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“Que diabo vem fazer este sujeito?” murmurei com raiva no dia em que Julião Tavares atravessou o corredor sem pedir licença e entrou na sala de jantar, vermelho e com modos de camarada.

Soltei a pena, Moisés dobrou o jornal, Pimentel roeu as unhas. E assim ficamos seis meses, roendo as unhas, o jornal dobrado, a pena suspensa, ouvindo opiniões muito diferentes das nossas. As de Moisés são francamente revolucionárias; as minhas são fragmentadas, instáveis e numerosas; Pimentel às vezes está comigo, outras vezes inclina-se para Moisés.

Raramente discutíamos. O judeu cansava-se em dissertações longas, que eu aprovava ou desaprovava com a cabeça. Acontecia aprovar agora e reprovar depois. Quando bebia, tornava-me loquaz e discordava de tudo, só por espírito de contradição:

“História! Esta porcaria não endireita. Revolução no Brasil! Conversa! Quem vai fazer revolução? Os operários? Espere por isso. Estão encolhidos, homem. E os camponeses votam com o governo, gostam do vigário.”

O que eu queria era convencer-me de que não tinha razão. Desejava que Moisés estirasse argumentos e seu Ivo se revoltasse.

“Números. Nada de tapeação. Estatística.”

O judeu falava em milhões de desempregados, em consciência de classe, voltava-se para seu Ivo, que não compreendia a língua dele:

“Não entendo. Vossemecês são brancos, lá se arrumem.”

Eu gritava ao ouvido da criada:

“Ele diz que a gente não precisa de Deus. Nem de Deus nem de padres. Vai acabar tudo.”

“Credo em cruz!” opinava a mulher.

E ia para a cozinha. Julgo que nunca se ocupou com assuntos referentes à alma. Rezava em voz alta. À noite sapecava o padre-nosso e a ave-maria, antes das somas. Agora dizia “Credo em cruz!” e ia preparar o café, ler os embarques e os desembarques, junto à gaiola do Currupaco. Seu Ivo metia os olhos gulosos pelos vidros do guarda-comidas:

“Seu Luisinho vai bem. Tanto pão! tanta carne!”

Escancarava a boca, mostrava os dentes brancos, estirava os braços musculosos.

“Uma força perdida”, dizia Moisés.

Talvez houvesse também alguma inteligência perdida por detrás daqueles olhos mortos pela cachaça. Um sujeito inútil, sujo, descontente, remendado, faminto.

O outro sujeito inútil que nos apareceu era muito diferente. Gordo, bem-vestido, perfumado e falador, tão falador que ficávamos enjoados com as lorotas dele. Não podíamos ser amigos. Em primeiro lugar o homem era bacharel, o que nos distanciava. Pimentel, forte na palavra escrita, anulava-se diante de Julião Tavares. Moisés, apesar de falar cinco línguas, emudecia. Eu, que viajei muito e sei que há doutores quartaus, metia também a viola no saco.

Além disso Julião Tavares tinha educação diferente da nossa. Vestia casaca, frequentava os bailes da Associação Comercial e era amável em demasia. Amabilidade toda na casca. Ouvi-o, na festa de aniversário de um figurão, conversar com uma sirigaita. Eu estava bebendo cerveja no jardim, e eles num caramanchão diziam besteiras horríveis. Como falavam alto, percebi claramente as palavras de Julião Tavares. Não tinham sentido. Como o discurso do Instituto Histórico.

Pois foram tolices assim que aquele tipo nos veio impingir. Horrível. Diante dele eu me sentia estúpido. Sorria, esfregava as mãos com esta covardia que a vida áspera me deu e não encontrava uma palavra para dizer. A minha linguagem é baixa, acanalhada. Às vezes sapeco palavrões obscenos. Não os adoto escrevendo por falta de hábito e porque os jornais não os publicariam, mas é a minha maneira ordinária de falar quando não estou na presença dos chefes. Com Moisés dá-se coisa semelhante. Apenas, se lhe acontece engasgar-se, recorre a locuções estrangeiras. As nossas conversas são naturais, não temos papas na língua. Abro um livro, fico alguns minutos fazendo cacoetes, de repente dou um grito:

“Que sujeito burro! Puta que o pariu! Isto é um cavalo.”

Moisés toma o volume, lê uma página com atenção fungando:

“Tem coisas boas, tem ideias.”

“Que ideia! Isto é um sendeiro, não sabe escrever.”

Julião Tavares veio tomar impossíveis expansões assim. Dizia, referindo-se a um poeta morto:

“Era um grande espírito, um nobre espírito. Quanta emoção! Além disso conhecimento perfeito da língua. Artista privilegiado.”

Filho de uma puta. Esse artista privilegiado aperreou-me durante semanas, tirou-me o apetite. Na repartição, no cinema, no jornal, no café, perseguia-me a lembrança da voz antipática:

“Um grande espírito, um nobre espírito. Emoção e conhecimento perfeito da língua.”

Filho de uma puta. Não podia ser nosso amigo. Encontrava-me na rua:

“Como vai, Silva?”

E ali, no outro lado da mesa, as pernas cruzadas, com a intenção de se demorar — sorrisos, patriotismo, a grandeza do poeta morto.

Comecei a odiar Julião Tavares. Farejava-o, percebia-o de longe, só pelo modo de empurrar a porta e atravessar o corredor.

“Canalha!”

E rangia os dentes, arrumava os papéis tremendo de raiva. Tudo nele era postiço, tudo dos outros.

Se aquele patife tivesse chegado aqui naturalmente, eu não me zangaria. Se me tivesse encomendado e pago um artigo de elogio à firma Tavares & Cia., eu teria escrito o artigo. É isto. Pratiquei neste mundo muita safadeza. Para que dizer que não pratiquei safadezas? Se eu as pratiquei! É melhor botar a trouxa abaixo e contar a história direito. Teria escrito o artigo e recebido o dinheiro. O que não achava certo era ouvir Julião Tavares todos os dias afirmar, em linguagem pulha, que o Brasil é um mundo, os poetas alagoanos uns poetas enormes e Tavares pai, chefe da firma Tavares & Cia., um talento notável, porque juntou dinheiro. Essas coisas a gente diz no jornal, e nenhuma pessoa medianamente sensata liga importância a elas. Mas na sala de jantar, fumando, de perna traçada, é falta de vergonha. Francamente, é falta de vergonha.