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Se consideramos a própria natureza das coisas, não mais alegoricamente, mas em sentido próprio, a sentença: “Crescei e multiplicai-vos” se aplica a todas as criaturas que nascem de uma semente. Se a entendemos em sentido figurado, como, segundo penso, é a intenção da Escritura, que não reserva em vão essa bênção aos peixes e aos homens, encontramos então multidões nas criaturas espirituais e corporais, como no céu e na terra; nas almas justas e injustas, como na luz e nas trevas; nos autores sagrados pelos quais a lei foi ministrada, como no firmamento estabelecido entre a água e a água; na sociedade dos povos que se tornaram amargos, como no mar; no zelo das almas piedosas, como em terra seca; nas obras de misericórdia praticadas nesta vida, como nas ervas que dão semente e nas árvores frutíferas; nos dons espirituais manifestados para o bem comum, como nos luminares do céu; nas afeições formadas para a temperança, como na alma viva. Em todas essas coisas encontramos multidões, fecundidade, crescimento. Mas esse crescimento e essa proliferação que fazem com que um só pensamento possa ser formulado de muitos modos, e que uma só fórmula possa ser compreendida de muitas maneiras, não o achamos senão nos sinais sensíveis e nas verdades inteligíveis. Entendemos os sinais sensíveis como as gerações das águas, por causa das necessidades da profundidade carnal; e as verdades inteligíveis como as gerações humanas, por causa da fecundidade da razão. E por isso cremos que a ambos esses gêneros disseste, Senhor: “Crescei e multiplicai-vos.” Nessa bênção, percebo que nos deste a faculdade, o poder de formular de muitas maneiras uma única ideia, e de compreender também de muitas maneiras uma fórmula única, mas obscura. É assim que se enchem as águas do mar, que não se movem senão por significações variadas; é assim também que a terra se enche de gerações humanas: sua aridez aparece no zelo, e a razão a domina.

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