Por isso, quando se indaga a causa de um crime, não se costuma acreditar nela, senão quando se mostra que pôde haver ou o desejo de alcançar algum daqueles bens que chamamos ínfimos, ou o medo de perdê-los. Sem dúvida são belos e graciosos, embora, comparados com os bens superiores e beatíficos, sejam vis e rasteiros. Cometeu um homicídio. Por que o fez? Porque desejou a esposa do morto, ou suas terras, ou porque quis roubar para ter com que viver, ou porque temeu perder, por causa dele, algum bem semelhante, ou então, ferido, ardeu em desejos de vingança. Por acaso cometeria o crime sem motivo, apenas pelo gosto de matar? Quem pode acreditar em semelhante coisa? Porque, mesmo de certo homem insensato e excessivamente cruel, de quem se disse que era mau e cruel sem razão, acrescentou-se, contudo, um motivo: “Para que o ócio não lhe entorpecesse a mão ou o espírito.” Mas por que isso mesmo? Por quê? Para que, com aquele exercício de crimes, tomada a cidade, conseguisse honras, poderes e riquezas, e se livrasse do medo das leis e da dificuldade das circunstâncias, causada pela pobreza de seu patrimônio e pela consciência de seus crimes. Assim, pois, nem o próprio Catilina amava seus crimes, mas outra coisa, por cujo motivo os cometia.
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