É em ti, meu espírito, que meço o tempo. Não me perturbes com teu clamor — isto é, não te perturbes a ti mesmo com o tumulto de tuas impressões. É em ti, digo, que meço o tempo. A impressão que produzem em ti as coisas que passam persiste ainda depois que elas passam: essa impressão é que eu meço, porque está presente, e não as vibrações que a produziram e passaram. É ela que meço quando meço o tempo. Portanto, ou essa impressão é o tempo, ou eu não meço o tempo. Mas quando medimos silêncios, e dizemos que este silêncio teve a mesma duração que determinada palavra, não estendemos o pensamento até a medida dessa palavra, como se ela ainda se fizesse ouvir, a fim de podermos avaliar, no espaço de tempo, o intervalo do silêncio? Com efeito: sem o auxílio da voz dos lábios, fazemos mentalmente poemas, versos, discursos, e avaliamos a extensão de seu movimento, sua duração, uns em relação aos outros exatamente como se os recitássemos em voz alta. Se alguém quisesse pronunciar um som prolongado, e determinar antecipadamente, no espírito, sua duração, toma em silêncio a medida dessa duração, e, confiando-a à memória, começa a proferir esse som, que vibra até que atinja o limite fixado. Ou melhor: esse som vibra e vibrará, porque a parte que passou soou; a que ainda resta soará, e dessa maneira chegará a seu fim, enquanto a atenção presente vai trasladando o futuro para o passado, crescendo o passado à medida que o futuro diminui, até que, consumido o futuro, tudo seja passado.
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