Quem será capaz de enumerar teus louvores, mesmo limitando-se ao que experimentou em si mesmo? Que fizeste então, meu Deus! E quão impenetrável é o abismo de teus juízos! Porque, sendo meu amigo atacado de febre, ficou por muito tempo sem sentidos, banhado no suor da morte, e como temessem por sua vida, batizaram-no sem que ele o soubesse, com o que não me importei, persuadido de que seu espírito guardaria melhor os sentimentos que eu lhe havia inculcado do que o sinal que recebera no corpo inconsciente. A realidade, contudo, foi muito outra. Porque, melhorando, e sendo posto a salvo, logo que lhe pude falar — e o fiz logo que ele o pôde, pois não me afastava um momento de seu lado, e dependíamos mutuamente um do outro —, tentei rir-me em sua presença do batismo, julgando que também ele zombaria comigo de um batismo recebido sem conhecimento nem sentido, mas ele já sabia que o havia recebido. Olhando-me então com horror, como a um inimigo, admoestou-me com admirável e repentina franqueza, dizendo-me que se queria continuar a ser seu amigo deixasse de dizer tais coisas. Admirado e perturbado, reprimi toda a minha emoção, esperando que convalescesse primeiro, e recobradas as forças, estivesse disposto a discutir comigo no que mais me agradasse. Mas tu, Senhor, livraste-o de minha loucura, guardando-o em ti para meu consolo, pois, poucos dias depois, estando eu ausente, voltaram as febres e ele morreu.
Remover destaque