Daqui passou a falar das multidões que vivem em mosteiros, e de seus costumes, cheios de teu doce perfume, e dos férteis desertos do ermo, coisas todas que desconhecíamos. Havia mesmo em Milão, fora dos muros, um mosteiro cheio de bons irmãos sob a direção de Ambrósio, de que também nada sabíamos. Ponticiano prosseguia, e falava sempre mais, e nós o ouvíamos atentos e calados. E assim veio a nos contar que um dia, não sei quando, estando em Tréveris, saiu em companhia de três companheiros, enquanto o imperador se encontrava nos jogos circenses da tarde, para dar um passeio pelos jardins vizinhos aos muros da cidade. Por acaso, passeando dois a dois, um com Ponticiano, e os outros dois juntos, em grupos afastados, tomaram caminhos diferentes. Caminhando sem rumo fixo, estes últimos foram dar em uma cabana, habitada por alguns servos teus, pobres de espírito, a quem pertence o reino dos céus. Nela encontraram um exemplar manuscrito da Vida de santo Antão. Um deles começou a lê-lo, e, admirado, entusiasmado, pôs-se a pensar, enquanto lia, em abraçar aquele gênero de vida, abandonando a milícia do mundo, para servir a ti. Eram ambos daqueles funcionários a que chamam agentes do imperador. Então, repentinamente tomado de amor santo e sóbrio pudor, irado consigo mesmo, olha para o companheiro e lhe diz: “Dize-me, peço-te: aonde pretendemos chegar com todos estes nossos trabalhos? Que procuramos? Qual é o fim de nossa milícia? Podemos aspirar mais no palácio do que ser amigos do imperador? E ali, que há que não seja frágil e cheio de perigos? E por quantos perigos teremos de passar para chegar a um perigo maior? E depois, quando chegaremos a isso? Mas, se eu quiser, eis que agora mesmo me torno amigo de Deus.” Disse essas palavras e, perturbado com aquela gestação de vida nova, voltou os olhos para o livro, e continuou a ler, e se transformava interiormente onde só tu vias, e seu espírito se despia do mundo, como logo se viu. Enquanto lia, e se agitavam as ondas de seu coração, sentiu de vez em quando frêmitos, e, distinguindo o melhor partido a tomar, resolveu-se a abraçá-lo, e, já teu, disse ao amigo: “Já rompi com nossas esperanças: decidi dedicar-me ao serviço de Deus, e isso quero começar agora mesmo e neste mesmo lugar. Se não me queres imitar, não me contraries.” O amigo respondeu que desejava ficar com ele, e ser companheiro de tão grande recompensa e de tão grande milícia. Ambos já te pertenciam, e edificavam a torre com o custo conveniente: o de deixar tudo o que era seu e te seguir. Então Ponticiano e seu companheiro, que passeavam em outro local do jardim, procurando-os, deram também com a mesma cabana, e advertiram-nos de que voltassem, pois já chegava a noite. Mas eles, referindo-lhes sua determinação e propósito, e o modo como nascera e se confirmara neles tal desejo, pediram-lhes que, se não queriam juntar-se a eles, não os incomodassem. Mas estes, sem se converterem, choraram-se a si mesmos, no dizer de Ponticiano, e, felicitando-os piedosamente, recomendaram-se às suas orações; depois, arrastando o coração pela terra, voltaram ao palácio; os convertidos, porém, fixando seu coração no céu, ficaram na cabana. Ambos estavam noivos; mas quando suas futuras esposas ouviram o sucedido, também te consagraram sua virgindade.
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