Certamente, Senhor, canso-me nessa pesquisa, e me canso em mim mesmo: tornei-me para mim mesmo uma terra de dificuldades e de excessivos suores. Porque não exploramos agora as regiões do céu, nem medimos as distâncias dos astros, nem buscamos as leis do equilíbrio da Terra. Sou eu que me lembro, eu, o meu espírito. Não é grande maravilha se está longe de mim tudo o que eu não sou. Todavia, que há mais perto de mim do que eu mesmo? Contudo, eis que não consigo compreender a força de minha memória, sem a qual eu nem mesmo poderia falar de mim mesmo. Que direi então, desde que tenho a certeza de que me lembro do esquecimento? Direi acaso que não está em minha memória o que recordo? Ou talvez direi que o esquecimento está em minha memória, para que esta não o esqueça? Ambas as hipóteses são grandes absurdos. Vejamos uma terceira hipótese: com que fundamento poderei pretender que minha memória retém a imagem do esquecimento, e não o mesmo esquecimento, quando dele me lembro? Com que fundamento, repito, poderei dizer isto, se quando se grava na memória a imagem de algum objeto é necessário que primeiramente esteja presente esse mesmo objeto, do qual se destaca a imagem, a fim de que possa ser gravada? Assim me lembro de Cartago, e assim de todos os outros lugares por que passei; assim me lembro do rosto dos homens que vi e de tudo o que meus sentidos me fizeram conhecer; assim me lembro ainda da saúde ou da dor física, coisas cujas imagens a memória tomou quando estavam presentes, a fim de que eu as pudesse contemplar e recordar mentalmente, quando, na ausência da realidade, eu as evocasse. Se, pois, o esquecimento está na memória em imagem, e não por si mesmo, é evidente que esteve presente para que sua imagem fosse recolhida. Mas, se estava presente, como podia traçar na memória sua imagem, se o esquecimento apaga com sua presença tudo o que lá está delineado? E, contudo, seja qual for o mecanismo desse fenômeno, e por mais incompreensível e inexplicável que seja, estou certo de que me lembro do esquecimento, que apaga da memória todas as nossas lembranças.
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