Em Roma fui recebido com o açoite de uma enfermidade corporal, e já ia eu para o inferno, carregando todos os males que havia cometido contra ti, contra mim e contra o próximo, pecados numerosos e pesados, que se acrescentavam à cadeia do pecado original, pelo qual todos morremos em Adão. Ainda não me tinhas perdoado nenhum deles em Cristo, nem ele havia desfeito em sua cruz as inimizades que contraíra contigo com meus pecados. E como poderia ele desfazê-las por uma cruz onde eu não via mais que um fantasma? Porque tão falsa me parecia a morte de sua carne como verdadeira a morte de minha alma, e tão verdadeira a morte de sua carne como falsa a vida de minha alma, que disto se não persuadia. Entretanto, agravando-se as febres, eu estava a ponto de partir e de perecer. Mas, para onde iria, se então tivesse que sair deste mundo, senão para o fogo e tormentos merecidos por minhas ações, de acordo com a verdade da ordem por ti estabelecida? Minha mãe tudo ignorava, mas, ausente, orava por mim, e tu, presente em toda parte, davas-lhe ouvidos onde ela estava, e onde eu estava exercias tua misericórdia para comigo, restituindo-me a saúde do corpo; mas meu coração sacrílego continuava enfermo. Na verdade, estando em tão grande perigo, não desejava teu batismo. Quando menino, eu era melhor, porque então o supliquei à piedade de minha mãe, como já recordei e confessei. Mas, para minha vergonha, eu havia crescido, e, em minha loucura, zombava dos conselhos de tua medicina; mas tu não me deixaste morrer duas vezes, tal como eu estava. Se o coração de minha mãe fosse transpassado por essa ferida, nunca haveria de sarar. Porque não posso declarar de modo suficiente o grande amor que me dedicava, e a que ponto seus sofrimentos para me dar à luz em espírito eram piores que os que suportara quando me deu à luz pela carne.
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