O certo é que não se apresentava nenhuma ocasião para interrogar a teu santo oráculo que habitava em seu coração sobre as coisas que eu queria, exceto quando se tratava de uma resposta breve, e minhas inquietudes pediam muito tempo e vagar para consultá-lo, o que nunca encontrava. Ouvia-o, é certo, explicar perfeitamente ao povo a palavra da verdade todos os domingos, dando-me cada vez mais a certeza de que podiam ser desatados todos os nós das calúnias sutis que aqueles que me enganavam teciam contra os livros sagrados. Assim, quando verifiquei que teus filhos espirituais, a quem regeneraste no seio da santa mãe, a Igreja, não entendiam aquelas palavras, “Fizeste o homem à tua imagem”, de modo a acreditar que estavas encerrado na forma do corpo humano — embora eu então não imaginasse, nem sequer suspeitasse de longe o que fosse uma substância espiritual —, alegrei-me com isso, envergonhando-me por ter ladrado durante tantos anos, não contra a fé católica, mas contra invenções de minha inteligência carnal. Tinha sido ímpio e temerário por criticar uma doutrina que eu deveria ter procurado conhecer. Mas tu — que estás ao mesmo tempo tão alto e tão perto de nós, tão escondido e tão presente, tu que não tens membros maiores nem menores, que estás inteiro em toda parte, e em lugar nenhum estás contido, certamente não tens nossa forma corpórea, e, contudo, fizeste o homem à tua imagem, e eis que ele, da cabeça aos pés, é limitado pelo espaço.
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