Mas de que me servia tudo isso, se eu te concebia, Senhor meu Deus, ó Verdade, como um corpo luminoso e infinito, e eu como uma parcela desse corpo? Que prodigiosa perversidade! Mas assim era eu, e nem me envergonho agora, meu Deus, de confessar tuas misericórdias para comigo, e de te invocar, já que não me envergonhei então de professar ante os homens minhas blasfêmias e de ladrar contra ti. De que me aproveitava, repito, a inteligência ágil para entender aquelas doutrinas, e para explicar com clareza tantos e tão enredados livros, sem que ninguém mos houvesse explicado, se em matéria de piedade errava monstruosamente e com sacrílega torpeza? E que prejuízo sofriam teus pequeninos em serem de inteligência muito mais tardia, se não se afastavam de ti, para que, seguros no ninho de tua Igreja, se cobrissem de penas, e lhes crescessem as asas da caridade com o sadio alimento da fé? Ó Deus e Senhor nosso! Esperemos, ao abrigo de tuas asas; protege-nos, leva-nos! Tu levarás os pequeninos, e até que sejam anciãos tu os levarás, porque nossa firmeza só é firmeza quando está em ti; mas quando é nossa, então é debilidade. Nosso bem vive sempre contigo, e, porque nos afastamos dele, nos pervertemos. Voltemos já, Senhor, para que não sejamos destruídos, porque em ti vive, sem falha alguma, o nosso bem, que és tu mesmo; e não temeremos que não haja para onde voltar, pois dali caímos; e, em nossa ausência, não desaba a nossa casa, que é tua eternidade.
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