Não obstante, tu, que és meu médico interior, faz-me ver claramente a utilidade de meu propósito. As confissões de meus pecados passados — que já perdoaste e cobriste, para fazer-me feliz em ti, mudando minha alma com tua fé e teu sacramento — despertam o coração dos que as leem e ouvem para que não durmam no desespero nem digam: “Não posso” — mas despertem para o amor de tua misericórdia e para a doçura de tua graça, pela qual é forte todo aquele fraco que por ela se torna consciente de sua própria fraqueza. E quanto aos bons, agrada-lhes ouvir os pecados passados daqueles que já estão livres deles. Agrada-lhes não por serem pecados, mas porque o foram, e agora não o são. Mas que proveito, Senhor — a quem todos os dias se abre minha consciência, agora mais confiante com a esperança de tua misericórdia que de sua inocência —, que proveito haverá em confessar diante de ti aos homens, por meio deste livro, não o que fui, mas o que sou? Porque sobre a confissão do passado, e dos frutos que dela se pode tirar, já falei acima. Mas há muitos que me conhecem, e outros que não me conhecem, que desejam saber quem sou agora, neste momento em que escrevo as Confissões. Esses já ouviram de mim ou de outros alguma coisa a meu respeito, mas não podem aplicar seu ouvido a meu coração, onde eu sou o que sou. Eles querem, sem dúvida, saber por confissão minha o que sou interiormente, lá onde não podem penetrar com a vista, com o ouvido ou com a mente. Estão dispostos a acreditar em mim. Mas acaso chegarão a conhecer? A caridade, que os torna bons, lhes diz que eu não minto quando confesso tais coisas de mim. É ela quem faz com que eles creiam em mim.
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