Desse modo amava eu então aos homens, pela opinião dos homens, e não pela tua, meu Deus, em quem ninguém se engana. Contudo, por que não o louvava como se louva a um cocheiro célebre ou a um caçador afamado pelas aclamações do povo, mas de modo mais distinto e mais sério, tal como eu gostaria de ser louvado? Porque, certamente, eu não gostaria de ser louvado e amado como os histriões, embora eu também os amasse e louvasse; antes, preferiria permanecer oculto a ser assim conhecido, e até ser odiado a ser assim amado. Onde se distribuem, em uma só alma, os pesos de amores tão vários e diversos? Como é que amo em outro o que não rejeitaria nem afastaria para longe de mim se não o odiasse, sendo eu e ele homens? Aprecia-se um bom cavalo, sem que se queira ser cavalo, se isso fosse possível. Mas de um histrião não se pode dizer o mesmo, pois tem a mesma natureza que nós. Logo, amo em um homem o que teria horror de ser, embora também eu seja homem! Grande abismo é o homem, cujos cabelos tu, Senhor, tens contados, e nenhum deles se perde diante de ti; e, contudo, mais fáceis de contar são seus cabelos que suas paixões e os movimentos de seu coração.
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