A esta acrescente-se outra forma de tentação, que oferece maiores perigos. Além da concupiscência da carne, que consiste no deleite voluptuoso de todos os sentidos, e cuja escravidão perde os que se afastam de ti, há ainda na alma uma outra cobiça, que se exerce pelos mesmos sentidos corporais, mas tende menos a uma satisfação carnal do que a fazer experiências por meio da carne: vã curiosidade, que se acoberta sob o nome de conhecimento e de ciência. Como se origina no apetite de conhecer, e como entre os sentidos os olhos são os principais instrumentos do conhecimento, o oráculo divino chamou-a de concupiscência dos olhos. Ver, com efeito, é função própria dos olhos. Mas nós usamos dessa palavra mesmo quando se trata de outros sentidos, quando nós os aplicamos ao conhecimento. Nós não dizemos: “Ouve como isto brilha”, nem: “Cheira como isto resplandece”, nem: “Prova como isto reluz”, nem: “Apalpa como isto cintila.” Para exprimir tudo isso dizemos ver ou olhar. E até não nos limitamos a dizer: “Olha que luz!” — sensação que somente os olhos nos podem dar —, mas dizemos ainda: “Olha que som! Olha que cheiro! Olha que gosto! Olha como é duro!” Por esse motivo, toda experiência que é obra dos sentidos é chamada, como disse, concupiscência dos olhos: essa função da visão, que pertence essencialmente aos olhos, é usurpada metaforicamente pelos demais sentidos, quando procuram conhecer qualquer coisa.
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