Em que a matéria corporal merecera de ti, para existir mesmo invisível e caótica? Porque nem mesmo essa espécie de existência teria, se não lha desses. Não existindo ainda, não tinha título algum para existir. E que títulos possuía a criatura espiritual ainda no estado de esboço, senão para ser essa coisa flutuante e tenebrosa, semelhante ao abismo, diferente de ti, se por esse mesmo Verbo não fosse conduzida ao mesmo Verbo que a criou, e se, iluminada por sua claridade, também não se tivesse tornado luz — embora não igualmente, contudo conforme à Forma que te é igual? Para um corpo não é a mesma coisa existir e ser belo, porque de outra maneira não poderia ser disforme; do mesmo modo, para um espírito criado, viver e viver sabiamente não são coisas que se confundam, porque de outro modo todo espírito seria imutável em sua sabedoria. Mas seu bem está em se unir sempre a ti, a fim de não perder, afastando-se, a luz que adquiriu ao se aproximar de ti, tornando a cair em uma vida semelhante a um abismo de trevas. E também nós, que por nossa alma somos criatura espiritual, nós nos afastamos de ti, nossa luz, nós fomos outrora trevas nesta vida, e ainda padecemos no que ainda resta de nossas trevas, até que sejamos um dia tua justiça em teu Filho único, como as montanhas de Deus, porque fomos objeto de teus juízos, semelhantes a um abismo profundo.
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