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Foi por aquele tempo que Julião Tavares deu para aparecer aqui em casa. Lembram-se dele. Os jornais andaram a elogiá-lo, mas disseram mentira. Julião Tavares não tinha nenhuma das qualidades que lhe atribuíram. Era um sujeito gordo, vermelho, risonho, patriota, falador e escrevedor. No relógio oficial, nos cafés e noutros lugares frequentados cumprimentava-me de longe, fingindo superioridade:

“Como vai, Silva?”

À noite chegava-me a casa, empurrava a porta e, quando eu menos esperava, desembocava na sala de jantar, que, não sei se já disse, é o meu gabinete de trabalho. E lá vinham intimidades que me aborreciam. Linguagem arrevesada, muitos adjetivos, pensamento nenhum.

Conheci esse monstro numa festa de arte no Instituto Histórico. De quando em quando um cidadão se levantava e lia uma composição literária. Em seguida uma senhora abancava ao piano e tocava. Depois outra declamava. Aí chegava de novo a vez do homem, e assim por diante. Pelo meio da função um sujeito gordo assaltou a tribuna e gritou um discurso furioso e patriótico. Citou os coqueiros, as praias, o céu azul, os canais e outras preciosidades alagoanas, desceu e começou a bater palmas terríveis aos oradores, aos poetas e às cantoras que vieram depois dele. À saída deu-me um encontrão, segurou-me um braço e impediu que me despencasse pela escada abaixo. Desculpou-se por me haver empurrado, agradeci ter-me agarrado o braço e saímos juntos pela rua do Sol. Repetiu pouco mais ou menos o que tinha dito no discurso e afirmou que adorava o Brasil.

“Ah! Eu vi perfeitamente que o senhor é patriota.”

Foi a conta.

“Quem o não é, meu amigo? Nesta hora trágica em que a sorte da nacionalidade está em jogo…”

“Efetivamente”, murmurei, “as coisas andam pretas.”

Conversa vai, conversa vem, fiquei sabendo por alto a vida, o nome e as intenções do homem. Família rica. Tavares & Cia., negociantes de secos e molhados, donos de prédios, membros influentes da Associação Comercial, eram uns ratos. Quando eu passava pela rua do Comércio, via-os por detrás do balcão, dois sujeitos papudos, carrancudos, vestidos de linho pardo e absolutamente iguais. Esse Julião, literato e bacharel, filho de um deles, tinha os dentes miúdos, afiados, e devia ser um rato, como o pai. Reacionário e católico.

“Por disciplina, entende? Considero a religião um sustentáculo da ordem, uma necessidade social.”

“Se o senhor permite…”

E divergi dele, porque o achei horrivelmente antipático. Ouviu-me atento e mostrou desejo de saber o que eu era. Encolhi os ombros, olhei os quatro cantos, fiz um gesto vago, procurando no ar fragmentos da minha existência espalhada.

“Luís da Silva. Rua do Macena, número tanto. Prazer em conhecê-lo.”

E meti-me no primeiro bonde que passou. Mas não consegui desembaraçar-me do homem. Dias depois fez­-me uma visita. Em seguida familiarizou-se. E era Luís para aqui, Luís para ali, elogios na tábua da venta, só com o fim de receber outros. Não tenho jeito para isso. Duas, três horas de chateação, que me deixavam enervado, besta, roendo as unhas.

Habituei-me a escrever, como já disse. Nunca estudei, sou um ignorante, e julgo que os meus escritos não prestam. Mas adquiri cedo o vício de ler romances e posso, com facilidade, arranjar um artigo, talvez um conto. Compus, no tempo da métrica e da rima, um livro de versos. Eram duzentos sonetos, aproximadamente. Não me foi possível publicá-los, e com a idade compreendi que não valiam nada. Em todo caso acompanharam-me por onde andei. Um dia, na pensão de d. Aurora, o meu vizinho Macedo começou a elogiar um desses sonetos, que por sinal era dos piores, e acabou oferecendo-me por ele cinquenta mil-réis. Nem foi preciso copiar: arranquei a folha do livro e recebi o dinheiro, depois de jurar que a coisa estava inédita. Macedo transigiu comigo umas vinte vezes. Infelizmente voltou para São Paulo sem concluir o curso. Desde então procuro avistar-me com moços ingênuos que me compram esses produtos. Antigamente eram estampados em revistas, mas agora figuram em semanários da roça, e vendo-os a dez mil-réis. O volume está reduzido a um caderno de cinquenta folhas amarelas e roídas pelos ratos.

Trabalho num jornal. À noite, dou um salto por lá, escrevo umas linhas. Os chefes políticos do interior brigam demais. Procuram-me, explicam os acontecimentos locais, e faço diatribes medonhas que, assinadas por eles, vão para a matéria paga. Ganho pela redação, e ganho uns tantos por cento pela publicação. Arrumo desaforos em quantidade, e para redigi-los necessito longas explicações, porque os matutos são confusos, e acontece-me defender sujeitos que deviam ser atacados. Além disso recebo de casas editoras de segunda ordem traduções feitas à pressa, livros idiotas, desses que Marina aprecia. Passo uma vista nisso, alinhavo notas ligeiras e vendo os volumes no sebo. Alguns rapazes vêm consultar-me:

“Fulano é bom escritor, Luís?”

Quando não conheço Fulano, respondo sempre:

“É uma besta.”

E os rapazes acreditam.

Ora, foi uma vida assim cheia de ocupações cacetes que Julião Tavares veio perturbar. Atravancou-me o caminho, obrigou-me a paradas constantes, buliu-me com os nervos.

Às vezes eu estava espremendo o miolo para obter uma coluna de amabilidades ou descomposturas. É o que sei fazer, alinhar adjetivos, doces ou amargos, em conformidade com a encomenda. Moisés entrava, puxava uma cadeira, sentava-se, abria o jornal. Vinha Pimentel, amarelo, triste, silencioso. Seu Ivo, bêbedo, acocorava-se a um canto e punha-se a babar, cochilando. Nenhuma dessas pessoas me incomodava. Trabalhava diante delas como se estivesse só, e ninguém me interrompia.

“Revolução na China”, dizia Moisés.

Pimentel estirava o pescoço e enrugava a testa, farejando assunto. E lá vinham confusamente os chineses do telegrama. Seu Ivo queixava-se da carestia dos gêneros. Apertava o cinturão, bocejava, pedia comida. Eu dava respostas sem perceber direito as perguntas e sem interromper o trabalho. As frases iam pingando no papel, umas traziam as outras, e no fim lá estava aquela prosa medida, certinha, que me enjoava. Quando a expressão fugia ou as ideias se misturavam, acendia um cigarro. E, enquanto desanuviava a cabeça, punha os olhos distraídos na figura aniquilada de seu Ivo, que ali estava no canto da parede, babando-se, as pálpebras cerradas. As mãos eram dois calos escuros, os pés descalços eram patas achatadas.

Seu Ivo não mora em parte nenhuma. Conhece o Estado inteiro, julgo que viaja por todo o Nordeste. Entra nas casas sem se anunciar, como um cachorro, dirige-se às pessoas familiarmente, sempre a pedir comida. Passa alguns meses numa cidade, some-se de repente; aboleta-se nas povoações, nas fazendas, na capital. Frequenta as salas de jantar e as cozinhas. Quase não fala: balbucia frases ambíguas, aperreado, sempre na carraspana. Faz o que lhe mandam, recebe o que lhe dão, mas não agradece e não faz nada com jeito.

“Seu Luisinho, sinha Vitória, cadê a boia?”

Se não lhe damos atenção, conversa com o gato, conversa com o papagaio, acaba mexendo nas panelas, furtando objetos miúdos que não utiliza.

Depois de um ano de ausência, pergunto-lhe:

“Como vai, seu Ivo?”

Mas estou pensando noutra coisa.

“Ruim, tudo safado, seu Luisinho. A barriga tinindo.”

E põe-se a chorar como um desgraçado. Continuo a construir mentalmente o período interrompido.

“Vá comer, seu Ivo. Vitória, um prato para seu Ivo.”

O homem do Instituto atrapalhou-me a vida e separou-me dos meus amigos.