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Quanto a mim, Senhor, se minha boca e minha pena devem confessar-te o que me ensinaste sobre essa matéria, eu te diria que outrora, ouvindo, sem nada compreender, pronunciar seu nome por pessoas que também não a entendiam, eu a concebia sob formas inúmeras e diversas, e por isso mesmo não a concebia. Meu espírito revolvia-se em extrema confusão de formas feias e horríveis; mas enfim, formas, e eu chamava de informe não o que carecia de forma, mas o que tinha tal forma que, se me aparecesse, seu aspecto insólito e bizarro desencaminharia meus sentidos e confundiria minha fraqueza de homem. Por isso, o que eu concebia era informe, não por privação de toda forma, mas por comparação com formas mais belas. A verdadeira razão me aconselhava, se eu queria conceber algo absolutamente informe, a despojá-la de tudo o que pudesse restar-lhe ainda de forma, mas eu não o conseguia; para mim, era mais fácil considerar como inexistente o que estava privado de toda forma do que imaginar um ser situado entre a forma e o nada, e que não fosse nem forma nem nada, um ser informe, um quase nada. Então minha inteligência deixou de interrogar minha imaginação, cheia de imagens de formas corporais, que ela variava e combinava à vontade. Fixei meu espírito sobre os próprios corpos, examinei mais profundamente essa mutabilidade pela qual eles deixam de ser o que foram e começam a ser o que não eram. Comecei a supor que essa evolução de uma forma para outra se fazia por intermédio de algo informe, e não do nada absoluto. Mas eu queria saber, e não apenas supor; e se minha voz, minha pena te confessassem pormenorizadamente a solução do problema que me inspiraste, qual de meus leitores seria bastante paciente para me compreender? Contudo, meu coração não deixará de te prestar homenagem e de elevar a ti um cântico de louvor por essas inspirações, porque não existem palavras capazes de exprimi-las. É a mutabilidade das coisas mutáveis que é suscetível de tomar todas as formas em que se mudam as coisas mutáveis. E em que consiste essa mutabilidade? É por acaso espírito? É talvez corpo? Seria uma espécie de espírito ou de corpo? Se se pudesse dizer: um nada que é algo, ou o que é e não é, eu a chamaria assim. E, contudo, era necessário que ela existisse de alguma maneira, para tomar essas formas visíveis e ordenadas.

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