Assim falava, e eu chorava com amarguíssima contrição de meu coração. Mas eis que ouço da casa vizinha uma voz, de menino ou menina, não sei, que dizia cantando, e repetia muitas vezes: “Toma e lê, toma e lê.” E logo mudando de semblante, pus-me a procurar com toda a atenção em minhas lembranças se porventura havia alguma espécie de jogo em que as crianças costumassem cantar algo parecido, mas não me lembrava de ter ouvido nada semelhante. Reprimindo o ímpeto das lágrimas, levantei-me. Uma só interpretação se me oferecia: a vontade divina mandava-me abrir o livro e ler o primeiro capítulo que encontrasse. Tinha ouvido dizer que Antão, assistindo por acaso a uma leitura do Evangelho, tomara para si esta advertência: “Vai, vende tudo o que tens, dá-o aos pobres, e terás um tesouro nos céus, e depois vem e segue-me”, e que esse oráculo o convertera imediatamente a ti. Por isso, voltei depressa para o lugar onde Alípio estava sentado, e onde eu deixara o livro do Apóstolo ao me levantar. Agarrei-o, abri-o e li em silêncio o primeiro capítulo que me caiu sob os olhos: “Não caminheis em glutonarias e embriaguez, não nos prazeres impuros do leito e em impudicícias, não em contendas e emulações, mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo, e não cuideis da carne em suas concupiscências.” Não quis ler mais, nem era necessário, pois, quando cheguei ao fim da frase, uma espécie de luz de segurança se infiltrou em meu coração, dissipando todas as trevas da incerteza.
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