Tu me ensinaste a não tomar os alimentos senão como remédios. Mas quando passo dessa penosa necessidade à paz da saciedade, nessa passagem a concupiscência estende-me seu laço. Essa mesma passagem é um prazer, e não há outra para se chegar onde a necessidade nos obriga. A conservação da saúde é a razão do beber e do comer; mas um prazer perigoso, como lacaio, acompanha essas funções, e ordinariamente se esforça por tomar a dianteira, de modo que faço por ela o que digo ou quero fazer por minha saúde. Ora, a medida de um não é a mesma do outro; o que é bastante para a saúde não o é para o prazer, e muitas vezes é difícil saber-se se é uma necessidade física que pede ainda para ser satisfeita, ou se é a sensualidade que nos engana e quer ser servida. Essa incerteza alegra nossa pobre alma, feliz por preparar nela o patrocínio de uma desculpa, alegrando-se de que não fique claro o que basta à moderação da saúde, para, sob o pretexto da saúde, encobrir o negócio do prazer. A essas tentações esforço-me todos os dias para resistir, e invoco tua destra, e a ti confio minhas agitações, porque sobre este ponto ainda não firmei resolução.
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