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“Boa tarde, d. Adélia. Como vai a senhora?”

“Assim, assim”, respondeu a mãe de Marina encostando-se à janela para esconder a saia encardida. “Hoje em dia quem é que vai bem?”

Agora eu conhecia mais ou menos d. Adélia, falava com ela, parava na calçada às vezes: “Bom dia, boa tarde, sim senhora, como tem passado?”. Conhecia também o marido, seu Ramalho, sujeito calado, sério, asmático, eletricista da Nordeste. Não gostava de mim, provavelmente por causa das minhas palestras com a filha. Perturbava-nos:

“Marina, venha lavar os pratos. Marina, venha cuidar das panelas. Lugar de moça é a cozinha.”

Ora se Marina lidava com pratos e panelas!

“Velho pau!”

E continuava na prosa.

“Cuidado com o sereno, Marina.”

“Se isto é coisa que se suporte!”

Entrava dando muxoxos, arreliada.

Seu Ramalho era uma criatura seca por natureza e humilde por ofício. Tinha um sorriso franzido, um ombro alto e outro baixo. D. Adélia, bamba, a voz sumida, os olhos assustados, parecia viver escondendo-se. Agora estava resolvida a conversar. Seria a respeito do meu namoro com Marina? Suspirou, mexeu os beiços, tornou a suspirar:

“Tudo pela hora da morte, seu Luís.”

“É verdade, tudo pela hora da morte, d. Adélia. A senhora já reparou nos preços dos remédios? A farmácia tem uma goela!”

Adélia fez um gesto de desalento:

“Nem me fale. A gente não pode adoecer mais não, seu Luís.”

Ficamos um instante calados, olhando a rua, constrangidos.

“Sim senhora, murmurei esfregando as mãos e sorrindo para o mulherão sardento.”

“É isso mesmo, respondeu d. Adélia.”

E, depois de um silêncio comprido, enrolando as mãos no babado da roupa:

“Para sustentar uma casa a gente torce a orelha.”

Concordei com alvoroço:

“Torce, d. Adélia. Que dúvida! Depois do dia 20 é preciso que uma pessoa se tranque para encurtar a despesa. Porque na rua é o café, o bilhete de teatro, a subscrição. Um horror.”

“E o mercado, seu Luís! Quer chova, quer faça sol, é ali no duro. Ninguém pode passar sem comer.”

“Perfeitamente, d. Adélia. Ninguém pode passar sem comer. O pior é o aluguel da casa. O aluguel da casa, d. Adélia! Quanto paga a senhora pelo aluguel da casa?”

“Cento e trinta mil-réis. Um roubo.”

“Eu pago cento e vinte. Um roubo maior, que aquilo não é casa. Uns quartinhos escuros, sujos. E tanto buraco de rato como nunca se viu. Uns ratinhos miúdos, deste tamanho, não sei se a senhora conhece, danados para roer pano. Não tenho um lenço inteiro, tudo furado.”

“Aqui é o mesmo”, declarou d. Adélia.

Deu um suspiro que elevou o peito volumoso, curvou-se mais para fora:

“Ó seu Luís, eu queria pedir-lhe um favor. Faz uma semana que estou matutando e sem coragem. Hoje botei a vergonha de banda.”

“Que é que há, d. Adélia?”

D. Adélia reeditou o suspiro:

“Estive pensando… Se o senhor puder, ouviu? Pedir não é desonra. A gente faz das tripas coração. Necessidade tem cara de herege.”

“Diga, d. Adélia.”

A vizinha baixou mais a voz, que tremia, e o carão sardento ficou encarnado como o vestido de chita:

“É por causa da Marina. Assim desocupada, com as mãos abanando… Ela não é preguiçosa. Cose, borda, mas trabalho de mulher em casa não adianta. Gasta-se tempo sem fim num bordado e recebe-se uma ninharia. Se fosse possível arranjar um emprego para Marina…”

Acendi um cigarro, pus-me a contar os paralelepípedos sem me animar a desiludir a vizinha.

“Dê uma penada por ela.”

Coitado de mim.

“Difícil. É preciso pistolão.”

“Eu sei”, disse d. Adélia. “Foi por isso que me lembrei do senhor, que é bem relacionado. Só conhecemos o senhor.”

“Mas d. Adélia”, respondi aflito, “a senhora está enganada. Eu sou um infeliz, não tenho onde cair morto. Uma recomendação minha não serve. Mas vou tentar, ouviu?”

Seu Ramalho dobrou o beco da usina elétrica e veio vindo, lento, negro de azeite e carvão.

“Boa tarde.”

“Boa tarde, seu Ramalho. Como vai essa gordura? Estávamos falando sobre a carestia.”

Seu Ramalho estirou o beiço:

“Cada dia vai ficando pior. É de fazer um cristão endoidecer. Ora, eu lhe conto.”

Mas não contou nada. Costuma deixar as frases em meio.

“Pois é como lhe disse”, murmurei. “Vamos ver. Que, para ser franco, nem sei se a Marina se ajeita. Ela sabe datilografia?”

“Não sabe nada”, atalhou seu Ramalho. “Você foi amolar o rapaz com peditórios, mulher? Eu não lhe tinha dito que não tocasse nisso?”

“Que é que tem, seu Ramalho? Ela quer que a moça trabalhe. É natural.”

“Trabalhar em quê, meu amigo? Só se for em pintar a cara, que é o que ela sabe fazer.”

D. Adélia, vexada, continuava a enrolar os dedos trêmulos no vestido.

“Eu falei por falar. Se fosse possível. Um ordenadozinho que desse para a roupa. Não há tantas moças empregadas? Nos telefones, nos correios…”

“São pessoas que sabem onde têm as ventas, criatura”, interrompeu seu Ramalho. “Ou que arranjaram proteção. E sua filha entrou na escola e saiu como entrou. Ou as escolas não prestam ou ela é bruta demais. Emprego para roupa. Tem graça. Cinquenta mil-réis de sapatos todos os meses. Não há dinheiro que chegue.”

“O senhor é duro, seu Ramalho”, arrisquei.

“Pois sim”, respondeu o homem arquejando por causa da asma. “É que vivo no toco, roendo um chifre.”

Falava de cabeça baixa, os olhos no chão, os músculos da cara imóveis, a boca entreaberta, a voz branda, provavelmente pelo hábito de obedecer.

“Eu falei por falar”, gaguejou d. Adélia caindo para uma banda, as banhas derramadas no parapeito da janela, onde fincava o cotovelo. “Foi, a menina com as mãos abanando…”

Seu Ramalho acendeu o cachimbo e pôs-se a esgaravatar as unhas com o fósforo queimado:

“É isso. Eu aqui não sei nada. Todo mundo de rédea no pescoço. Casa de Gonçalo. As mulheres mandam, e o corno velho é o último que tem conhecimento das coisas.”

Antônia, a criada de d. Rosália, passou bamboleando-se, foi até a esquina da rua Augusta e esteve algum tempo conversando com um soldado de polícia. Voltou, sempre se rebolando e com as pernas abertas.

É uma criatura ingênua, meio selvagem. Acredita em tudo quanto lhe dizem e tem grande necessidade de machos. Quando pega um, entrega-se inteiramente. Não escolhe, é uma rede.

Todas as tardes, findo o serviço, arruma a louça, veste os trapos melhores, calça os sapatos de verniz e sai. Se arranja algum dinheiro, deixa o emprego e amiga-se. Erra sempre. Gasta as economias, volta ao trabalho, vai acumu­lar novo pecúlio para sustentar novos amantes, novas decepções. É doida pelas crianças: passa o dia gritando, brincando com elas. Mas à noite esquece tudo e corre para a crápula. D. Rosália atura-a por causa dos filhos. Quando lhe faz as contas, diz numa voz áspera que ouço perfeitamente na sala de jantar:

“Pegue o seu ordenado, Antônia, e suma-se, não torne a aparecer aqui.”

Antônia recebe o salário, entrouxa os cacarecos, beija as crianças e sai cantando, certa de que encontrou um homem. Volta faminta, com marcas novas de feridas.

“Tu acabas no hospital, Antônia.”

Mas as crianças fazem um berreiro feio — e Antônia fica.

A presença dessa criatura vagabunda e galicada traz-me sentimentos bons.

“Como vai, Antônia?”

A cabocla respondeu descerrando os beiços grossos e mostrando os dentes largos num sorriso infantil. Seu Ramalho não a viu: estava de cabeça baixa, monologando, remexendo a cinza do cachimbo com o fósforo. D. Adélia continuava encalistrada, bicuda, machucando o vestido. Senti-me leve, quase alegre, e espantei-me de ver aquelas caras fúnebres.

“Isso não tem importância. Procurando bem… Há muitas por aí cavando a vida. Vamos ver se arranjamos alguma coisa, d. Adélia. Vamos ver. Depois lhe digo.”

“História”, murmurou seu Ramalho com desânimo. “Aquela não dá para nada. O homem que casar com ela faz negócio ruim.”