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Então, Senhor, que hei de confessar-te neste gênero de tentação? Que tenho em grande apreço o louvor? Mas agrada-me mais a verdade. Pois, se me dessem a escolher entre estes dois partidos, o de ser louvado por todos por minha loucura e meus erros em tudo, ou de ser escarnecido unanimemente por minha firme e absoluta certeza da verdade, bem sei qual seria minha escolha. Contudo, não gostaria que o sufrágio de uma boca estranha aumentasse para mim a alegria que experimento pelo pouco bem que faço. Mas tenho de te confessar que não só o louvor a aumenta, mas que também o vitupério a diminui. Quando me sinto perturbado por essa miséria, uma desculpa se insinua em mim. Sabes, Senhor, o que ela vale, porque a mim me deixa perplexo. De fato, não nos mandaste apenas a continência, que nos proíbe amar certas coisas, mas também a justiça, que propõe um objeto de nosso amor; e não quiseste que amássemos apenas a ti, mas também a nosso próximo, razão pela qual muitas vezes me parece que é o progresso de meu próximo, ou as esperanças que ele dá, que me encanta, quando um elogio inteligente me alegra; e que, pelo contrário, é seu mal que me entristece quando o ouço vituperar o que ignora ou o que é bom. Às vezes também me entristeço com os elogios que fazem de mim, quando louvam em minha pessoa qualidades que me desagradam, ou quando dão muita importância a qualidades medíocres e insignificantes. Mas, repito-o, como saber se esse desgosto não provém de minha repugnância ao ver o que me louva em desacordo comigo a respeito de mim mesmo, não que seu interesse me mova, mas por causa do aumento de prazer que sinto quando o bem que amo em mim é amado pelos outros? Seja como for, não me considero louvado quando o elogio contradiz o julgamento que faço de mim mesmo, quer exaltando o que me desagrada, quer exagerando o valor do que me agrada menos. Serei, portanto, sobre este ponto ainda um enigma para mim mesmo?

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