Mas de onde vem este prodígio? E qual sua causa? Resplandeça tua misericórdia, e perguntarei — se é que me podem responder — aos obscuros castigos infligidos aos homens, e às tenebrosíssimas misérias dos filhos de Adão: De onde vem este prodígio? E qual sua causa? A alma dá ordens ao corpo, e este obedece imediatamente; a alma dá ordens a si mesma, e encontra resistência. Manda a alma à mão que se mova, e é tal sua presteza, que mal se pode distinguir a ordem da execução; não obstante, a alma é alma e a mão é corpo. A alma dá à alma a ordem de querer; uma não se distingue da outra, e, contudo, ela não obedece. De onde vem este prodígio? E qual sua causa? Manda, digo, que queira — e não mandaria se não quisesse — e, não obstante, não se faz o que ela manda. Mas não quer totalmente; logo, não manda totalmente. A alma manda na medida em que quer, e na medida em que não quer, não se faz o que ela manda, porque a vontade manda que haja vontade — não outra, mas ela mesma. Logo, não manda plenamente, e por isso não vem a ser o que ela manda. Porque, se estivesse em sua plenitude, não mandaria que fosse, porque já seria. Não há, portanto, prodígio algum em querer em parte e em parte não querer; é uma enfermidade da alma. Esta, elevada pela verdade, não se levanta totalmente, porque está oprimida pelo peso do hábito. Há, portanto, duas vontades, porque uma delas não é total, e o que uma possui falta à outra.
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