Ali se conservam também classificadas de acordo com suas espécies as sensações que as penetraram cada uma por sua porta: a luz, todas as cores, as formas dos corpos, pelos olhos; toda espécie de sons, pelos ouvidos; todos os odores, pelas narinas; todos os sabores, pela boca; enfim, pelo sentido que se estende por todo o corpo, o duro e o brando, o quente e o frio, o suave e o áspero, o pesado e o leve, quer seja extrínseco, quer seja intrínseco ao corpo. A memória recolhe todas essas percepções em seus vastos receptáculos, em não sei que secretas e inefáveis sinuosidades, para lembrá-las e retomá-las de acordo com a necessidade. Todas essas imagens entram na memória por suas respectivas portas, sendo ali armazenadas. Aliás, não são as próprias coisas que entram na memória, mas as imagens das coisas sensíveis que ali permanecem à disposição do pensamento que as evoca. Mas quem poderá dizer como foram formadas essas imagens, apesar de se conhecer o sentido pelo qual foram captadas e escondidas em seu interior? Pois, mesmo quando estou em silêncio e nas trevas, imagino, se quero, as cores, e sei distinguir o branco do preto, e todas as outras cores que desejar, sem que os sons acorram e perturbem o que considero haurido pelos olhos, embora também eles ali estejam, como que guardados à parte, ocultos. Se me apraz chamá-los, eles se apresentam imediatamente. Mesmo quando repouso minha língua e quando minha garganta se cala, canto quanto quero, sem que as imagens das cores, que ali se encontram, se interponham ou interrompam, enquanto faço uso do outro tesouro que me entrou pelos ouvidos. Do mesmo modo as demais impressões introduzidas e acumuladas em mim pelos outros sentidos, eu as recordo como me apraz; distingo o aroma dos lírios do perfume das violetas, sem cheirar nenhuma flor; e, sem experimentar nem tocar em coisa alguma, mas apenas com a lembrança, posso preferir o mel ao arrobe e o macio ao áspero.
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