Que encantos sem-número os homens acrescentaram às seduções dos olhos, pela variedade de suas artes, com sua indústria em matéria de vestidos, de calçados, de vasos, de produtos de toda espécie, de pintura e outras representações, que ultrapassam de muito o uso necessário e moderado e a expressão piedosa. Correm, no exterior, atrás das produções de suas artes, e em seu interior abandonam aquele que os criou, destruindo o que ele neles fez. Quanto a mim, meu Deus e minha glória, ainda nisto encontro matéria para cantar-te um hino e oferecer um sacrifício de louvor àquele que sacrificou por mim, porque as belezas que da alma do artista passam para suas mãos hábeis vêm dessa beleza, que é superior às nossas almas e pela qual minha alma suspira dia e noite. Os artistas e seguidores das belezas exteriores tiram dessa beleza soberana apenas o critério para apreciá-las, mas não tiram dela uma regra para usá-las bem. Contudo ela ali está, mas eles não a veem. Se a vissem, não iriam além, e guardariam sua força para ti, e não a dissipariam em enervantes delícias. Mesmo eu, que afirmo e compreendo essas verdades, deixo que meus passos se enredem nessas belezas; mas tu me livras de seu laço, tu me libertas, porque tua misericórdia está diante de meus olhos. Deixo-me prender miseravelmente, e tu me libertas misericordiosamente, às vezes sem que eu o sinta, quando minha queda não foi brutal, às vezes com dor, porque já me havia apegado.
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