Então, em meio àquela grande luta de minha casa interior, que eu travava contra minha alma na câmara secreta que é nosso coração, perturbado tanto no rosto como no espírito, lanço-me sobre Alípio exclamando: “Que se passa conosco? Que é isto? Que ouviste? Levantam-se os ignorantes e arrebatam o céu, e nós, com todo nosso saber, sem coração, eis onde nos revolvemos: na carne e no sangue! Acaso temos vergonha de segui-los porque nos precederam, e não temos vergonha de nem sequer segui-los?” Foi mais ou menos o que eu lhe disse, e depois a violência de minha emoção arrancou-me da companhia de Alípio, que me olhava atônito e em silêncio. Porque eu não falava como de ordinário, e, muito mais que as palavras, minha fronte, minhas faces, meus olhos, minha cor e o tom de minha voz declaravam o estado de minha alma. Nossa casa tinha um pequeno jardim, de que usávamos, assim como do restante da casa, pois o proprietário que nos hospedava não a habitava. Para ali me levara a tormenta de meu coração, onde ninguém pudesse estorvar o ardente combate que eu travava comigo mesmo, até que se resolvesse o assunto conforme tu sabias e eu ignorava. Mas eu delirava para reencontrar a razão, e morria para reviver; sabia o mal que eu era, mas não sabia o bem que dali a pouco haveria de ser. Retirei-me, pois, para o jardim, e Alípio seguiu-me passo a passo; mas, embora ele estivesse presente, eu não me encontrava menos só. E como haveria ele de me deixar naquele estado? Sentamo-nos o mais longe possível da casa. Presa da mais tumultuosa indignação, eu me enraivecia por não entrar no acordo e aliança contigo, ó meu Deus, aliança em que todos os meus ossos clamavam que se devia entrar, exaltando-a com louvores até o céu. E para ir a ti não há necessidade de navios nem de carros, nem mesmo de dar aqueles poucos passos que separavam da casa o lugar onde estávamos sentados. Não somente ir, mas chegar até onde estavas, nada mais era do que querer ir, mas querer de modo enérgico, e plenamente, e não revolver e agitar de um lado para outro uma vontade meio ferida, na qual uma parte lutava por se levantar enquanto a outra caía.
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