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Eu te invoco, ó meu Deus, minha misericórdia, que me criaste e que não te esqueceste daquele que te esqueceu. Chamo-te à minha alma, que preparas para te receber pelo desejo que lhe inspiras. Não abandones agora a quem te invoca. Antes mesmo que eu te faça ouvir este apelo, já o tinhas prevenido: muitas vezes me incitaste, multiplicando de mil modos tuas vozes para que te ouvisse de longe, para que me convertesse, e invocasse aquele que me chamava. Foste tu, Senhor, que apagaste todas as minhas faltas, para não ter o que castigar em mim pelo que fizeram minhas mãos, instrumentos de minhas infidelidades, e te adiantaste a todas as minhas boas ações, para recompensar o que fizeram tuas mãos, que me criaram; porque existias antes de mim, e eu nem existia para que me pudesses dar o existir. Contudo, eis que existo, graças à tua bondade que precedeu em mim tudo o que sou e tudo aquilo de que me fizeste. Não tinhas necessidade de mim, eu não era um bem que te pudesse ser útil, ó meu Senhor e meu Deus; se tenho o dever de te servir, isso não acontece porque a ação te cansa, ou porque, privado de meus serviços, teu poder diminua por isso, nem porque meu culto seja para ti o que é a cultura para a terra, que sem ela ficaria inculta: não, eu tenho o dever de te honrar a fim de ser feliz em ti, a quem devo meu ser capaz de felicidade.

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