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Daqui podemos avaliar claramente o papel do prazer e o da curiosidade na ação dos sentidos. O prazer procura o que é belo, melodioso, perfumado, saboroso, agradável ao tato; e a curiosidade também deseja conhecer as impressões contrárias, não para se expor a um sofrimento, mas por desejo de fazer experiências e de conhecer. Que prazer pode proporcionar a vista de um cadáver dilacerado, que causa horror? E, contudo, onde há um cadáver para lá correm as pessoas a fim de se entristecerem e empalidecer de emoção. E depois têm medo de revê-lo em sonhos, como se alguém as tivesse obrigado a contemplá-lo acordadas, ou como se a fama de alguma beleza as tivesse persuadido. O mesmo acontece com os outros sentidos, o que seria longo enumerar. É essa morbidez da curiosidade que está na origem das exibições de monstros nos espetáculos. É ela que nos leva a perscrutar os segredos da natureza exterior, cujo conhecimento de nada serve, e que os homens não desejam conhecer senão pelo prazer de conhecer. É ela ainda que, tendo em vista idêntico fim — uma ciência perversa —, inspira as pesquisas da arte mágica. É ela também que, na própria religião, nos induz a tentar a Deus, quando lhe pedimos sinais e prodígios, não para alguma salvação, mas só pelo desejo da experiência.

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