Pular para o conteúdo

Grande é o poder da memória! E ela tem algo que me causa horror, meu Deus, em sua multiplicidade infinita e profunda. E isto é o espírito, e isto sou eu mesmo. Que sou, pois, meu Deus? Que natureza é a minha? Vida vária e multiforme, e sobremaneira imensa. Eis, em minha memória, campos, antros, inumeráveis cavernas, tudo isso infinitamente cheio de toda espécie de coisas, também inumeráveis. Umas aí figuram em imagens, como é o caso de todos os corpos; outras, como as ciências, aí estão realmente presentes; outras ainda aí estão sob a forma de não sei que noções ou notações: são os estados afetivos da alma, que a memória conserva quando a alma já não os sente, embora tudo o que está na memória também esteja na alma. Percorro em todos os sentidos este mundo interior, vou de um lado para outro, e nele penetro tanto quanto possível, sem encontrar limites! Tão grande é a força da memória, tão grande é a força da vida no homem que vive mortalmente! Que farei, pois, meu Deus, minha verdadeira vida? Ultrapassarei também esta minha força que se chama memória, ultrapassá-la-ei para chegar a ti, doce luz. Que dizes? Eis que, subindo pela alma a ti, que estás acima de mim, ultrapassarei também esta minha força, que se chama memória, porque desejo atingir-te pelo lado em que és acessível e unir-me a ti por onde é possível fazê-lo. Também os animais e as aves têm memória, porque de outro modo não voltariam a seus covis e ninhos nem fariam muitas outras coisas com as quais se acostumam, pois nem mesmo poderiam adquirir hábitos sem a memória. Passarei, pois, além da memória para chegar àquele que me separou dos animais e me fez mais sábio que as aves do céu. Passarei além da memória, mas onde te hei de achar, ó suavidade verdadeiramente boa e segura? Onde te hei de encontrar? Se te encontro fora de minha memória, estou esquecido de ti, e se não me lembro de ti, como te poderei encontrar?

Remover destaque