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Ultrapassarei também esta força de minha natureza, subindo por degraus até meu Criador. Mas eis-me diante dos campos, dos vastos palácios da memória, onde estão os tesouros de inúmeras imagens trazidas por percepções de toda espécie. Lá estão guardados todos os nossos pensamentos, quer aumentando, quer diminuindo, quer modificando de qualquer modo as aquisições de nossos sentidos, e tudo o que aí depositamos ou reservamos, se ainda não foi sepultado ou absorvido pelo esquecimento. Quando ali estou, mando que se apresentem diante de mim todas as lembranças que quero. Algumas comparecem de imediato, outras depois de uma busca mais longa, que, por assim dizer, devem ser extraídas de certos receptáculos mais obscuros. Outras, porém, irrompem em tropel, e, quando se pede e se busca outra coisa, se põem no meio, como que dizendo: “Não seremos nós?” Eu as afasto com a mão do coração da frente de minha memória, até que se esclareça o que quero, saltando de seu esconderijo para diante de meus olhos. Há outras imagens que se apresentam facilmente e de maneira rigorosamente ordenada à medida que são chamadas, e as precedentes cedem seu lugar às que se lhes seguem, e ao cedê-lo são de novo guardadas, para se apresentarem outra vez quando eu quiser. É o que sucede exatamente quando conto alguma coisa de memória.

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