos os meses, desafiava-me com os olhos e com os dentes miúdos. Não saltei. O que fiz foi arranjar uma carranca séria, que devia ser burlesca, porque Marina soltou uma gargalhada.
“Marina”, grunhi, “sua mãe não lhe falou?”
“Sobre quê?”
“Sobre uma colocação. Uma colocação para você. Sim, é bom uma pessoa pensar no futuro. Vocês não conversaram?”
“Não.”
“Ah! Pensei que tivessem conversado. Pois é. Sua mãe me falou e eu andei por aí martelando. Fiz o que pude.”
Marina tinha agora o rosto comprido e uma ruga entre as sobrancelhas:
“Parece que minha mãe está com pena do bocado que me dá.”
“Não diga isso, criatura. É para o seu bem.”
D. Adélia saiu do banheiro com uma bacia de roupa molhada, que ia enxugar lá dentro, a ferro.
“Boa noite, gritou de longe.”
E entrou logo. Ia escurecendo, e aquele boa-noite era uma espécie de censura, que ela não fazia claramente porque tinha medo da filha.
“Está aí, Marina. A pobre a esta hora lavando roupa!”
Marina, em silêncio, quebrava torrões com o salto do sapato.
“Você me desculpa a franqueza. Eu não devia estar dando opinião sobre sua casa. É porque lhe tenho muita amizade. Por isso andei pedindo por aí.”
“Encontrou alguma coisa?” perguntou Marina sem entusiasmo.
“Encontrei. Para bem dizer, não encontrei coisa boa não. Emprego público não há. Tudo fechado, tudo escuro. Enfim sempre achei um gancho.”
“Onde é?”
“Numa loja. Cem mil-réis por mês. Um princípio. Depois a gente cava serviço mais fácil e mais rendoso. O que é preciso é começar.”
“Numa loja?” disse Marina com um risinho mau. “Obrigação de aturar pilhérias e até descomposturas dos fregueses. E beliscões dos empregados. Muito bom.”
“Oh! Marina!”
“Julgo que minha mãe está com intenção de me ver na rua. E você também está.”
“Oh! Marina! Que horror! Se você não quer, acabou-se. Meti-me nisso porque sua mãe me pediu, compreende? E porque lhe quero muito bem.”
Marina sensibilizou-se. Os olhos aguaram-se, o beicinho tremeu:
“Obrigada, Luís.”
E estirou a mão. Levantei-me, tomei-lhe os dedos. O contato da pele quente deu-me tremuras, acendeu os desejos brutais que tinham esmorecido. Olhando-a de cima para baixo, via-lhe os seios, que subiam e desciam, as coxas, a curva dos quadris. Veio-me a tentação de rasgar-lhe a saia. E repetia como um demente:
“É porque lhe quero muito bem, Marina.”
Apertei-lhe a mão, mordi-a, mordi o pulso e o braço. Marina, pálida, só fazia perguntar:
“Que é isso, Luís? Que doidice é essa?”
Mas não se afastava. Desloquei as estacas podres, puxei Marina para junto de mim, abracei-a, beijei-lhe a boca, o colo. Enquanto fazia isto, as minhas mãos percorriam-lhe o corpo. Quando nos separamos, ficamos comendo-nos com os olhos, tremendo. Tudo em redor girava. E Marina estava tão perturbada que se esqueceu de recolher um peito que havia escapado da roupa. Eu queria mordê-lo e receava ao mesmo tempo que d. Adélia nos surpreendesse, encontrasse a filha descomposta.
“Meu Deus!” exclamou Marina sobressaltada.
E virou-se rapidamente. Quando tornou a mostrar o rosto, o peito havia desaparecido.
“Que foi que nós fizemos, Luís?”
E começou a choramigar. A comoção dela me trouxe alguma vaidade, um pouco de arrependimento e quase a certeza de que nunca ninguém lhe havia tocado nos peitos. Apesar da admiração idiota que Marina tinha a d. Mercedes, tomei aqueles soluços como prova de inocência.
“Que foi que nós fizemos, Luís?”
A cantilena chorosa arrasava-me os nervos. Cocei a testa, agoniado:
“É o diabo, Marina. Ninguém tem culpa. Foi uma topada. E agora é continuar. Qualquer dia a gente casa. É verdade, precisamos tratar disso. Você que acha?”
Concordou passivamente, numa sílaba:
“É.”
Esta anuência chocha me desorientou. Várias vezes tinha pensado em amarrar-me a ela, e nunca me passara pela cabeça a ideia de que a minha amiga hesitasse. Mordi os beiços, despeitado:
“Falei nisto porque pensei… Compreende. Sim, perfeitamente. Enfim você é quem sabe.”
“Marina!” gritou lá de dentro seu Ramalho. “Cuidado com o sereno.”
“Está certo”, disse Marina rapidamente. “Velho pau. Se você acha que deve ser… Adeus.”
“Adeus, Marina. Outra coisa. Vamos deixar de besteira. Por que é que a gente não se encontra aqui no escuro, meia-noite, quando estiverem dormindo? Valeu? Dá cá um beijo.”
“Venha lavar os pratos, Marina.”
“Já vou.”
E escapuliu-se correndo. Sentei-me na espreguiçadeira, apanhei o livro:
“É uma dos diabos. Eu queria dar a ela alguma independência. Acabou-se. Gosto da pequena, amarro uma pedra no pescoço e mergulho.”