Que dizer, então, ó minha Luz, ó Verdade? Que essa palavra não tem sentido, que é vã? De nenhum modo, ó Pai da piedade. Longe de mim, longe do servo de teu Verbo, o pensamento de tal afirmação! E se não compreendo o sentido dessa frase, que os melhores que eu, quero dizer, os mais inteligentes, a entendam melhor, segundo a medida da sabedoria que deste, meu Deus, a cada um. Mas agrade a teus olhos também a minha confissão, pela qual te confesso, Senhor, que creio não teres falado assim em vão. Não calarei as reflexões que me sugere a leitura desse texto. Elas são verdadeiras, e eu não vejo o que me poderia impedir de entender assim os textos figurados de teus livros. Sei que sinais materiais podem exprimir diversamente uma ideia que a mente não concebe senão em um sentido, e que a mente pode conceber em sentidos diversos uma ideia expressa por uma única imagem material. Eis o simples amor de Deus e do próximo: múltiplos sacramentos, inúmeras línguas, e em cada língua inúmeros modos de dizer lhe dão expressão corporal! É assim que crescem e se multiplicam as gerações das águas. Atende ainda a isto, tu, quem quer que leias estas coisas. Eis uma frase que a Escritura nos propõe sob uma só forma, e que a voz não faz soar senão de uma só maneira: “No princípio criou Deus o céu e a terra.” Não é ela entendida de muitos modos diferentes — não por engano dos erros, mas pelas várias espécies de interpretação verdadeira? É assim que crescem e se multiplicam as gerações dos homens!
Remover destaque